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Elevadores. Resposta a José António Saraiva

por Leonor Barros, em 11.04.12

Uma belíssima resposta a uma aberração destas já denunciada aqui. Para ler e pensar.

 

Sim. Ando de elevador muitas vezes. Às vezes inclino a cabeça, admito. Muitas vezes uso os braços de modo que ache confortável. Estas coisas acontecem quando começo a pensar em coisas, ou observo o mundo ao meu redor. Creio que algo bastante comum em qualquer pessoa que trabalhe e passe a vida a criar mundos imaginários para cinema. Nasci bom observador, admito que não por escolha, e tive a sorte de encontrar maneira de ajudar a criar emoções e memórias através de imagens em movimento.

Elevadores. Passagens tão temporárias e interessantes. Elevadores sempre me fascinaram, por criarem um espaço forçado de observação. Tão pequeno, mas cheio de detalhes. Quem veste o quê, quem olha para onde, quem tosse quando.

Imagino ser aquele rapaz. Podia perfeitamente ser eu. Aliás, fui eu há uns meses. Em Setembro. Estive em Portugal e trouxe o meu namorado para ele conhecer a minha família, que tanto me adora e respeita, e também para conhecer o país onde cresci, as ruas onde andei e os edifícios que me rodeavam em criança. Sou gay e sempre fui. Nunca tive dúvidas e nunca foi uma escolha. Ninguém escolheria alguma vez ser gay, porque muito provavelmente isso traria uma vida de desafios como ter de educar uma pessoa como José António Saraiva. E já agora, caso isto seja novidade, também ninguém escolhe ser heterossexual.

Ir a Portugal com o meu namorado foi um passeio de redescoberta de um país que sempre me trouxe muitas memórias. Desde memórias péssimas de ser violentamente gozado na escola, a nível físico e psicológico, por ser gay. Desde memórias óptimas a criar um grupo de amigos que nunca me trataram de maneira diferente quando eu inclino a cabeça, ou mexo os braços, ou pouso os pés no chão.

Tive a sorte de ter uma família acolhedora, mas conheço muitos casos em que tal não acontece. Se há coisa que aprendi foi a não julgar os outros. Acho que não há nada mais precioso na vida do que aprender com a individualidade de cada um. Talvez seja por isso que tenha conseguido ser tão bem sucedido tanto em Hollywood como em Silicon Valley.

E, apesar de ser gay, ajudei a criar imagens que marcaram o mundo. Imagens que inspiraram adultos e crianças a acreditarem num mundo melhor. Um mundo em que dois robots se podem apaixonar, ou dois escuteiros se podem conhecer em crianças e viver juntos a vida inteira, ou um mundo em que um astronauta encontre um melhor amigo num simples cowboy. Sem falar de um rato que pode cozinhar… Estes não existem na verdade, mas transmitem um ideal de um mundo em que eu acredito ser possível viver. Em que cada pessoa é como é, e em que cada um de nós tem a oportunidade de trazer algo mágico às pessoas que se cruzam na nossa vida.

Não sei em que mundo o José António Saraiva vive, mas pela maneira como publicamente julga os outros deve ser um espaço bastante triste. Tenho pena de não ter estado naquele elevador, naquele momento. Pelo menos, poderia ter olhado para ele, sorrido e, quem sabe, mostrar que o Portugal de agora é um país muito mais acolhedor do que alguma vez foi. Um país em que posso trazer o meu namorado e criar memórias novas para o resto da nossa vida. Um país em que nos podemos casar como qualquer outra pessoa.

Aqui na Califórnia, sinto-me em casa. Sinto-me em casa porque sei que posso andar de elevador, e muito provavelmente vou conhecer alguém que se calhar com apenas vinte anos criou uma empresa que está a mudar o mundo. Ou alguém que se calhar inclina a cabeça de certa maneira, e me faz sorrir por saber que pertenço a um mundo em que podemos ser verdadeiros, genuínos e nós próprios.

E entretanto vou criando outros mundos imaginários. Que muito provavelmente irão fazer sorrir os filhos, netos ou bisnetos do José António Saraiva.

 

Afonso Salcedo


61 comentários

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De cr a 11.04.2012 às 11:37

Leonor, este senhor descobriu que tem um filho gay, só pode ser isso...e não consegue suportar o impacto da noticia.
De um tipo que se gabou um dia que ganharia um Nobel da literatura, não se pode esperar outra coisa.
Só colocando este tipo numa nave espacial e despachando como lixo para a atmosfera e rezar a todos os santinhos para que nenhuma parte deste dejecto nos caia em cima.
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De Leonor Barros a 11.04.2012 às 21:12

Está para durar. Ainda nos vais brindar com mais pérolas, cr.
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De Maria Araújo a 11.04.2012 às 11:42

Só venho aqui para lhe dar os parabéns pelo seu post.

Maria
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De Leonor Barros a 11.04.2012 às 21:13

O post não é da minha autoria, Maria. Publiquei-o porque o achei digno e é importante que alguém responda a 'este' senhor
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De Maria a 11.04.2012 às 11:46

Ainda cogito sobre o que causou tanto incómodo e indignação numa crónica escorreita e sóbria sobre uma observação particular do António José Saraiva.
Mas, pergunto: o dito não pode opinar sobre os "tiques" dos gays e sobre a evolução social que caracterizou esta mudança de atitudes?Terá de pedir desculpas por ter opinião e ser bom observador?
Ele há, sem qualquer ponta de dúvida para mim, um "partis-pris" contra o jornalista e, um modernismo bacoco de gente pretensamente mundana que, essa sim, cria estereótipos e acha que a sociedade é constituída por mangas de alpaca que se fecharam e ancoraram em valores conservadores passados.
A resposta do Afonso Salcedo demonstra isso mesmo.
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De Leonor Barros a 11.04.2012 às 12:55

O dito pode opinar sobre quem quiser, que ele ostensivamente seja preconceituoso e ofensivo é que é inadmíssivel.
Nem sequer vou comentar o resto.
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De Maria a 11.04.2012 às 14:20

E o preconceito é dos outros?Ai sim!??Vc e as suas opiniões não denotam qualquer preconceito supostamente citadino (da grande Capital) e mundividente?
Tá bem abelha.
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De José Navarro de Andrade a 11.04.2012 às 21:24

Então Leonor, tens ido à terra? lol
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De Leonor Barros a 11.04.2012 às 21:27

Sabes que aqui passa o meu meridiano privado a partir do qual se determinam todos os tempos citadinos do mundo! :))))) A imaginação desta gente é delirante.
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De Fernando Sousa a 11.04.2012 às 11:53

Eu diria, Leonor, uma resposta de antologia. Notável.
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De Samuel de Paiva Pires a 11.04.2012 às 12:22

Não vejo onde isto seja uma resposta ao que realmente importa do texto de JAS e que, curiosamente, a esmagadora maioria das pessoas se recusa a enfrentar: existem gays que verdadeiramente o são, porque é genético/biológico, e existem os que julgam que o são porque acham que podem escolher sê-lo, sendo essa possibilidade de escolha uma falsidade que a ideologia de género propagou. Talvez porque isto seja verdade, parece ser mais fácil concentrarem-se só no acessório do texto e destilarem ódio. Entretanto, se me permitem a publicidade, sistematizei o que fui escrevendo sobre o assunto em http://estadosentido.blogs.sapo.pt/2015466.html

E alerto ainda para a confirmação disto por um psicólogo clínico que trabalha com sujeitos dessa tal homossexualidade falsa: http://estadosentido.blogs.sapo.pt/2015672.html

E, por último, para este estudo http://www.slate.com/articles/health_and_science/human_nature/2008/06/sexual_antagonism.single.html e este http://www.slate.com/articles/health_and_science/human_nature/2008/06/sexual_reorientation.html

Que não se veja quase ninguém a querer enfrentar que o que está realmente em causa é uma tendência social observável que revela os sintomas de distúrbios psicológicos causados por teorias erradas e um ambiente cultural niilista, é que é verdadeiramente lamentável.
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De Jorge Soares a 11.04.2012 às 13:08

Ok... mas então explique-me lá, em que é que o afecta a si ou ao Saraiva, que as outras pessoas sejam gays já seja por tendência, por moda ou por gosto?

Eu não sou gay, mas se fosse em que é que isso afectaria a sociedade?.. em nada, tal como não afecta que eu seja hetero.

A homofobia e o preconceito são coisas muito feias.

Jorge Soares
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De Samuel de Paiva Pires a 11.04.2012 às 13:42

O argumento da homofobia não colhe. Provavelmente já fui a mais bares gays do que o Jorge. A sociedade não é uma entidade moral dotada de capacidade de raciocínio, mas sim o resultado da interacção entre milhões de agentes, através da qual evolui. Não percebe em que é que distúrbios psicológicos derivados do niilismo e de teorias falsas afectam a sociedade em geral?
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De Jorge Soares a 11.04.2012 às 13:51

Não, não percebo em que é que este suposto distúrbio em particular, afecta a sociedade. É que sabe, eu sou parte da sociedade e por mais que pense, não consigo perceber em que é que me pode afectar que as pessoas que eu conheço sejam ou não gays.

E não me respondeu, em que é que o afecta a si, ou afectaria o Saraiva que aquele jovem no elevador fosse gay

Jorge Soares
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De Samuel de Paiva Pires a 11.04.2012 às 13:59

Directamente, aqui e agora? Nada. Mas se for homossexual falso, como muitos por aí, é um sintoma de uma degenerescência moral e social derivada da ideologia de género que nos trouxe a ideia de que podemos escolher o género e a orientação sexual, o que é falso. Que este tipo de ideias domine o quadro cultural e tenha influência normativa em políticas públicas é apenas evidente, basta olhar para a Europa e ver o que é que o politicamente correcto da normalização da homossexualidade, do feminismo e do multiculturalismo têm feito, em especial em Inglaterra.
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De José António Abreu a 11.04.2012 às 14:14

Jorge: de certa forma, a situação é similar a um homossexual sentir-se forçado, seja lá pelas razões que for, a fingir-se hetero.
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De c. a 11.04.2012 às 20:30

Jorge Soares, em Portugal afecta bastante. Se, levando a coisa ao absurdo, toda a população se tornasse gay e o fosse absolutamente Portugal chegava ao fim em decénios. Em grau menos dramático contribui para tornar mais difícil a reposição da população e a sustentabilidade do nosso modelo social.
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De Jorge Soares a 11.04.2012 às 21:12

Ou seja... combatemos a baixa natalidade fazendo uma lei que proíba a homossexualidade... como é que os sucessivos governos deste país ainda não se lembraram de tal coisa?

A sério, acha mesmo que o número de gays tem a ver com a baixa taxa de natalidade?... então porque é que são todos contra a ideia de eles terem filhos e adoptarem?

Jorge Soares
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De c. a 11.04.2012 às 23:10

Não me atribua palavras que não disse. Afirmou que nada temos a ver com o comportamento homossexual. E eu dei um exemplo que demonstra que sim e o que não contrariou.
Quanto a políticas e proibições são ilações de sua lavra e que me são estranhas.
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De Luís M. Jorge a 12.04.2012 às 09:02

Ahahah, ficas sempre com os melhores comentadores para ti, Leonor. Os cromos devem fazer um horário, como os pedintes de metropolitano.
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De Leonor Barros a 12.04.2012 às 13:47

Será que sinto por aí um laivo de inveja? :))))))) Experimenta falar sobre religião e, pelos vistos, homossexualidade e verás, Luís. A política já não rende :)
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De c. a 11.04.2012 às 21:01

Não sei se é suposto distúrbio ou não. Freud classifica a homossexualidade como um distúrbio e grave.
Será que chegará a vez de Freud se tornar politicamente incorrecto? Dado o esforço de mediocratização repressiva das sociedades actuais, Freud há muito que deve ser um incómodo.
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De Jorge Soares a 11.04.2012 às 21:14

Podíamos escrever vários livros com as coisas que eram verdade quando Freud Viveu e que agora são mentira... Freud era um homem do seu tempo e a psicologia ao contrário da matemática não é precisamente uma ciência exacta.....

Jorge Soares
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De Anónimo a 12.04.2012 às 00:20

A matemática não é uma ciência.
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De Leonor Barros a 11.04.2012 às 21:36

E depois de Freud não há mais nada.
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De c. a 12.04.2012 às 00:46

Depois de Freud haverá, mas o travejamento do edifício pertence-lhe ainda, mais coisa, menos coisa, e explicação para o comportamento homossexual que contrarie o dado por ele, creio que não há. A coisa foi decidida por votação, e nada teve a ver com questões científicas.
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De Ana a 11.02.2013 às 23:32

Deixo que Freud o contradiga. Carta de Freud em 1935 a uma mãe angustiada que lhe pedia que curasse a homossexualidade do filho:

"I gather from your letter that your son is a homosexual. I am most impressed by the fact that you do not mention this term yourself in your information about him. May I question you why you avoid it? Homosexuality is assuredly no advantage, but it is nothing to be ashamed of, no vice, no degradation; it cannot be classified as an illness; we consider it to be a variation of the sexual function, produced by a certain arrest of sexual development. Many highly respectable individuals of ancient and modern times have been homosexuals, several of the greatest men among them. (Plato, Michelangelo, Leonardo da Vinci, etc). It is a great injustice to persecute homosexuality as a crime –and a cruelty, too. If you do not believe me, read the books of Havelock Ellis.
By asking me if I can help [your son], you mean, I suppose, if I can abolish homosexuality and make normal heterosexuality take its place. The answer is, in a general way we cannot promise to achieve it. In a certain number of cases we succeed in developing the blighted germs of heterosexual tendencies, which are present in every homosexual; in the majority of cases it is no more possible. It is a question of the quality and the age of the individual. The result of treatment cannot be predicted.
What analysis can do for your son runs in a different line. If he is unhappy, neurotic, torn by conflicts, inhibited in his social life, analysis may bring him harmony, peace of mind, full efficiency, whether he remains homosexual or gets changed."
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De Leonor Barros a 11.04.2012 às 21:33

E assim sendo a homossexualidade é um distúrbio psicológico derivado do niilismo e de teorias falsas?
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De Samuel de Paiva Pires a 11.04.2012 às 21:46

Não. Bem sei que escrevo testamentos a que a maior parte das pessoas não se dão o trabalho, pois compreensivelmente não têm paciência, de ler. Mas não foi isso que eu disse. O que disse é que a homossexualidade é genética/biológica e, portanto, natural, não se escolhe. Depois há quem julgue que a pode escolher, e é precisamente isso que é um erro e pode levar, quando não é já, a distúrbios psicológico. E a comprová-lo está não só o testemunho do psicólogo clínico que aqui deixei como o meu próprio conhecimento pessoal de alguns casos, um deles o de uma pessoa bem próxima.
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De Leonor Barros a 11.04.2012 às 21:58

Eu também nunca lhe disse que a minha indignação é porque o Saraiva lhe deu para ser gay spotter, embora consiga pensar em melhores formas de passar o tempo. O que eu acho é que ele não tem o direito de fazer julgamentos morais sobre a sexualidade de cada um. Quanto ao classificar as pessoas pela sua aparência ou tiques, cada um fala, por si, estou-me literalmente nas tintas e jamais concordaremos. O que me interessa é o carácter da pessoa. E já disse por aí algures, o direito inalienável de cada um ser como é sem julgamentos moralistas.
Não me interessa se a homossexualidade é genética, interessa-me que cada um viva livremente exactamente como é e que seja aceite pelo seu carácter e não discriminado pelas suas orientações sexuais, cor, credo, e até ideologia política. Se assim fosse não falava com muitas pessoas que por aqui andam.
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De Samuel de Paiva Pires a 11.04.2012 às 22:12

Ter o direito ou não ter é que é irrelevante. O facto de as disputas e debate políticos, ideológicos e culturais se realizarem em grande medida no jargão dos direitos é um dos grandes obstáculos à capacidade de juízo crítico do que está certo ou errado nas sociedades ocidentais. Mas mesmo indo por aí, há um direito supremo que assiste a todos, e no qual os críticos de JAS deveriam pensar, que é o da liberdade de expressão. Acham que ele é um otário ou um atrasado mental? Estão no seu direito de o achar e verbalizar. Assim como ele está no dele de verbalizar o que pensa, seja a respeito do que for. Numa democracia liberal saudável, em que se dá a institucionalização do conflito, excluindo a força e dando primazia ao verbo, é apenas normal que assim seja. De resto, não vejo onde é que ele sugeriu qualquer tipo de discriminação, e não pode forçar ninguém a "aceitar" seja o que for. Pode, quanto muito, forçar a tolerar. A tolerância implica o desacordo, e a convivência com aquilo com que discordo, não a aceitação, e não exclui a capacidade ou até direito de fazer juízos de valor seja sobre quem for, seja sobre o que for. Quando perdermos a capacidade de o fazer, de criticarmos e discordarmos uns dos outros, descemos um patamar na escada que nos separa dos animais. Só para concluir, uma passagem do sempre polémico Roger Scruton: «Through the slippery notions of discrimination and human rights, they have used the law to advance their agenda. Homosexuality is now treated by the law as a tendency comparable in almost every way to heterosexuality, so that any attempt to distinguish between people on grounds of their "orientation" — whether as applicants for a job, or as recipients of a privilege — is regarded as unjust "discrimination", comparable in its moral heinousness to discrimination on grounds of race or sex.» (http://roger-scruton.blogspot.pt/2007/01/this-right-for-gays-is-injustice-to.html)
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De c. a 12.04.2012 às 01:11

Eu não sou psiquiatra, e não sei quais as causas da homossexualidade. Duvido que sejam o nihilismo os as falsas teorias. Pode haver um fenómeno de moda que cause algumas situações desagradáveis referidas, mas creio que serão pouco representativas.
A questão não é o comportamento homossexual, que sempre existiu. A questão é uma cultura e activismo gays, fomentada por um marxismo orfão que pensará que tudo o que seja dissolvente dos valores «burgueses» é um ganho (para o socialismo?) e que usa métodos de terrorismo intelectual que são um perigo para a liberdade.
Ora, por muito que custe, condenar a homossexualidade ou a cultura gay - ou, inversamente, fazer a sua apologética - é um direito que tem de ser defendido intransigentemente dos desvarios do beatério, com particular ênfase para o dos bem intencionados.


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De Leonor Barros a 11.04.2012 às 13:27

Distúrbios psicológicos??????
Estou-me nas tintas se a homossexualidade é genética, adquirida ou seja o que for. O que me interessa verdadeiramente é que todos temos os mesmos direitos, independentemente de credo, cor ou orientação sexual. Todos, rigorosamente todos temos o direito à dignidade e ao respeito. Não é isso que acontece no texto abjecto do Saraiva.
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De Samuel de Paiva Pires a 11.04.2012 às 13:47

Leonor, então passa ao lado do argumento central e que realmente importa no texto de JAS. Se o problema é a classificação derivada da observação e descrição, deixe-me contar-lhe uma observação que me fizeram no início da primeira vez que fui a um bar gay. Dois gays olharam-me de alto a baixo, viraram-se para mim e afirmaram categoricamente: "Você é hetero, não é gay". Sorri e pronto. Qual é o problema? Todos os dias passo algum tempo no Chiado e, sentando-me numa qualquer esplanada ou nos Armazéns a jantar, consigo dizer-lhe quem é gay. E quem disser que o não consegue, ou está a mentir ou deve andar de olhos fechados e sem utilizar o cérebro. Todos classificamos os outros, mesmo que o façamos inconscientemente e sem o exteriorizar. Não há mal nenhum nisso, é uma característica humana e que nos distingue dos animais. O que realmente importava era que no meio do histerismo compreendessem aquilo que Abel Matos Santos, psicólogo clínico, salientou na caixa de comentários do Estado Sentido: «Como profissional de saúde que trabalha, também, com adolescentes, posso afirmar categoricamente que assistimos a um fenómeno absolutamente assustador, onde muitos adolescentes e jovens adultos que não são homossexuais se envolvem em práticas homossexuais pela pressão dos pares, por estar na moda e pela pressão social, tendo muitos desenvolvido problemas emocionais graves que os leva, entre outras coisas, a automutilações, depressões e suícidio. JAS tem toda a razão no seu artigo! Venham as ILGAS e os arautos dos homossexuais contestar, mas a realidade impoe-se sempre a ideologia.»
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De Jorge Soares a 11.04.2012 às 14:58

Mas será que esses problemas emocionais que os jovens desenvolvem são devidos aos actos em si, ou à pressão que a sociedade homofóbica e recriminadora exerce sobre eles?

Uma sociedade mais tolerante e com menos artigos como o que aqui se discutem, com pessoas melhor formadas e informadas não seria a solução?

Jorge Soares
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De Samuel de Paiva Pires a 11.04.2012 às 15:10

Creio que os actos acabam por ser mais o sintoma do que a causa, indo no sentido do que escreve. Quanto a essas, aí sim, podemos colocar várias hipóteses e especular, sendo que para cada indivíduo serão provavelmente diferentes ou pelo menos será uma combinação de causas em vários graus e formas.
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De José Navarro de Andrade a 11.04.2012 às 21:34

Eu por acaso quando passo à frente das esplanadas do Chiado, topo logo quem é parvo só pela maneira como olha para os outros. Get a life!
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De Samuel de Paiva Pires a 11.04.2012 às 21:55

Tenho a certeza que consegue fazer melhor que isso. Parvo é, vá, digamos, fraquinho.
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De Luís M. Jorge a 12.04.2012 às 08:57

"da primeira vez que fui a um bar gay. Dois gays olharam-me de alto a baixo, viraram-se para mim e afirmaram categoricamente: "Você é hetero, não é gay". "


E estavam enganados, não estavam? Perdoe a curiosidade, mas o seu fascínio por este assunto faz-me pensar que mais vale tarde que nunca. Força, Samuel! You will survive.
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De Samuel de Paiva Pires a 12.04.2012 às 09:26

Ó Luís, descobriu-me. É isso mesmo. Levo uma vida dupla. De dia sou hetero, à noite sou gay, passeio-me pelo circuito gay e ainda tenho uns fetiches esquisitos que me fazem ir dar uma perninha ao Conde Redondo. A pergunta que deve fazer a si próprio é "quantos clichés de pseudo-psicologia é que consigo utilizar para que não se fale de um qualquer assunto que o politicamente correcto entendeu por bem sacralizar e tornar intocável e acima de discussão e crítica?"
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De c. a 12.04.2012 às 14:01

As divulgações são como sono da razão, dão azo a monstros.
E põe o dedo na ferida: trata-se de liquidar a discussão e a crítica e de criar o hábito do indiscutido, da aceitação acrítica. A preparação de uma sociedade totalitária.
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De José Navarro de Andrade a 11.04.2012 às 21:30

E qual é o problema de querer ser gay, não o sendo biologicamente? Nada me parece mais niilista e anti-liberal do que prescrutar o comportamento dos outros e concluir tamanhas profundidades numa singela viagem de elevador. Ou vir com atestados médicos a provar razões comportamentais. É coisa de velhas à janela a cortar na casaca ou de clínica de gulag. Misérias morais, portanto.
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De Samuel de Paiva Pires a 11.04.2012 às 21:43

Vide respostas acima a Jorge Soares. A natureza humana não é transformável só porque nós o desejemos.
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De José Navarro de Andrade a 11.04.2012 às 23:18

Transformar a "natureza humana" é coisa de muita engenharia social. Houve no século passado uns rapazes que se dedicaram a isso e parece que não deu bom resultado. Ná, sou um liberal da facção hedonista: só quero fazer o que me apetece comigo próprio, sem ser chateado pelos que dizem saber o que é a "natureza humana". Ele há gente muito danada para andar de dedo apontado à vida dos outros. Por acaso não me tem apetecido ser gay, mas se quisesse era - so what? Façam como Oakeshott, dediquem-se à pesca.
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De Samuel de Paiva Pires a 11.04.2012 às 23:28

Mas eu partilho da sua opinião: acho que cada qual deve ser livre de fazer o que quiser consigo próprio, na sua esfera privada. Não me peça é para abdicar de uma parte inalienável da minha liberdade individual, que é o direito/capacidade de realizar juízos de valor sobre comportamentos sociais que se manifestam no espaço público.
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De José Navarro de Andrade a 11.04.2012 às 23:46

Um inglês chega a uma festa calçando chinelos. Repara que todos estão de fato escuro e pensa: "enganei-me na roupa". Um português entra de chanatos numa festa onde todos estão de fato escuro. Faz um juízo de valor: "Olha estes gajos com a fatiota errada armados em bons."
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De Bic Laranja a 11.04.2012 às 14:15

E se puto amaricado fosse só estúpido, podia criticar-se, como se faz ao Sócrates?
Cumpts.
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De Anselmo Damásio a 11.04.2012 às 15:37

Esse tipo é um grande idiota.
Tenham cuidado que ele anda para aí a mirar o pessoal.
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De Leonor Barros a 11.04.2012 às 21:11

Tenho que ter cuidado com o modo como ponho os pés :)
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De c. a 11.04.2012 às 20:56

Não vejo o que tem de mal o artigo do JAS.
Lembro-me de ler artigos sobre o reconhecimento de portugueses no estrangeiro, alguns deles cheios de humor, em que se referiam gestos e modos de estar e de ser tidos por "portugueses". Alguns deles não eram lisonjeadores, mas ninguém se indignou. Afinal, aceitamos tudo isso como a expressão de uma cultura (e pode ser que muito seja nela determinado pela genética, como é o caso de sobrinhos que herdam os mesmíssimos gestos e até modos de falar de tios que nunca conheceram...). Ora, de uma pesquisa que fiz agora, são os gays que se assumem como uma cultura. E as culturas têm manifestações. Um japonês não se senta do mesmo modo que um espanhol. Qual o problema? Temos de fingir que o japonês não é japonês e que os espanhóis não são espanhóis?
Será que pretenderão que o seu comportamento seja o único que não tenha aspectos negativos?
Parece-me presunção.
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De Leonor Barros a 11.04.2012 às 21:11

Não temos é de definir os homossexuais como inúteis devido à sua orientação sexual.
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De c. a 13.04.2012 às 02:27

Claro que não. Nem ninguém faz isso. Serão inutilidades do ponto de vista biológico, se completamente homossexuais, como qualquer um de nós, passada a idade de procriar. Não me parece claro que essa «inutilidade» promova, por si, a adopção do nihilismo, nem sequer que a cultura gay a existir - e o nihilismo tenham uma raiz comum.
Mas, para já, há a distinguir homossexualidade de cultura gay.
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De Leonor Barros a 13.04.2012 às 16:27

Então concordamos no disparate do arquitecto Saraiva, pelo menos parcialmente.
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De Daniel João Santos a 11.04.2012 às 21:44

muito bom.
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De Cláudia a 11.04.2012 às 22:05

Como seria de esperar, e à semelhança de grande parte dos leitores do jornal Sol, a recente crónica de José António Saraiva não me deixou indiferente. Nesta publicação, de título “Homossexuais contestatários”, o diretor do semanário Sol relembra que as comunidades gay estão em crescimento, referindo o Chiado como umas das zonas do mundo com maior nível de adesão destas comunidades. E foi no Chiado que o jornalista teve um breve encontro com o rapaz que iria protagonizar o seu artigo. Começa da seguinte forma: «À minha frente, no elevador, está um rapaz dos seus 16 ou 17 anos. Pelo modo como coloca os pés no chão, cruza as mãos uma sobre a outra e inclina ligeiramente a cabeça, percebo que é gay.»
Continua, expondo a sua teoria de que «o assumir da homossexualidade por parte de figuras públicas acabará forçosamente por ter um efeito multiplicador», uma vez que «funciona como propaganda» (Quererá isto dizer que as figuras públicas devem esconder a sua sexualidade para evitar propagandeá-la?); que, em alguns casos, o mistério que rodeia a homossexualidade e a pressão do meio são os motivos que levam à tomada desta opção; e por fim, para não me alongar demasiado, expressa que, para determinados jovens, «a homossexualidade surge como uma forma de mostrar a sua ‘diferença’, de manifestar a sua recusa de uma sociedade convencional, de lutar contra a hipocrisia daqueles que não têm coragem de se mostrar como são, de demonstrar solidariedade com aqueles que são discriminados ou perseguidos pelas suas opções.»
As reações não se fizeram esperar por entre os internautas, que, indignados, defenderam – e bem – o ponto de vista do lado dos homossexuais. José António Saraiva saberá o que quis dizer na sua crónica, e esperemos que venha a público justificar alguns comentários menos felizes que tenha feito. Mas, como dizia, o lado dos homossexuais está já bem defendido. Gostaria de referir algo que, na mesma crónica, me despertou a atenção: Achei absurdo a forma como o rapaz, alvo de observação, foi imediatamente considerado homossexual pela sua forma de agir. Isto é, na minha opinião, preconceito no sentido literal da palavra (pré+conceito, juízo pré-concebido).
Segundo o estereótipo, um rapaz homossexual exibe gestos afeminados… isso basta. Bastou para este rapaz ser imediatamente considerado homossexual. Continuando o seu juízo, o jornalista assumiu que «a sua [do rapaz] forma de estar, assumindo tão evidentemente a homossexualidade, correspondia a uma atitude de revolta». O adolescente, contudo, nada assumiu. Homossexual ou não, estava apenas a tentar levar a sua vida normal, talvez nem imaginando que estaria a ser considerado uma pessoa revoltada.
Isto acontece todos os dias, em todas as ocasiões do quotidiano. Pessoas de uma religião diferente, de uma raça diferente, de orientação sexual diferente… pessoas caladas, pessoas sérias… pessoas extrovertidas de mais… todos são vítimas de estereótipos, e mesmo assim, quase todos julgam os outros da mesma forma que são julgados. Foi desta forma que, num elevador na FNAC do Chiado, tal como em tantos outros pontos do país, um indivíduo foi julgado, julgamento esse, que, certo ou errado, foi publicado posteriormente numa página de um jornal. Caso ambos tivessem falado, ao invés de, calados, se regirem por estereótipos, talvez tivessem aprendido mais um sobre o outro, a ter mais compreensão. Algo que tanto falta no mundo…

Fonte: http://leituras-e-opinioes.blogs.sapo.pt/738.html
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De Leonor Barros a 11.04.2012 às 22:10

Obrigada pelo seu contributo, Cláudia. Concordo inteiramente. Ainda não entendi como não se consegue ver o óbvio.

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