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Delito à mesa

por Ana Vidal, em 15.04.12

   Restaurante Mariana, Afife

 

Ao contrário do que talvez fosse de esperar, esta série começa com um restaurante tradicional, despretensioso e de preço acessível. O que faz dele, há décadas, um marco da gastronomia portuguesa não é a sofisticação do décor nem o entusiasmo por experimentalismos culinários, mas só o que é essencial num restaurante onde se queira voltar sem medo de decepções: a qualidade irrepreensível da cozinha, convencional e inalterável, e o atendimento simpático. Falo do restaurante Mariana, na praia de Afife, perto da belíssima cidade de Viana do Castelo. Não há luxos nem mordomias para além dessa simpatia, dos imaculados guardanapos e toalha de pano e da existência de talheres de peixe (tenho ficado pasmada com a ausência destes em restaurantes cuja especialidade é o peixe, e alguns bem conhecidos). Há a velha sala inicial, com mesas e bancos corridos de madeira clara, muito polida - a preferida dos portugueses, dizem-me - e depois a preferida dos espanhóis, a sala "nova", com cadeiras estofadas e uma lareira de canto onde impera, festivo, um colorido palmito de Viana. Há ainda um bar, tendo a casa, ao todo, capacidade para 130 pessoas. Na parede da entrada, a receber orgulhosamente os clientes, uma fotografia de Zélia e Jorge Amado com os donos (Fernanda e Aires Felgueiras), entre troféus e críticas gastronómicos igualmente emoldurados. O escritor brasileiro era um fiel cliente da Mariana e ia lá sempre que estava em Portugal.

 

O couvert é composto de pão variado - destaque para uma broa de milho e centeio, de Carreço - e um prato com um queijinho curado, pastas de queijo e patés enlatados, sem história. Segue-se uma modesta mas saborosa sopa de legumes migados grosseiramente, com a particularidade agradável de ser servida em terrina na mesa, o que possibilita a cada um servir-se da dose que quiser. Mas o melhor da festa ainda está para vir. Entre outros pratos típicos (a ementa não é sumítica na variedade) sobressai o famoso robalo à moda da casa, ou seja, cozido em algas. Da mesma forma podem ser também servidos sargo ou pescada. No meu caso, escolhi sargo porque não havia ontem robalo, que vem habitualmente de Castelo de Neiva, ali mesmo ao lado, onde o mar alteroso e o luto pelo pescador desaparecido há poucos dias têm impedido os outros de se aventurarem mais longe. Foi uma boa escolha: o meu sargo estava fresquíssimo, a saber verdadeiramente a mar. Acompanhavam-no grelos e batatas, ambos cozidos, e uma dupla de molhos (maionaise caseira e "molho verde", uma espécie de "molho à espanhola" mas sem colorau), tudo bem feito e no ponto. Arrisquei o vinho da casa, um verde branco bem fresquinho da região, e não me arrependi. Para sobremesa, escolhi outra delícia: um leite-creme servido em pires, caseiríssimo e queimado na hora, um dos melhores que já comi. Há outros doces caseiros na carta de sobremesas, dispensavelmente invadida pelos gelados e doces congelados do costume.

 

Notas importantes:

1. A parrilhada de peixe e camarão de Afife, o bacalhau à Mariana ou o cocq au vin são também especialidades da casa.

2. Se não for um Gulliver esfomeado peça meia dose, seja o que for que escolher. O restaurante dá essa possibilidade em quase todos os pratos, e ainda bem, porque mesmo essa quantidade pode ser suficiente para duas pessoas com um apetite médio. No norte do país, em geral, as doses servidas nos restaurantes tradicionais são um exagero.

3. Não espere luxos nem cerimónias. Pode acontecer, inclusive, que lhe passem um braço pela frente para retirar um prato.

4. O restaurante não se vê da estrada (fica atrás de uma capelinha de pedra, é preciso ir com atenção) e há que atravessar a linha de comboio para lá chegar.

5. O estacionamento é fácil.

6. O preço médio por refeição (meia dose), com vinho da casa e sobremesa, ronda os 20€.

7. Fecha à terças-feiras, excepto em Julho e Agosto.

 

Restaurante Mariana

Estrada Pedro Homem de Mello, 42

4900-012 Afife

Viana do Castelo

T: 258 981 327 - 964 042 524


15 comentários

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De Leonor Barros a 15.04.2012 às 19:22

Que óptimo começo, Ana! Vou já começar a pensar nos próximos.
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De Ana Vidal a 15.04.2012 às 19:37

Boa, Leonor. É uma série aberta a todos, como combinámos. Assim fica muito mais rica.
(Amanhã ponho as fotografias no post, assim que chegar a Portugal)
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De Leonor Barros a 15.04.2012 às 19:40

Já tenho dois restaurantes pensados aqui da zona. Falta-me a escrita e fotografias. Vou ter de voltar aos dois. Boa estadia :)
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De fernando antolin a 15.04.2012 às 19:45

Quando voltar à bela Viana da Foz do LIma, experimente o restaurante Maria de Perre. Fica na rua de Viana, a última à esquerda de quem desce a Av. dos Combatentes da Grande Guerra, vindo da estação da CP para o rio.

E parabéns pela escolha do sargo. É peixe por muitos olhado com desdém e nem sabem o que perdem ...

( e para terminar, aos doces,acabar no Manuelzinho Natário ... )
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De Ana Vidal a 15.04.2012 às 19:59

Fanas, eu gosto imenso de sargo. Não fui ao Natário porque já não tinha tempo, o almoço foi de caminho e desta vez não contemplava uma paragem em Viana...
Obrigada pela dica, não conheço esse "Maria de Perre", fiquei curiosa. Da próxima vez não escapa!
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De Pedro Correia a 15.04.2012 às 21:36

Excelente estreia, Ana. E logo com este restaurante numa das praias da minha infância, que guardarei sempre na memória...
Parece-me óptimo o padrão de texto que aqui deixas, com um corpo principal e notas adicionais - entre o crítico e o informativo, rematando com informações úteis para o leitor.
Desde já digo que serei um assíduo participante nesta série.
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De Ana Vidal a 15.04.2012 às 22:22

Óptimo. Estão abertas as hostilidades, agora é só continuarmos a colecção.
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De maria madeira a 15.04.2012 às 21:46

Adorei tudo nesta descrição do restaurante. E existe alguém que também se questiona em relação ao uso dos talheres de peixe. Aleluia!
Quem é que precisa de luxos e cerimónia se realmente a qualidade impera. Absolutamente dispensável.
Fiquei com vontade de conhecer o local.
Obrigada por nos presentear com textos magníficos.
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De Ana Vidal a 15.04.2012 às 22:27

Muito obrigada, Maria. Eu não tenho nada contra restaurantes de luxo, desde que este não sirva para compensar a falta de qualidade da cozinha. A Mariana é um restaurante simples, familiar mas cheio de história, que ao longo dos anos tem conseguido manter a qualidade e a simplicidade sem cair na tentação de modernizações duvidosas. E isso já é muitíssimo, nos tempos que correm. :-)
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De Ivone Mendes da Silva a 15.04.2012 às 22:01

Belo começo desta série, Ana.
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De Ana Vidal a 15.04.2012 às 22:28

Venham de lá os restaurantes da tua zona, que conheço mal.
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De Francisco Seixas da Costa a 15.04.2012 às 23:33

Parabéns por este serviço público. A Mariana faz parte da minha lista do Minho: http://pontocome.blogspot.fr/index.html#4656103176042721772
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De Ana Vidal a 16.04.2012 às 21:28

Da minha também, caro Sr. Embaixador. Acho que temos ambos bom gosto. :-)
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De João Pedro a 18.04.2012 às 20:09

Um clássico da região, tal como o seu robalo, e que acabou por dar o seu nome à praia mais próxima, famosa pelas competições de body-board.
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De Ana Vidal a 20.04.2012 às 01:45

Sim, um clássico. E os clássicos não são clássicos por acaso... :-)

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