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Cenas da luta de classes nos subúrbios

por José Navarro de Andrade, em 02.05.12
Frans Floris, "Banquete dos deuses", 1550

 

O que se passou ontem no Pingo Doce, não a corrida aos supermercados mas o êxtase ideológico que dela decorreu, é mais um episódio do infindável conflito entre platónicos e pragmáticos.

Os platónicos têm a verdade no bolso, sabem perfeitamente quais são os princípios ideais por que se deve reger a boa sociedade e não perdem ocasião para derramá-los sobre qualquer acontecimento que se lhes depare. Os platónicos são moralistas porque tudo para eles é uma questão moral, consequência primeira de quem tem dificuldades em encaixar a realidade nos preclaros princípios. Se estes são incontestavelmente certos e justos, logo aquela, se lhes resiste, está errada ou é má. Os platónicos são, assim, judicativos a outrance, sempre de dedo apontado aos modos e às acções dos outros – os alienados.

No tempo de Marx não havia classe média. Havia pequena-burguesia que era uma categoria social diferente. Os caixeiros e escriturários não constituíam uma chusma significativa para ganhar estatuto de classe. A classe média é uma criação da esquerda, das sociais-democracias europeias e americana, pelo que higienicamente tende a abjurar o conservadorismo. Com bastante pertinência, sobretudo em Portugal onde a classe média é débil e muito recente, ela associa os valores conservadores: 1) ao snobismo dos pretensos fidalgos que mal disfarçam a bastardia do seu arbusto genealógico, mas ainda assim pavoneiam e reivindicam uma pretensa superioridade social; 2) aos suaves modos da elusiva alta burguesia financeira, que desde o sr. Burnay verdadeiramente manipula a economia portuguesa desde o seu refúgio de Cascais; 3) ou à marialva bruteza dos remanescentes latinfundários, que embora nunca tenham lido “O Delfim” já intuíram o fim do tempo em que vinham a Lisboa passar os dias que demoravam a gastar 40 contos em coristas.

Daqui resulta que a classe média vive em permanente crise de identidade marxista, de modo que para aliviar a sua má consciência fez do platonismo de esquerda a sua ideologia. Com indisfarçável desdém aponta baterias ao Cavaco de Boliqueime, ao Passos de Massamá e, sem complexos, ao Jerónimo de Pirescoxe, substituto do grandioso dr. Cunhal. Sobre estes prefere sobremaneira a esquerda gentrificada dos drs. Soares e Louçã.

Como não podia deixar de ser, a classe média platonicamente moralista horrorizou-se com as hordas suburbanas que ontem pilharam os Pingo Doce por 50% do preço de rótulo, vendo nela o fim do mundo saciado, nivelado e elegante com que sonha. Fizeram-se filmes no pressuposto de que as imagens falam por si obliterando a máxima de Godard segundo a qual “un travelling est une affaire de morale” – tudo está no modo como se vê, não no que é visto.

Zombies, alienados, indignos, terceiro-mundistas, consumistas, coitadinhos a tirar a barriga de misérias, a barbárie, eram os outros, ou o Grande Outro, para usar a tranquilizadora terminologia lacaniana, que se agitava nos corredores do Pingo Doce, sem ao menos evocar os uivos de Ginsberg. E claro, para que tudo bata certo, tratou-se de uma provocação. O que não se quis ver foi uma coisa simples e demasiado chã: uma oportunidade. O povo (o que quer que esta designação signifique), sempre pragmático nas suas escolhas, viu essa oportunidade. O moralista chama-lhe oportunismo, mas isso é porque os seus princípios o cegam.

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10 comentários

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De l.rodrigues a 02.05.2012 às 15:34

"O povo (o que quer que esta designação signifique), sempre pragmático nas suas escolhas, viu essa oportunidade. O moralista chama-lhe oportunismo, mas isso é porque os seus princípios o cegam."

Gostaria de ver este tipo de análise quando se fala do endividamento dos portugueses. Nesse caso já não foi pragmático nem foi o aproveitar de uma oportunidade, e o moralista diz que viveu acima das suas possibilidades. O povo tem muitas caras, depende de que as pinta.
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De L.A. a 02.05.2012 às 16:02

...e no entanto, encontramos ai, no endividamento - porque se gastou de mais, e muitas vezes, em bens supérfluos - e no 'aproveitar' as promoções - porque se está em dificuldades financeiras - , uma tónica em comum: o consumismo cego e pragmático. É que não vejo outro!
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De L.A. a 02.05.2012 às 15:35

Porque é que os princípios cegam o moralista e o pragmatismo não cega o povo?
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De singularis alentejanus a 02.05.2012 às 16:26

É um principio básico das leis do mercado, que a grande maioria do Povo (com P grande)desconhece, não se deve, porque poder pode-se, vender produtos a um preço inferior ao que se comprou.
Infelizmente todo o mundo Ocidental está subjugado ao poder económico, a troco de meia dúzia de tostões obteêm milhões.
A verdadeira riqueza não é essa, é outra e bem diferente.

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De José Gomes André a 02.05.2012 às 16:44

Grande malha.
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De Ana Vidal a 02.05.2012 às 17:23

Gostei da análise, patrício. Há um moralismo implícito na superioridade de quem acha o povo incapaz de decidir sozinho.
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De Pedro Correia a 02.05.2012 às 19:26

Os pregoeiros da moral espumam contra o "lucro". Se as grandes superfícies comerciais falissem, por falta de lucro, e esse facto condenasse mais uns quantos milhares de portugueses ao drama do desemprego, os mesmos pregoeiros espumariam contra a gestão incompetente dos "grandes capitalistas" que tinham conduzido as empresas à falência.
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De l.rodrigues a 02.05.2012 às 19:49

Lucro, assumindo que não houve "dumping".
E de resto essas posições que condena não são incompatíveis, ser contra o lucro excessivo e contra a gestão incompetente...
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De da Maia a 02.05.2012 às 22:36

O texto é bom, e só faço um reparo ao 2º parágrafo... vendo pelo outro lado:
- Os pragmáticos não são moralistas porque pouco para eles é uma questão moral, consequência primeira de quem não tem dificuldades em encaixar a realidade na congénita ausência de princípios.

O sonho moveu o Homem para além do pragmatismo competitivo das alimárias, mas concorre sempre um movimento regressivo que procura levar tudo a uma mera competição, e à sobrevivência dos mais fortes. Nesse universo animalesco, assim idealizado, acabaria por ficar só um, sozinho, definhando por não ter com quem competir...
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De Júlio Cortez Fernandes a 03.05.2012 às 18:20

Hordas suburbanas e urbanas,porque aonde existe um destes supermercados,o comportamento foi o mesmo .Essa léria do "povo" não passa dum eufemismo que se aplica ao conjunto de pessoas da mais extremada incultura que "habitam neste cu do mundo onde tudo chega atrasado ,o progresso a civilização e o caminho de ferro"(J.R.Miguéis),e que infelizmente são a maioria.

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