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Delito de Opinião

As últimas ceias #1

José Navarro de Andrade, 04.04.12
 

 

Andy Warhol, 1984

 

A ressurreição do Cristo é o fulcro da religião cristã. Se não há sobrenatural, não há crença e sem ele o cristianismo não passaria de uma cartilha moral. Mas a última Ceia, com o passar das eras, veio a consolidar-se enquanto uma das fundações do que genericamente se apelida de civilização Ocidental. A partir dessa cerimónia estabelecemos que o elo supremo entre os humanos está em partilhar o pão e o vinho; assim como partilhar o pão e o vinho à mesa, se tornou um gesto cultural que designa os momentos decisivos de uma vida – ou mesmo de um dia, se formos civilizados.

O fresco de Leonardo pintado no limite do Quatroccento, é uma das obras de arte mais decisivas jamais imaginadas. A sua encenação é de tal modo irrefutável e tão justa a sua coreografia, que a ceia de Jesus com os apóstolos foi assim de certeza, mesmo que na realidade não tenha sido assim.

Este carácter absoluto, ao qual pouquíssimas obras ascendem, fizeram do fresco uma espécie de palimpsesto sobre o qual se vão inscrevendo novas visões, num diálogo interminável, por vezes sereno, outras agreste, como costumam ser as conversas interessantes. Isto já não tem nada a ver com religião e às vezes nem sequer com arte, mas sim com o modo como habitamos o nosso tempo.

São algumas dessas versões, desejavelmente inesperadas, que se vão reproduzir nesta série.

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