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A importância do primeiro parágrafo

por Pedro Correia, em 18.04.12

É o maior desafio para qualquer jornalista: como agarrar o leitor logo nas primeiras linhas? Há técnicas clássicas que se desenvolveram para focar a atenção das pessoas num texto, seduzindo-as com o estilo e o conteúdo. Um desafio estimulante, diga-se. E tanto mais estimulante quanto é certo que a capacidade de concentração da generalidade dos leitores contemporâneos está cada vez mais diluída. A estética de videoclip, o culto do zapping, as mil e umas artimanhas da linguagem publicitária, as centenas de canais televisivos ao dispor de cada um, as mensagens de telemóvel que a todo o momento nos assaltam e a magia da Internet tornam-nos seres dispersos e errantes. A ninguém sobra hoje tempo nem paciência para ler textos de jornal que se estendem por várias páginas. A comunicação moderna tem requisitos bem específicos neste domínio.

Mas não seria assim também noutras épocas? Na sua memorável comédia A Primeira Página, escrita há oito décadas, os dramaturgos norte-americanos Ben Hetch e Charles MacArthur centraram toda a acção numa redacção de jornal – daquelas bem antigas, cheias de fumo e com garrafas de uísque em cima das secretárias. O director do Chicago Examiner, Walter Burns, pede ao mais conceituado dos seus repórteres para lhe ler o parágrafo de abertura da prosa que tem na máquina de escrever. Não gosta nada do que ouve, perguntando-lhe por determinado pormenor. “Isso vem no segundo parágrafo”, esclarece o repórter. “E quem diabo vai ler o segundo parágrafo?”, dispara o director.
Tantos anos depois, este é um dilema que permanentemente nos assalta: quem acabará por ler os segundos parágrafos de cada texto nosso?

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22 comentários

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De Helena a 18.04.2012 às 07:07

Belissíma reflexão que vale a pena ler além do primeiro parágrafo. É verdade que os hábitos de leitura de jornais e de consumo de informação em geral se alteraram - o lema parece ser cada vez mais escrever uns sound bites curtos e provocantes que caibam num post do Facebook - mas como leitora compulsiva de segundos, terceiros e quartos parágrafos exijo mais de um artigo jornalístico do que aquilo que já li online ou no take de uma agência. A fórmula de sucesso de publicações como por exemplo a Der Spiegel é a conjugação de notícias breves com dossiers temáticos muito aprofundados ( chegam a mais de dez páginas) que dão ao leitor o necessário enquadramento. Outras publicações alemãs por exemplo diários como o Frankfurter Allgemeine Zeitung ou semanários como o Die Zeit também fazem felizmente a aposta numa informação aprofundada que se distinga claramente de meros tweets. E isso reflecte-se na qualidade da discussão pública. Um exemplo? A actual crise na Guiné-Bissau tem sido melhor explicada- isto é tem-se ido além da publicação dos comunicados do Comando Militar ou das declarações da União Africana e da CEDEAO - na imprensa alemã do que na portuguesa. Claro que para compreender a desagregação do estado guineense e as causas estruturais profundas da instabilidade é preciso recuar até Luís Cabral, cruzar tribalismo e etnicidade com tiques autoritários herdados do colonialismo português, e para isso são precisos muitos parágrafos ( e toda uma bagagem histórica e sociológica, mas isso é outro tema).
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De Pedro Correia a 18.04.2012 às 23:17

De acordo contigo, Helena. Mas receio que nós, os que vamos além do primeiro parágrafo, sejamos cada vez em menor número neste tempo dos tuites e dos essemésses. Tudo quanto ultrapassa os 180 ou os 120 caracteres fatiga bué.
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De Vasco a 18.04.2012 às 10:00

Gostei da primeira parte. Quando tiver tempo leio o resto. Abraço.
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De jj.amarante a 18.04.2012 às 10:21

Lindo exercício de estilo, a realidade não é assim tão ameaçadora. Consegui ler o primeiro parágrafo, composto por numerosos períodos, até ao fim e consegui mesmo ler o texto até ao último período do segundo parágrafo.
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De Pedro Correia a 18.04.2012 às 23:14

Ehehe. You made my day.
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De Ana Vidal a 18.04.2012 às 14:42

Como as coisas estão, já é uma sorte que nos leiam a primeira linha...
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De Fernando Sousa a 18.04.2012 às 16:32

Boa! Mas é pior, Ana, e olha que não sou do estilo pessimista: há quem não passe dos títulos... quando bem feitos, claro.
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De Ana Vidal a 18.04.2012 às 18:52

Mas eu gosto muito de títulos, Fernando, foi coisa que me ficou da publicidade. Talvez me leiam pelo menos isso... :-)
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De Pedro Correia a 18.04.2012 às 23:14

Também gosto muito de títulos - de ler e de escrever títulos. Como gosto de legendas - também de as ler e de as escrever. Curiosamente, uma grande parte dos jornalistas detesta fazer títulos e legendas.
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De Fernando Sousa a 18.04.2012 às 16:31

Um excelente resumo, Pedro. Que raspa entretanto por outro hábito perdido nas redacções: dar os textos a ler ao camarada do lado antes de seguirem para os editores e desks...
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De Pedro Correia a 18.04.2012 às 23:12

É verdade, Fernando. Um salutar hábito hoje totalmente em desuso.
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De maria madeira a 18.04.2012 às 16:51

Eu não tenho essa pretensão, porque nem sei escrever, aliás sei escrever, mas sem qualquer tipo de preciosismos.
E tenho cá para mim, que nos meus humildes textos, nem o primeiro parágrafo lêem, tão má é a coisa:)
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De Pedro Correia a 18.04.2012 às 23:11

Maria: confesso que acabo de ler sem qualquer problema os seus dois parágrafos.
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De José António Abreu a 18.04.2012 às 21:33

Gostei da foto.
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De Pedro Correia a 18.04.2012 às 23:10

Compreendo. Ficaste favorecido.
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De José António Abreu a 18.04.2012 às 21:45

Agora mais a sério. Em 2009 fiz o teste. Houve pelo menos três almas que leram até ao terceiro:
http://escafandro.blogs.sapo.pt/46508.html
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De Pedro Correia a 18.04.2012 às 23:10

Em 2009? Em três anos o mundo muda muito. E em três meses. E em três semanas. E em três dias. E em três horas...
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De lucklucky a 18.04.2012 às 22:38

A táctica é simples, começa com um caso particular para aproximar o leitor, depois generaliza-se sem razão e fala-se de tudo mesmo o que não tem nada que ver com o caso.
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De Pedro Correia a 18.04.2012 às 23:09

Gostei da ironia.
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De Teresa Ribeiro a 19.04.2012 às 16:01

O problema é que as estéticas de outras disciplinas de comunicação invadiram os jornais e subverteram a técnica jornalística. O desafio de agarrar o leitor no primeiro parágrafo mantém-se, mas às vezes a preço de saldo. Enfim, mas essa é outra discussão.
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De Pedro Correia a 20.04.2012 às 00:18

É outra discussão mas vamos sempre a tempo de travá-la aqui, Teresa.

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