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As últimas ceias #1

por José Navarro de Andrade, em 04.04.12
 

 

Andy Warhol, 1984

 

A ressurreição do Cristo é o fulcro da religião cristã. Se não há sobrenatural, não há crença e sem ele o cristianismo não passaria de uma cartilha moral. Mas a última Ceia, com o passar das eras, veio a consolidar-se enquanto uma das fundações do que genericamente se apelida de civilização Ocidental. A partir dessa cerimónia estabelecemos que o elo supremo entre os humanos está em partilhar o pão e o vinho; assim como partilhar o pão e o vinho à mesa, se tornou um gesto cultural que designa os momentos decisivos de uma vida – ou mesmo de um dia, se formos civilizados.

O fresco de Leonardo pintado no limite do Quatroccento, é uma das obras de arte mais decisivas jamais imaginadas. A sua encenação é de tal modo irrefutável e tão justa a sua coreografia, que a ceia de Jesus com os apóstolos foi assim de certeza, mesmo que na realidade não tenha sido assim.

Este carácter absoluto, ao qual pouquíssimas obras ascendem, fizeram do fresco uma espécie de palimpsesto sobre o qual se vão inscrevendo novas visões, num diálogo interminável, por vezes sereno, outras agreste, como costumam ser as conversas interessantes. Isto já não tem nada a ver com religião e às vezes nem sequer com arte, mas sim com o modo como habitamos o nosso tempo.

São algumas dessas versões, desejavelmente inesperadas, que se vão reproduzir nesta série.


10 comentários

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De José António Abreu a 04.04.2012 às 12:30

Boa ideia - ainda que, dependendo das escolhas, possas vir a ferir uma ou outra susceptibilidade...
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De José Navarro de Andrade a 04.04.2012 às 13:01

Caríssimo: pelo que virá a seguir creio que vão ser necessários muitos caldos de galinha. Mas tenho que quando há susceptibilidades feridas pela arte, o problema é das primeiras, não da segunda. Ora aqui está uma guerra que gosto de travar.
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De Leonor Barros a 04.04.2012 às 12:41

Há muitos anos em Munique vi uma exposição da última ceia do Warhol. É impressionante mas mais pelas dimensões.
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De José Navarro de Andrade a 04.04.2012 às 12:58

É esse um problema grande: isto é uma reprodução e como tal nunca, mas nunca, fará justiça ao original.
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De Ivone Mendes da Silva a 04.04.2012 às 12:58

Excelente ideia, Zé Navarro. E tens toda a razão: é mesmo um palimpsesto com sucessivas inscrições que chamam outras e mais outras.
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De Ana Vidal a 04.04.2012 às 13:39

Patrício, mais uma coisa que temos em comum: eu tenho uma enoooorme colecção de imagens de "últimas ceias". Ofereço-tas para a tua série, se quiseres, e poupo-te o trabalho de andares à procura. Que dizes? :-)
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De José Navarro de Andrade a 04.04.2012 às 16:38

Vai uma aposta como nenhuma das que irei postar faz parte da tua colecção? Há uma maneira de tirar isto a limpo: vai expondo aqui as tuas peças. Eu fico com os números ímpares e tu com os pares.
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De Ana Vidal a 04.04.2012 às 17:51

Combinado. Mas avançamos duas de cada vez, como fizeste hoje, para a série não ir muito além da Páscoa. Fazemos uma mini-série comentada.

(só tenho um problema: na maioria dos casos não conheço a autoria, fui guardando por curiosidade sem anotar isso. talvez alguém saiba e comente, enfim)
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De Ana Vidal a 04.04.2012 às 15:07

E há quem diga agora que a última ceia foi na 4a feira, e não na 5a feira santa... lá nos baralham outra vez o calendário dos feriados!

http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/904150-a-ultima-ceia-teria-acontecido-na-quarta-e-nao-na-quinta-feira.shtml
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De Pedro Correia a 05.04.2012 às 00:32

Muito bem, José. Esta série promete - e de que maneira.

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