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Delito de Opinião

Últimas Ceias #4

José Navarro de Andrade, 06.04.12

Recorde-se que a última ceia de Leonardo da Vinci captura o instante em que Cristo anuncia haver um traidor no meio de nós.

Diz-se que o rosto é o espelho da alma e que a sua superfície é um sismógrafo onde se registam as vibrações profundas. Por isso, além das poses arqueadas e da composição turbulenta, o fresco de Da Vinci estampa na cara dos apóstolos uma perturbação tanto mais patética quanto contrasta com a levítica serenidade do Cristo traído.

 

Zeng Fanzhi, 1999

 

Zeng Fanzhi faz das artes plásticas uma forma de cirurgia plástica. Pelo que se apropria da Última Ceia como mais um passo para o tratamento do rosto em pintura. Primeira operação: todos os amesendados ostentam a mesma cara: impassível, justaposta, esboçada, sem género nem carácter. Fica apenas a composição reproduzida da de Leonardo e a sua expressividade, além das mãos, essas mãos que apontam para todo o lado à procura. Segunda operação: sobre a toalha espalham-se talhadas de melancia e nada mais: uma ceia ainda mais frugal que a canónica – e vermelha. Terceira operação: todos envergam o uniforme de pioneiros, a juventude do PCC; a traição adquire cunho político e típico da tradição comunista chinesa, onde a conspiração, o atrito entre grupos de pressão, os putsch para a tomada do poder interno e as quedas em desgraça eram (são?) a norma. O calvário iniciado na Última Ceia, ganha com Fanzhi outras conotações – mas calvário, sempre.

 

 Rauf Mamedov, 1998 

 

Rauf Mamedov utiliza um dispositivo tão simples que parece óbvio depois de apresentado. Os corpos agitam-se à imagem da composição de Leonardo, mas agora há entre os protagonistas uma característica comum: têm todos um cromossoma a mais. Como o nosso olhar é deseducado, a primeira tentação será dizer: “São todos iguais”. É este o ponto de Mamedov: não são. A humanidade está para além do rosto.

 

Rauf Mamedov, "Última Ceia" (detalhe)

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