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Elevadores. Resposta a José António Saraiva

por Leonor Barros, em 11.04.12

Uma belíssima resposta a uma aberração destas já denunciada aqui. Para ler e pensar.

 

Sim. Ando de elevador muitas vezes. Às vezes inclino a cabeça, admito. Muitas vezes uso os braços de modo que ache confortável. Estas coisas acontecem quando começo a pensar em coisas, ou observo o mundo ao meu redor. Creio que algo bastante comum em qualquer pessoa que trabalhe e passe a vida a criar mundos imaginários para cinema. Nasci bom observador, admito que não por escolha, e tive a sorte de encontrar maneira de ajudar a criar emoções e memórias através de imagens em movimento.

Elevadores. Passagens tão temporárias e interessantes. Elevadores sempre me fascinaram, por criarem um espaço forçado de observação. Tão pequeno, mas cheio de detalhes. Quem veste o quê, quem olha para onde, quem tosse quando.

Imagino ser aquele rapaz. Podia perfeitamente ser eu. Aliás, fui eu há uns meses. Em Setembro. Estive em Portugal e trouxe o meu namorado para ele conhecer a minha família, que tanto me adora e respeita, e também para conhecer o país onde cresci, as ruas onde andei e os edifícios que me rodeavam em criança. Sou gay e sempre fui. Nunca tive dúvidas e nunca foi uma escolha. Ninguém escolheria alguma vez ser gay, porque muito provavelmente isso traria uma vida de desafios como ter de educar uma pessoa como José António Saraiva. E já agora, caso isto seja novidade, também ninguém escolhe ser heterossexual.

Ir a Portugal com o meu namorado foi um passeio de redescoberta de um país que sempre me trouxe muitas memórias. Desde memórias péssimas de ser violentamente gozado na escola, a nível físico e psicológico, por ser gay. Desde memórias óptimas a criar um grupo de amigos que nunca me trataram de maneira diferente quando eu inclino a cabeça, ou mexo os braços, ou pouso os pés no chão.

Tive a sorte de ter uma família acolhedora, mas conheço muitos casos em que tal não acontece. Se há coisa que aprendi foi a não julgar os outros. Acho que não há nada mais precioso na vida do que aprender com a individualidade de cada um. Talvez seja por isso que tenha conseguido ser tão bem sucedido tanto em Hollywood como em Silicon Valley.

E, apesar de ser gay, ajudei a criar imagens que marcaram o mundo. Imagens que inspiraram adultos e crianças a acreditarem num mundo melhor. Um mundo em que dois robots se podem apaixonar, ou dois escuteiros se podem conhecer em crianças e viver juntos a vida inteira, ou um mundo em que um astronauta encontre um melhor amigo num simples cowboy. Sem falar de um rato que pode cozinhar… Estes não existem na verdade, mas transmitem um ideal de um mundo em que eu acredito ser possível viver. Em que cada pessoa é como é, e em que cada um de nós tem a oportunidade de trazer algo mágico às pessoas que se cruzam na nossa vida.

Não sei em que mundo o José António Saraiva vive, mas pela maneira como publicamente julga os outros deve ser um espaço bastante triste. Tenho pena de não ter estado naquele elevador, naquele momento. Pelo menos, poderia ter olhado para ele, sorrido e, quem sabe, mostrar que o Portugal de agora é um país muito mais acolhedor do que alguma vez foi. Um país em que posso trazer o meu namorado e criar memórias novas para o resto da nossa vida. Um país em que nos podemos casar como qualquer outra pessoa.

Aqui na Califórnia, sinto-me em casa. Sinto-me em casa porque sei que posso andar de elevador, e muito provavelmente vou conhecer alguém que se calhar com apenas vinte anos criou uma empresa que está a mudar o mundo. Ou alguém que se calhar inclina a cabeça de certa maneira, e me faz sorrir por saber que pertenço a um mundo em que podemos ser verdadeiros, genuínos e nós próprios.

E entretanto vou criando outros mundos imaginários. Que muito provavelmente irão fazer sorrir os filhos, netos ou bisnetos do José António Saraiva.

 

Afonso Salcedo


61 comentários

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De Cláudia a 11.04.2012 às 22:05

Como seria de esperar, e à semelhança de grande parte dos leitores do jornal Sol, a recente crónica de José António Saraiva não me deixou indiferente. Nesta publicação, de título “Homossexuais contestatários”, o diretor do semanário Sol relembra que as comunidades gay estão em crescimento, referindo o Chiado como umas das zonas do mundo com maior nível de adesão destas comunidades. E foi no Chiado que o jornalista teve um breve encontro com o rapaz que iria protagonizar o seu artigo. Começa da seguinte forma: «À minha frente, no elevador, está um rapaz dos seus 16 ou 17 anos. Pelo modo como coloca os pés no chão, cruza as mãos uma sobre a outra e inclina ligeiramente a cabeça, percebo que é gay.»
Continua, expondo a sua teoria de que «o assumir da homossexualidade por parte de figuras públicas acabará forçosamente por ter um efeito multiplicador», uma vez que «funciona como propaganda» (Quererá isto dizer que as figuras públicas devem esconder a sua sexualidade para evitar propagandeá-la?); que, em alguns casos, o mistério que rodeia a homossexualidade e a pressão do meio são os motivos que levam à tomada desta opção; e por fim, para não me alongar demasiado, expressa que, para determinados jovens, «a homossexualidade surge como uma forma de mostrar a sua ‘diferença’, de manifestar a sua recusa de uma sociedade convencional, de lutar contra a hipocrisia daqueles que não têm coragem de se mostrar como são, de demonstrar solidariedade com aqueles que são discriminados ou perseguidos pelas suas opções.»
As reações não se fizeram esperar por entre os internautas, que, indignados, defenderam – e bem – o ponto de vista do lado dos homossexuais. José António Saraiva saberá o que quis dizer na sua crónica, e esperemos que venha a público justificar alguns comentários menos felizes que tenha feito. Mas, como dizia, o lado dos homossexuais está já bem defendido. Gostaria de referir algo que, na mesma crónica, me despertou a atenção: Achei absurdo a forma como o rapaz, alvo de observação, foi imediatamente considerado homossexual pela sua forma de agir. Isto é, na minha opinião, preconceito no sentido literal da palavra (pré+conceito, juízo pré-concebido).
Segundo o estereótipo, um rapaz homossexual exibe gestos afeminados… isso basta. Bastou para este rapaz ser imediatamente considerado homossexual. Continuando o seu juízo, o jornalista assumiu que «a sua [do rapaz] forma de estar, assumindo tão evidentemente a homossexualidade, correspondia a uma atitude de revolta». O adolescente, contudo, nada assumiu. Homossexual ou não, estava apenas a tentar levar a sua vida normal, talvez nem imaginando que estaria a ser considerado uma pessoa revoltada.
Isto acontece todos os dias, em todas as ocasiões do quotidiano. Pessoas de uma religião diferente, de uma raça diferente, de orientação sexual diferente… pessoas caladas, pessoas sérias… pessoas extrovertidas de mais… todos são vítimas de estereótipos, e mesmo assim, quase todos julgam os outros da mesma forma que são julgados. Foi desta forma que, num elevador na FNAC do Chiado, tal como em tantos outros pontos do país, um indivíduo foi julgado, julgamento esse, que, certo ou errado, foi publicado posteriormente numa página de um jornal. Caso ambos tivessem falado, ao invés de, calados, se regirem por estereótipos, talvez tivessem aprendido mais um sobre o outro, a ter mais compreensão. Algo que tanto falta no mundo…

Fonte: http://leituras-e-opinioes.blogs.sapo.pt/738.html
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De Leonor Barros a 11.04.2012 às 22:10

Obrigada pelo seu contributo, Cláudia. Concordo inteiramente. Ainda não entendi como não se consegue ver o óbvio.

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