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Pingo Doce, amargos complexos

por Ana Vidal, em 02.05.12

Subscrevo em geral esta opinião do José Gomes André, salientando que "o timing das promoções foi oportunista e provocador". Claro que foi. Um braço-de-ferro que a Jerónimo Martins ganhou aos sindicatos, em toda a linha. Podia ter feito esta promoção em qualquer outro feriado ou Domingo (desde que no final do mês, para garantir algum poder de compra), mas a escolha do 1º de Maio foi intencional e pouco limpa. Mas... what else is new, no mundo dos negócios? Assistimos a um combate de tubarões pelo controle das massas, e o povo, aparentemente, escolheu qual quer que seja his master's voice. Vejo muita indignação com a forma como as pessoas "foram tratadas" e nada sobre a forma como as pessoas "se comportaram". Ao contrário do que se diz por aí, não foram os famintos quem correu para as lojas do Pingo Doce. Foram aqueles que ainda podem dispor de mais de cem euros, de uma só vez, para gastar em compras de supermercado. E esse comportamento é recorrente nos consumidores de todos os países em que estas campanhas acontecem. Mas nós, portugueses, com a nossa habitual mania da auto-flagelação, achamos que somos os únicos a ser manipulados por sinistras forças que nos "obrigam" a reacções terceiro-mundistas, esquecendo que no terceiro mundo não há sequer pingos doces, só amargos.

 

Lembro-me de uma reportagem sobre uma campanha do género num centro comercial australiano, cuja data foi programada para o Natal. Houve gente de todo o país que viajou dias antes - e que por isso perdeu o Natal em família - e se instalou num hotel em frente do tal centro comercial só para estar "a postos" para apanhar a hora de abertura. O espectáculo do abrir de portas era impressionante, uma multidão que parecia correr para salvar a vida entre filas de polícias armados. O que pouparam nos saldos não deve ter chegado para cobrir os gastos de viagem e hotel. Outro caso falado ocorreu, creio que na Polónia, na abertura de um hipermercado que foi literalmente destruído em pouco tempo por uma multidão enfurecida, cega pelos preços mais baixos. E há muitos outros casos relatados, inclusivamente nos países ricos como a Alemanha ou a Inglaterra. O fenómeno não é novo e está estudado à exaustão, por isso é bem aproveitado pela sociedade de consumo que construímos. O terceiro mundo, esse sim, passa fome e não tem nem ideia do que são fraldas descartáveis, a não ser que lhe sejam dadas por uma qualquer ONG.

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14 comentários

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De da Maia a 02.05.2012 às 13:38

Engraçado... e como o "mundo moderno" se reduz praticamente a um "mundo dos negócios", a reposta ao seu "pouco limpo" é um "what else is new?"
Portanto, tolera-se a falta de civilidade, a ausência de regras, porque está na natureza dos predadores?
Caso não seja absolutamente evidente, isso é proclamar as virtudes do estado selvagem.
Respeitamos os animais selvagens, mas dar o corpo para ser abocanhado, será mesmo masoquismo ou falta de tino.

As alimárias em questão, nem foram bem sucedidas.
Pode-se vergar um mendigo, fazendo-o correr atrás de uma moeda, mas ele apanhar a moeda está longe de significar que fica agradecido. A moeda fica com ele, e o engraçadinho também - no álbum de más memórias.
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De Ana Vidal a 02.05.2012 às 14:02

Engraçada é a leitura que faz do que eu escrevi. Engraçada e abusiva, porque só é absolutamente evidente para si. De que palavras minhas é que deduz uma apologia da sociedade de consumo, ou, como diz com tanto dramatismo, do "estado selvagem"? Limito-me a constatar um facto: o mundo empresarial, sobretudo o das macro-empresas, tem como única preocupação vender. Foi o que fez a Jerónimo Martins, usando técnicas de marketing profusamente estudadas e testadas. O consumismo exacerbado é um mal das sociedades modernas, não uma conquista. E a "falta de civilidade" das pessoas é uma questão de educação de base, infelizmente ainda muito longe de ser resolvida. Quanto ao resto, é bom conhecermos as carências do verdadeiro terceiro mundo antes de nos compararmos levianamente com ele.
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De da Maia a 02.05.2012 às 14:34

Aconselho a que releia o que escreveu, e citei-a.
Agora diz:
"o mundo empresarial tem como única preocupação vender. Foi isso que fez a JM ..."
Será? Não foi isso que disse antes:
"assistimos a um combate de tubarões pelo controlo das massas..."

Quando se refere a controlo das "massas", não é a mesma coisa que controlo do "esparguete", certo?
Que eu saiba, a CGTP não vende esparguete, e por isso não se tratou de uma luta de vendas... tratou-se de uma afirmação política, conforme quis comparar.

Foi só esse o ponto da minha observação.

Estamos de acordo quanto à dificuldade em resolver o problema de educação... e se não gosto da ideia de educação pelo estômago, também não gosto da ideia de educação pelo megafone.
Enquanto os predadores insistirem na política da barriga vazia, condicionam o pensamento livre, e mais prontamente os estômagos respondem aos megafones dos "amanhãs que comem", que podem esconder outro tipo de predadores.
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De Ana Vidal a 02.05.2012 às 15:04

Aconselho-o (a? não sei o seu nome) a reler-me também. O que digo é que a Jerónimo Martins fez o pleno, o "dois em um": ganhou o braço-de-ferro com a CGTP e vendeu. Vendeu muito. E vender é o seu principal (e final) objectivo, não duvide. Não entendo onde vê a contradição, mas não vou teimar mais consigo.

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De singularis alentejanus a 02.05.2012 às 14:09

Se ao invés do investimento no betão e alcatrão, esse investimento fosse na educação e cultura, duvido que acções deste calibre tivessem êxito, isto em termos de sociedade.
Em termos económicos e financeiros, deixo no ar a seguinte questão: Para se fazerem aqueles descontos e não haver dumping, que margem de lucro teêm as grandes superficies?
No comércio tradicional, em média não ultrapassa os 30%, margem fraca.
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De Ana Vidal a 02.05.2012 às 15:30

Ora aí é que bate o ponto, Singularis. A educação e a cultura são óptimas bandeiras eleitorais mas depois não interessam muito, porque são investimentos de fundo, com pouca visibilidade nos 4 anos de um mandato.
Quanto à margem de lucro, não sei se foi ou não dumping. Sei que, se desceu abaixo do que é rentável para a Jerónimo Martins, isso deve ter sobrado para os fornecedores. Os contratos com as grandes superfícies são leoninos, nunca prejudicam o mais forte.
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De cr a 02.05.2012 às 15:41

Ana acabei de falar com alguns empregados do Pingo Doce, posso garantir-lhe que não estão radiantes, o espectáculo que tiveram oportunidade de assistir ontem, foi no mínimo degradante que reduz o ser humano á sua natureza mais baixa. Os atropelos, os encontrões, as palavras ásperas, a sujidade provocada pelo " pic nic " nas lojas, não tem nada que ver com o aproveitar dos preços baixos. A dignidade do pobre não pode ser vendida a estes homens que se julgam donos de Portugal. Não vale tudo! Não vale tirar olhos, não! Para a felicidade de alguns, outros tiveram que trabalhar horas e horas seguidas sem descanso e continuar durante a noite a repor o furacão que passou pelas prateleiras. Ainda hoje coitados basta olhar para eles para concluir que esta " campanha publicitária " provavelmente paga pelos fornecedores do Pingo Doce não lhes serviu de nada, continuam a ser explorados e mal pagos.
Por mim podem acenar com todas as " cenourinhas " que não me comovem, antes morrer de fome do que alienada.
Mas como devemos ser tolerantes temos que aceitar e respeitar, que muitos desta " casa " aproveitaram os descontos do Pingo Doce no dia do Trabalhador.
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De Ana Vidal a 02.05.2012 às 16:33

Cr, o Pingo Doce forneceu a ocasião e o cenário, não mais do que isso. Pode ser responsabilizado pela falta de condições de circulação, pelo excesso de gente que deixou entrar ou pela falta de produtos, mas não pela falta de civismo que leva as pessoas a fazerem piqueniques e andar ao murro e ao encontrão para chegar primeiro a um produto.
Imagino o suplício que deve ter sido para os pobres empregados, mas, tanto quanto sei, ganharam a triplicar para trabalhar nesse dia. Pessoalmente, nem que me pagassem dez salários... mas eu sei que é fácil falar, e não condeno ninguém por querer aumentar o pouco que leva para casa no fim do mês.
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De am a 02.05.2012 às 15:47

Consumidor carente... só rezo a todos -os- santos para que o façam:

Continente: 5 de Outubro
Jumbo: 1º Dezembro
Carrefour: 25 Abril
El Corte Ingles: Pascoa
Pingo Doce: Domingo sim Domingo não!
Todos... no Natal.

A "raiva" dos Ugetianos e CGTPianos é não poderem ter ido às compras! Ai não que não iam!











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De Ana Vidal a 02.05.2012 às 16:37

Não quero ser desmancha-prazeres, Am, mas parece-me muito pouco provável que esse seu sonho se torne realidade...
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De Inês a 02.05.2012 às 16:38

Concordo!
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De José Gomes André a 02.05.2012 às 16:48

Mas Ana, achas que foi sequer terceiro-mundista? Se amanhã a FNAC fizesse um desconto destes, quanta classe média-alta aproveitaria? Quantas filas e quantos milhares de clientes entrariam pelo Chiado adentro? Beijocas
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De Ana Vidal a 02.05.2012 às 17:16

Zé, o meu ponto é exactamente esse: o verdadeiro terceiro mundo não anda ao murro por toalhitas refrescantes, quita-manchas ou douradinhos, mas sim por preciosidades muito mais básicas como a água, por exemplo.
As pessoas gostam de promoções e de saldos, sempre acorrerão em massa quando têm oportunidade de comprar barato.
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De Luis Eme a 02.05.2012 às 19:37

tudo pode ter uma explicação, de facto, Ana.

o problema é terem feito isto no dia 1 de Maio (é muito diferente do dia de Natal, por exemplo).

é uma provocação para todos os trabalhadores (e ameaça para o que ainda vem aí...).

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