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How to cry with words

por Ivone Mendes da Silva, em 29.04.12

No Público de hoje, Miguel Esteves Cardoso escreve uma crónica lancinante. Escolhi este adjectivo criteriosamente, porquanto todos nós desenvolvemos ao longo da vida aquilo a que gostaria de poder chamar a reacção semântica. Reagimos às palavras com preconceito. Eu tenho essa atitude, muitas vezes. Lembro-me de já ter escrito por aí o quanto detesto a palavra comiseração. Li, algures, alguém que dizia ter sentido comiseração pelas manifestações de um amor a que não podia corresponder. É horrível. A comiseração sente-se de cima para baixo, é um ai-coitadinho-tenho-tanta-pena-de-de-ti-mas-não-posso-fazer-nada-estou-aqui-muito-bem.

A comiseração implica uma enorme e detestável sobranceria. É preferível não sentir nada. Digo eu, claro.

Voltando ao lancinante da primeira linha. A palavra pressupõe um cortejo lexical de peso, de lágrima, alguma complexidade sintáctica ao nível da hipotaxe, uma escolha de palavras-setas que entrem em cheio nos olhos do leitor. Pois. Mas, quem muito bem escreve, não precisa da parafrenália gongórica habitual. Depura as palavras que jorram e elas caem sobre a folha reduzidas ao essencial que tudo contém.

Maria João piorou. Diz o MEC:

A minha pessoa é a Maria João e a Maria João passa mal. Nem o amor nem a sabedoria médica a podem salvar. Só a conjugação das duas coisas, mais um acrescento de milagre. O cabrão do cancro alastra-se. (...) Hoje, domingo, é o último dia em que estaremos juntos (...) amanhã logo às nove estaremos na consulta (...) onde nos avisarão das complicações possíveis. (...) Vai morrer o meu amor. Não vai. Como o meu amor por ela, nunca há-de morrer. As coisas acontecem sem acontecer o pensamento nelas. A alma, o coração e a cabeça são coisas diferentes. Que se dão bem. E são amigas. E deixam de ser quando morrem.


É assim que se chora com palavras. Fazer milagres com elas, não sei como é.


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