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Proibir o Banco Central Europeu de financiar directamente os Estados tinha um objectivo: obrigá-los a, como qualquer empresa ou cidadão, fazer contas. Impedir a irresponsabilidade – ou aceitar as consequências. Não resultou. Pelo contrário: endividámo-nos na mesma, a juros mais elevados. Agora muitos recusam admitir o erro. Falam em «ditadura da dívida». Não deixa de ter piada. A dívida nasceu de actos livres. É como se uma família, ao descobrir não ter afinal dinheiro para pagar as prestações da casa, do carro, do colégio dos filhos, do acesso à net e à SportTv, dos iPhones e iPads e iOutrasCoisas acusasse os bancos e a escola e a Zon e a Worten de lhe extorquirem dinheiro indevidamente – e exigisse o pagamento aos vizinhos. Há apenas um ponto em que quem assim fala tem alguma razão: a lógica do sistema fez com que os bancos achassem que podiam ganhar muito dinheiro sem risco – os Estados pagariam sempre. Mas não foram os bancos que lançaram emissão de dívida pública atrás de emissão de dívida pública. Foram os Estados. Os governos, em nome de todos os cidadãos – mesmo daqueles que se opunham ao aumento do endividamento. A solução, agora? Parece que há três (mais as suas combinações): corrigir, cortando severamente nos gastos; convencer os países em melhor situação a assumirem parte das dívidas dos restantes enquanto tal lhes for possível (eurobonds); conseguir que o BCE faça agora o que se procurou evitar que fizesse antes: financiar a irresponsabilidade (algo que, no fundo, já está a fazer, ao emprestar aos bancos para estes continuarem a comprar dívida pública). Cortar gastos não é user friendly, já o sabemos. Arranjar quem nos pague as contas poderia não durar muito – pouca gente gosta de andar a pagar contas alheias, ainda por cima tendo que se endividar para o fazer (a certa altura, pode mesmo acabar-se-lhe o crédito). E, quanto à hipótese de colocar o BCE a imprimir notas frescas e a emprestá-las aos governos a juros simpáticos, convém começar por reconhecer que a desvalorização do euro que previsivelmente se seguiria não ajudaria por aí além a nossa competitividade: apesar de se verificar uma saudável tendência para a diversificação de mercados, setenta por cento das exportações portuguesas ainda vão para a zona euro; uma subida da inflação (um euro mais fraco representaria custos acrescidos em todos os bens e materiais importados) faria diminuir o poder de compra de todos os cidadãos dos países do euro, prejudicando, pelo menos a curto prazo, a fatia maioritária das nossas exportações. Se a inflação não lhes destruísse o crescimento (grande «se»), talvez os países fortemente exportadores – como a Alemanha – ganhassem. Nós, na melhor das hipóteses, apenas mais tarde. Ou antes: nós ganharíamos, de imediato, de outra forma. A do costume: com dinheiro barato a entrar, poderíamos voltar a alargar o cinto durante uns tempos. Semanas, meses, um par de anos. Contudo, até as pessoas que acreditam que a inflação não dispararia (é curioso verificar como a evolução da inflação se tornou numa questão de fé) têm de reconhecer que o BCE não poderia continuar indefinidamente a "salvar" os países em dificuldades orçamentais. Pelo que a pergunta crucial é: acreditamos mesmo (lá continuamos nas questões de fé) que, com o dinheiro do BCE (ou com os eurobonds), conseguiríamos crescer o suficiente para compensar os efeitos negativos das políticas públicas «expansionistas»? A juros ligeiramente mais elevados, é certo, essa foi a via que tentámos em 2008 e 2009 (e escrevo «ligeiramente» porque, até à Primavera de 2010, o diferencial entre a nossa taxa de juro e a alemã manteve-se quase sempre abaixo dos 100 pontos base – ver aqui, no gráfico 7, página 18 –, ou seja, não muito acima da taxa a que seriam transaccionados os eurobonds e cerca de dois por cento acima da taxa directora actual do BCE). Por outras palavras: essa foi a via que nos trouxe onde estamos. Mas talvez sejamos afinal um povo de permanentes optimistas. E, se a coisa corresse mal (precisamos sempre de arranjar uma consolação, não é?), ao menos teríamos a certeza de ver a Alemanha naufragar ao nosso lado.


7 comentários

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De Luís Lavoura a 03.05.2012 às 14:33

a desvalorização do euro que previsivelmente se seguiria

Essa desvalorização já há muitos meses está a ocorrer.

Já há muitos meses que, como consequência da crise das dívidas dos Estados da Zona Euro, o euro se vem desvalorizando gradualmente face às outras principais divisas.
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De Luís Lavoura a 03.05.2012 às 15:25

a hipótese de colocar o BCE a imprimir notas frescas e a emprestá-las aos governos a juros simpáticos

Convenhamos que não há muita diferença, em termos de consequências inflacionistas, entre isso e aquilo que o BCE já hoje está a fazer - imprimir notas frescas e emprestá-las aos bancos a juros simpáticos.

Ou seja, a diferença, em termos de inflação e de desvalorização da moeda, entre emprestar dinheiro fresco aos bancos privados, como o BCE faz, e emprestar dinheiro fresco aos governos, é pequena ou nula.

Com uma diferença crucial: os bancos utilizam, em grande parte, o dinheiro fresco para reforçar os seus balanços, que estão delapidados por dívidas malparadas; os governos utilizariam o dinheiro para o pôr a circular, estimulando a economia.
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De José António Abreu a 03.05.2012 às 16:12

Ora bem, o problema disto tudo é que há demasiadas variáveis e o resultado depende de como acreditamos que elas se comportariam nos vários cenários.

1. Claro que o BCE já está a fazê-lo, ao emprestar aos bancos. Na minha opinião, é um erro - não exactamente (mas também) por lhes emprestar mas por eles estarem a usar parte do dinheiro para comprar ainda mais dívida pública, aumentando o esquema de Ponzi em que tudo isto se tornou.

2. Os Estados precisariam de muito mais dinheiro, durante muito mais tempo, especialmente se o crescimento não correspondesse às expectativas dos optimistas. A desvalorização do euro seria muito superior (dependendo também de outros factores - lá está o número excessivo de elementos a ter conta -, como o comportamento da economia americana e a cotação do dólar). O risco de inflação também.

3. "Estimular" a economia é uma expressão que me assusta à brava. Normalmente quer dizer estimular o consumo. Vamos fazer um pequeno exercício e partir do princípio que Portugal recebia ao longo de três ou quatro anos umas dezenas de milhar de milhões de euros do BCE à tal taxa de juro simpática. O que deveríamos privilegiar?
a) Diminuir a austeridade, adiando reformas dolorosas, repondo cortes, baixando impostos como o IVA e o IRS e aumentando o investimento público.
b) Manter a austeridade e as reformas e aproveitar o dinheiro para melhorar a competitividade das empresas - por exemplo, fazendo a vontade ao FMI e diminuindo fortemente a parte da Taxa Social Única paga por elas.
Se fizéssemos b), talvez houvesse vantagens em nos ser dado mais dinheiro, mais barato. Caso contrário, é provável que, como sucede há muitos anos, só estivéssemos a aprofundar o buraco. E acreditamos mesmo que faríamos b)? De resto, se, em resultado da distribuição de dinheiro por parte do BCE aos vários países europeus com problemas orçamentais, a inflação tivesse subido, as pessoas precisariam ainda mais que a austeridade fosse aliviada. Ou seja: seria preciso a) - estímulo do qual não resultaria nenhuma transformação de fundo da economia.

4. A verdade é que teremos sempre de fazer um ajustamento. Até sem problemas orçamentais teríamos. O aumento da esperança média de vida, dos custos da saúde, etc., não deixariam alternativa. Resta saber se continuamos a acreditar que o adiamento poderá resolver - ou minorar - os efeitos desagradáveis. Julgando pelas opções que fizemos no passado e pela mentalidade que parece continuar a imperar, eu diria que não. Mas eu sou pessimista.
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De Guilherme a 03.05.2012 às 19:32

Parabéns pelo post.
Resume na perfeição o problema em que estamos metidos

""Estimular" a economia é uma expressão que me assusta à brava". Adorei esta frase!
Sempre que um politico fala em "estimular" a economia deveria ser imediatamente confrontado com a pergunta "à custa de quê e para quê?"


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De José António Abreu a 03.05.2012 às 23:18

Obrigado, Guilherme. Assim como assim, não é um cenário muito animador - mas é o que é.
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De lucklucky a 04.05.2012 às 16:43

Só vejo optimistas aqui :)

Defice de 5% e crescimento de 2% não é crescimento.

É recessão diferida.

Um país com défice 0 e recessão de 1% está em menos má situação que o país acima.
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De José António Abreu a 04.05.2012 às 19:34

Bom, comparados consigo todos parecemos o 'voltaireano' Dr. Pangloss, lucklucky... :)

E porque insiste em misturar a matemática nestes assuntos?
(Vai-se a ver e há por aí quem acredite que conseguiríamos crescer a 6%)

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