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Delito de Opinião

Vícios e impérios

Ana Vidal, 19.04.09

 

Deixei de fumar há quase dez anos, mas jurei a mim própria que não me tornaria num desses fundamentalistas prontos a matar, a rajadas de metralhadora, quem ainda não se libertou do vício. E, felizmente, consegui cumprir a jura.

 

Claro que os ambientes despoluídos são mais saudáveis, claro que fumar não é bom para ninguém, claro que os fumadores passivos são injustiçados. Mas não consigo deixar de ver, em alguns desses irredutíveis ex-fumadores, a frustração de ter perdido um prazer e, até, uma certa inveja dos que consideram suicidas e inconscientes. Pior ainda: noto-lhes uma certa pose farisaica, de quem se acha superior por ter substituído o vidro dos seus telhados por uma resistente chapa de zinco, e está pronto a atirar pedras aos cristais alheios, por se saber a salvo de represálias. Há uma frase de Agustina Bessa Luís, no livro Prazer e Glória, que resume bem o que quero dizer: Não há império maior do que o que se tem sobre os vícios dos outros. Grande, grande verdade.

 

Enfim, não defendo o tabaco. Sei que é francamente prejudicial à saúde, que pode matar a longo (e às vezes a curtíssimo) prazo. Mas reconheço aos outros o direito a um vício que - ainda me lembro muito bem - dá um enorme prazer. Se querem viver ou matar-se assim, quem sou eu para dizer-lhes que não o podem fazer? Sejamos sérios: o tabaco não é um serial killer solitário, numa cruzada cega contra os humanos. O stress, a solidão, a falta de dinheiro, o excesso ou a falta de trabalho, a poluição e, sobretudo, a ausência de perspectivas de um futuro mais risonho, formam um gang letal. E estamos (quase) todos nas mãos desse gang.

 

Parabéns aos que não fumam, nunca fumaram ou já deixaram de fumar, e… boas baforadas aos restantes, e que dêem uma ou duas por mim.

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