Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




França em tempo de viragem

por Pedro Correia, em 02.05.12

 

Logo à noite os franceses - e milhões de europeus - assistirão ao debate televisivo entre o socialista François Hollande, que na primeira volta das presidenciais venceu por escassa margem (28,6% contra 27,2%), e o conservador Nicolas Sarkozy, inquilino do Palácio do Eliseu desde 2007.

Marine Le Pen já anunciou que não recomenda o voto em nenhum dos candidatos. É uma má notícia sobretudo para Sarkozy, que pretende cativar a esmagadora maioria dos 6,4 milhões de eleitores da Frente Nacional - a grande surpresa da primeira volta, na qual a filha de Jean-Marie Le Pen atingiu os 18%.

 

No escrutínio do próximo domingo está muito mais em jogo do que o próximo titular da presidência francesa: está também em jogo o destino da União Europeia, alicerçada no cimento franco-alemão.

O risco da desagregação da Europa é real. Como nunca o foi desde 1957.
Mas a verdade é que também nunca como agora o discurso anti-europeu foi tão popular em França. De tal maneira que cativou cerca de um terço do eleitorado que foi às urnas no dia 22.

Há muitos anti-europeístas, na esquerda radical e na direita radical - aliás com posições simétricas em diversos domínios.

Uns exigem que Paris rasgue o Tratado de Lisboa, como Jean-Luc Mélenchon, o candidato da Frente de Esquerda (agrupando comunistas e esquerdistas radicais) que, abandonando anteriores teses federalistas, passou a dizer nesta campanha que a União Europeia"deixou de ser a solução para passar a ser o problema".

Outros, como Marine Le Pen, advogam já sem peias o regresso ao franco. Sabendo que uma Europa sem euro deixará de ser Europa.
Mélenchon, de algum modo, já pertence ao passado: no dia 22 obteve um resultado muito aquém do que previam todas as sondagens. O melhor que conseguiu (17%) foi em Saint-Denis - na antiga 'cintura vermelha' de Paris. Nem o enorme desgaste do mandato de Sarkozy nem o facto de neste primeiro escrutínio não estar sequer em jogo o chamado 'voto útil' à esquerda o levaram a ultrapassar uns decepcionantes 11,1% a nível nacional - basta recordar que o comunista Georges Marchais, na primeira volta das presidenciais de 1981, conseguiu 15,35%.
Mas a maior derrota de Mélenchon ocorreu no plano simbólico, ao quedar-se no quarto lugar, muito atrás de Marine Le Pen - ela sim, congregadora do essencial do voto de protesto. E - espantosamente - também a maior beneficiária do voto dos operários franceses: 29% votaram nela (mais um ponto percentual do que Hollande, o segundo candidato preferido pela classe operária). Algo que devia motivar a reflexão de toda a esquerda europeia no momento em que se regista uma inédita taxa de 10,9% de desemprego na zona euro.


O problema maior em França está na direita extremista, que sob a insígnia da Frente Nacional capitaliza também o essencial do discurso anti-europeu, mobilizando os cidadãos "invisíveis" e "esquecidos" dos arrabaldes citadinos e das pequenas comunidades do interior que se sentem excluídos desta construção europeia enquanto contemplam, nostálgicos, as ruínas das fábricas - símbolos da França de outrora. Orgulhosa potência industrial e cultural até há poucos décadas, a velha pátria do general De Gaulle atravessa um período de inegável decadência.

Qualquer dos candidatos, para vencer no domingo, precisa dos votos que agora recaíram na Frente Nacional, cujas propostas merecem a aprovação de 37% dos franceses. Como acentuava há dias o insuspeito Le Monde, «é Marine Le Pen quem conduz esta campanha. São os temas da extrema-direita que estão no centro do debate».
Assim é. Já influenciaram o errático discurso de Sarkozy, que agora defende a suspensão do acordo de Schengen no espaço francês. E até o prudente Hollande começa a lançar sérias prevenções contra a imigração descontrolada.
A contaminação do centro político por franjas radicais é a consequência mais preocupante da crise europeia. Não tenhamos dúvidas: apesar das dificuldades actuais, a União Europeia - parafraseando Churchill - é a pior das configurações políticas excluindo todas as restantes. Mil anos de guerras sangrentas provocadas pela confrontação dos nacionalismos na Europa confirmam esta evidência.

 

Publicado também aqui

ADENDA: Excertos de alguns dos principais debates presidenciais em França


10 comentários

Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 02.05.2012 às 16:16

(1) a filha de Jean-Marie Le Pen

Não acho correto que se designe a senhora como sendo filha de quem é. Ela tem méritos e uma identidade próprios. Não me parece correto que se identifique uma política apenas por referência ao seu pai, ou marido, ou seja quem fôr.

(2) uma Europa sem euro deixará de ser Europa

Não. A União Europeia já o era antes de haver euro. E há muitos países da União Europeia que não têm o euro como moeda. A União Europeia sem euro nada tem de impossível.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 02.05.2012 às 22:10

Não acha "correto" escrever-se que George W. Bush é filho do anterior presidente Bush? Ou que a actual secretária de Estado dos EUA é casada com o ex-presidente Bill Clinton? Ou que Benazir Bhutto era filha do ex-presidente paquistanês Ali Bhutto? Ou que Cristina Fernández de Kirchner é viúva do falecido presidente argentino Nestor Kirchner? Ou que Raúl Castro sucedeu ao irmão Fidel? Ou que o Kim que hoje manda na Coreia é filho do ditador Kim e neto do ditador com o mesmo apelido?
Não acha "correto" que num blogue chamado Speaker's Corner de que você faz parte alguém tenha escrito isto em 2007: «Ségolène Royal apresenta-se como a nova geração de mulheres dispostas a tomar o poder, e a primeira mulher a ser presidente da república. É neste momento presidente Regional de Poitou-Charentes, e mulher do presidente do PS francês, François Hollande»?
Registo que não acha nada disto "correto" apesar de serem dados factuais. Naturalmente, eu nada tenho a objectar.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 03.05.2012 às 10:47

Não, não acho correto designar-se a sra Clinton como "a esposa de Bill Clinton". Porque a sra Clinton está onde está pelos seus méritos próprios, e não como um avatar do marido.

Uma coisa é informar-se os ouvintes que a senhora é esposa de quem é. Outra coisa, um bocado diferente, é referi-la continuadamente como "a esposa de...".

Da mesma forma, a sra Le Pen é, certamente, a filha de J-M Le Pen, e os leitores merecem saber isso. Mas também é verdade que ela tem méritos e um estilo próprios e diferenciados dos do pai. Não é por isso, em meu entender, correto designá-la por "a filha de J-M Le Pen".

Curiosamente, este tipo de tratamento é quase sempre reservado a políticas mulheres, mas só rarissimamente aplicado a homens. Trat-se de uma forma de machismo subliminar, que pretende sugerir que as políticas só são o que são por serem filhas ou esposas ou viúvas de um determinado homem.
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 02.05.2012 às 19:56

Não percebo esta obsessão com o Unionismo(o nome Europa não pertence aos chamados Europeístas). O argumento que apresenta é o mesmo que dizer que se fossemos todos iguais não havia conflitos.
Por isso é que o Unionismo é um projecto moral e eticamente falhado à partida.
Ou seja nada muda, a solução é só fazer um bolo maior.
O Unionismo não muda nada no comportamento e praticas em lidar com a diferença na Europa e o problema que é o poder excessivo dos Políticos e concepção do Estado centralista de Bismarck que existe na Europa.
Em vez de se seguir por exemplo a Suiça...
Ora como é que um continente com políticos que não aceitam a diferença existe no mundo?
Por isso é que depois the Monnet e Delors aparecem Le Pen e Maoístas. Como sempre a Europa anda entre os 8 e 80. Entre o Pacifismo Suicida e o Militarismo Suicida. Sustentável não é uma palavra Europeia pois o Romantismo continua imparável nos seus altos e baixos.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 02.05.2012 às 22:31

Entre os herdeiros de Monnet e Delors, por um lado, e as forças extremistas, por outro, eu não hesito quanto ao meu lado. E você?
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 02.05.2012 às 23:57

Na minha opinião são dois lados da mesma moeda. Todos querem apagar as diferenças. Nenhum aceita as imperfeições, todos têm um grande projecto que vai fazer desaparecer as imperfeições.
Que tipo de cultura política é que à partida entra em guerra por dá cá aquela palha com os vizinhos?
E depois a Guerra é total.
Os EUA estão em paz com o Canadá há mais de 100 anos. Mesmo na América Latina as guerras entre vizinhos são fracas. Será porque o Estado Napoleónico-Bismarkiano na Europa tem sido a máquina mais eficiente e ambiciosa e com o contexto Romântico-Messiânico por detrás. Há sempre um plano de grandeza por detrás de uma guerra na Europa.
Sem imagem de perfil

De l.rodrigues a 03.05.2012 às 10:38

Acha mesmo que os actuais "donos da união" merecem o epíteto de herdeiros de Delors e Monnet?

Será que partilham alguma da ambição e visão que aqueles mostraram e implementaram?

Não acha que muitos dos problemas da Europa surgem precisamente por eles terem renegado essa herança?

E quem é crítico desse desvio tem mesmo que ser considerado radical?
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 03.05.2012 às 10:52

as forças extremistas

Designar o adversário por "extremista" é, já em si, uma forma de o desclassificar ou insultar.

É necessário um raciocínio lógico e explanativo, que diga em que é que não se concorda com o adversário, em vez de lhe chamar "extremista".

Eu não concordo com a sra Le Pen, porém não acho que as suas ideias tenham nada de extremista (tanto não têm, de facto, que até são copiadas pelos políticos do centro).
Imagem de perfil

De Alexandre Poço a 18.05.2012 às 17:38

Caro Pedro,

Estou a estudar para um exame de Análise de Campanhas Políticas e este artigo está ser uma óptima sebenta!

Um abraço
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 18.05.2012 às 19:06

Fico muito satisfeito por saber, caro Alexandre.
Um abraço.

Comentar post



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D