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O simbolismo de uma tragédia.

por Luís Menezes Leitão, em 05.04.12

 

Esta notícia do suicídio de um pensionista grego de 77 anos em plena Praça Syntagma reveste-se de um enorme simbolismo. Trata-se de um cidadão que tinha um contrato com o Estado, pelo qual ele asseguraria a sua reforma em virtude dos descontos que fez durante uma vida inteira. Para satisfazer os credores estrangeiros, o Estado quebrou esse contrato, cortando-lhe essa pensão, deixando o cidadão na miséria. Provavelmente o cidadão achou que o seu Parlamento o defenderia e que a Grécia tinha uma constituição que o protegeria. Quando viu que o país tinha passado a ser governado pelos credores estrangeiros, pôs termo à sua vida precisamente na praça da Constituição onde se encontra o parlamento grego. Ora, um país em que os cidadãos se matam em frente ao seu Parlamento é um país que já morreu.

 

Por cá, infelizmente as coisas não vão muito melhor. O tribunal constitucional também aceitou cortar salários e pensões, desde que o corte fosse temporário. A argumentação é ridícula, uma vez que enquanto dura o corte de salários as pessoas podem entrar em insolvência e ficar na miséria. No entanto, já veio a Comissão Europeia pedir que o corte se torne definitivo e o Primeiro-Ministro imediatamente referiu que o dinheiro confiscado só será devolvido a partir de 2015 e às pinguinhas. Um Estado que prefere proteger os credores estrangeiros em lugar dos seus funcionários e pensionistas é um Estado que não se respeita a si próprio. Para defender o Estado português, exige-se aos governantes algo mais do que pôr a bandeira de Portugal na lapela do casaco: exige-se que protejam os cidadãos portugueses.


17 comentários

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De Joana Lopes a 05.04.2012 às 08:34

Excelente, Luís, a começar pelo título.
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De Monti a 05.04.2012 às 09:02

Sorry.
"Eles" estão lá por uma única razão.
Para se proteger a si próprios.
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De Luís M. Jorge a 05.04.2012 às 09:39

Muito bem.
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De Pedro Barbosa Pinto a 05.04.2012 às 10:03

Ouviu o Primeiro-Ministro referir que o dinheiro confiscado será DEVOLVIDO? Eheheh... Seria bom , seria, mas não me parece que Ferreiras do Amaral, Jorges Coelhos ou Antónios Mexias estejam virados para aí!

O que eu ouvi o Primeiro-Ministro dizer, foi que em 2015, que por feliz coincidência (para ele) será ano de eleições, irá anunciar "aumentos" dos ordenados.

E em 2015 o estado de espírito geral no país (se o houver ainda) já deve ser tal, que, digo eu que sou parvo!, o "aumento" irá ser tão generoso e tão bem propagandeado, que o facto das pessoas continuarem, ainda assim, a receber menos dinheiro por ano do que o que recebiam em 2010 (porque as doze prestações vieram para ficar e ficam mesmo!) nem será contestado. Qualquer esmola já será humildemente agradecida!

Posso até imaginar a discussão da proposta dos "aumentos" na AR, com o AJ Seguro a AMEAÇAR que o PS se abstém caso o Governo não ceda em dar mais cinco por centinhos de aumento do que o proposto, e O F Louçã mais o B Soares, apesar de votarem contra em quaisquer circuntâncias, a EXIGIREM, no mínimo, mais 15 por cento para além da reposição dos feriados do 1º de Dezembro e do 5 de Outubro.
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De Luís Menezes Leitão a 05.04.2012 às 10:52

Claro que as quantias confiscadas nunca serão devolvidas. Por isso é que se tratou de um verdadeiro confisco e não de um empréstimo forçado. O que quis dizer é que seria reposto o nível dos salários, ainda que às pinguinhas. É evidente que se trata de uma manobra para eleitor ver, semelhante à de Sócrates em 2009, que aumentou os salários em 2,9% para logo a seguir fazer um corte até 10%. Provavelmente irá ser seguida a mesma técnica. Pessoalmente estou cansado, quer destas manobras eleitorais, quer da facilidade com que neste país se aceita confiscar salários e pensões, sem que quase ninguém proteste.
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De André Miguel a 05.04.2012 às 10:53

Muito bem, acerta na mouche.
Dizem que este é, ou seria, um governo liberal. Ora qualquer liberal que se preze sabe que o Estado minimo deve garantir apenas saúde, educação e justiça. Infelizmente nada disto existe aí pelo rectângulo... Como bem avisou Hayek, chegámos à servidão.
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De Luis Eme a 05.04.2012 às 11:10

o que faz realmente mais confusão é o silêncio das pessoas.

as determinações para a função pública tem sido seguidas à risca pelos privados, que além de "surrupiarem" o 12º e 13º mês aos funcionários, começam a pagar tarde e a más horas, em empresas onde tal não é justificável, pois continuam a facturar normalmente.

já percebi que só quando alguém perder a cabeça e em vez de se suicidar, atingir mortalmente um dos muitos culpados da crise que estamos a viver, as coisas mudarão.
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De Luís Ferreira a 05.04.2012 às 13:16

Não é assim tão linear, de acordo com outras interpretações:

http://luisalvesdefraga.blogs.sapo.pt/87679.html
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De Ana Vidal a 05.04.2012 às 13:22

Excelente texto, Luís. Impressionou-me imenso o gesto do pensionista grego, e é isso mesmo que dizes: ele cumpriu a sua parte no contrato, o Estado é que não. Não era caridade, era o dinheiro dele. A desprotecção dos mais frágeis, a que assistimos todos os dias, leva-nos a perguntar cada vez mais para onde vai o nosso dinheiro, quando pensamos estar a garantir uma velhice minimamente tranquila.
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De Leonor Barros a 05.04.2012 às 14:09

Excelente, Luís. Subscrevo inteiramente.
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De Outside a 05.04.2012 às 16:07

Muito bem. Rigoroso post .
Em essência, no fundo do fundo, em matéria pura sem eufemismos ou aparências embrulhadas...é isto.

No caso nacional importa referir, e os demais certamente terão em arquivo essas declarações e esses factos interessantes de que:
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Muito bem. Rigoroso post . <BR>Em essência, no fundo do fundo, em matéria pura sem eufemismos ou aparências embrulhadas...é isto. <BR><BR>No caso nacional importa referir, e os demais certamente terão em arquivo essas declarações e esses factos interessantes de que: <BR><BR class=incorrect <a name="incorrect">1.No</A> </A></A></A>ano passado, um dos representantes da troika referiu que a acção de retirar os subsídios à função pública durante o programa de ajuda foi da exclusiva responsabilidade do governo português, sem qualquer imposição do memorando; <BR>2.No ano passado foi-nos garantido pelo governo em funções que o corte vigoraria somente durante 2 (dois) anos; <BR>3.No presente ano (há umas semanas) um dos representantes da troika referiu que, o corte dos subsidios poderia estender-se para álem do programa de ajuda; <BR>4. Ontem, em evidente dissonância, foi comunicado pelo nosso primeiro que o corte se estenderá para além dos dois anos de ajuda e que a sua reposição será gradual; <BR><BR><BR>As incoerências são factuais, tanto em quem nos governa como em quem nos fiscaliza...e esse é verdadeiramente um simbolo de incapacidade, desorganização e inépsia face aos tempos presentes e futuros.

Excelente post.

Fique bem.
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De Outside a 05.04.2012 às 16:53

Maldita verificação ortográfica que erra e sna o comentário.
Se dúvidas houver relativamente ao conteúdo, re-apresentarei o mesmo.

Fique bem e desculpas pelos Brrrrrs.

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