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Retratos(3): Le donne della signoria

por Ivone Mendes da Silva, em 29.03.12

(Pronto, é o último post da série.)

 

Ao abrir a pasta, na qual vou guardando imagens nos dias em que tomo a séria resolução de ser uma pessoa arrumada, vi alinhadas algumas das Médicis pintadas por Bronzino. Uma galeria de mulheres mortas pela doença, pelo poder, pelo turbilhão das muitas razões para morrer na Florença medicea.

Quando Bronzino se torna o pintor favorito de Cosme, os retratos oficiais, os retratos com vestidos de corte, as poses hieráticas começam a encher as paredes do pallazzo. Ei-los, sem ordem cronológica, retirados deste meu sótão virtual. Sacudi-lhes um pouco o pó, apenas.

 

 

 

Bia dos Médicis, filha bastarda de Cosme. A mãe, ninguém sabia quem era a não ser Cosme e, ao que se dizia na época, a mãe dele, a poderosa Maria Salviati. Quando Cosme se casa com Eleonora de Toledo, a jovem esposa desagrada-se da presença da criança no palácio e o marido envia-a para junto da avó, para a Villa di Castello. Morre aos seis anos e Cosme encomenda a Bronzino este retrato póstumo, feito a partir de outros retratos ou da máscara mortuária. Não é um retrato oficial, é um retrato para os aposentos íntimos, para o olhar do pai. O pintor imaginou-a séria, gravezinha nas suas pérolas, de seda branca, ela que, provavelmente se chamaria Branca ( Bianca), daí o Bia afectuoso.
 
De Eleonora de Toledo, o retrato mas conhecido é este que já mostrei lá mais para baixo. Há, todavia, um outro que me agrada bastante.
 

 

É Eleonora recém-chegada e tudo nela prenuncia o outro retrato em que a segurança da senhora de Florença atingiu a sua plenitude. O vestido é de um encarnado belíssimo, bordado a bouclé de ouro, e no encaixe dos ombros dispõem-se geometricamente pérolas que Eleonora também usava nos brincos, na rede que prendia o cabelo. Bronzino gostava de pintar as mãos à altura do peito: as mãos esguias com anéis pesados, até parecem ali estar casualmente, quando nada é casual nestes retratos.

 

Quero, também mostrar estoutro de Isabel, a do post anterior a este.

 

 

É, ainda, uma Isabel muito nova, com encaixe de renda no vestido e olhar firme. Parece-se com a mãe, mas o ruivo florentino dos cabelos e o sorriso contido mostram os genes de Cosme e da avó, Maria Salviati, com quem diziam que se parecia no carácter e no gesto.

 

Lucrécia tinha tanto de fragilidade quanto a irmã de força.

 

 

A outra das filhas de Eleonora e Cosme, estudou, como os irmãos, grego, latim, música, literatura. Estudou, mas não deve ter aprendido grande coisa porque os autores referem que os seus talentos não iam mais além do que escrever uma carta. É uma menina muito bonita e muito triste. Aos 13 anos, casam-na com Afonso II de Este. Dois ou três dias depois do casamento, o marido parte para a corte de França, onde tinha relações familiares, pois era filho de Renata da França, e de onde só regressa após a morte do pai, para receber o título de duque de Ferrara. Alguns meses depois manda chamar a duquesa sua mulher. Lucrécia chega a Ferrara mergulhada numa profunda melancolia. Nem os acordes do Te Deum celebrado em sua honra na catedral a animam. Alta, muito magra, muito triste, a duquesa de Ferrara definha nos seus 16 anos. Cosme manda, de Florença, Andrea Pasquali, o médico de confiança, mas a morte de Lucrécia é inevitável. De tuberculose, muito provavelmente.

Foi sobre este retrato, sobre a triste beleza de Lucrécia de Cosme dos Médicis, duquesa de Ferrara, que Robert Browning escreveu o seu poema My last duchess, aquele poema que começa "That's my last Duchess painted on the wall / Looking as if she was alive." É uma fala de Afonso, frio e calculista, que se dirige ao embaixador Nikolaus Mardruz, após a morte de Lucrécia, para negociar o casamento com  Bárbara da Áustria.

 

Outro retrato, ainda. Outro de Eleonora, ainda de Bronzino.

 

 

Ela continua  a gostar de pérolas, mas envelheceu. Envelheceu como se envelhecia naquela época. Eleonora morreu com 40 anos e este quadro foi pintado um ano ou dois antes de  a malária chegar. O colo cobre-se de rendas, não há anéis pesados nos dedos, apenas um lenço na mão enluvada. Uma senhora idosa.  

 

(mini-série republicada com supressões e alterações)

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8 comentários

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De Ivone Mendes da Silva a 29.03.2012 às 22:03

Peço desculpa: não sei por que raio isto me sai com diferentes tipos de letra e outras coisas desalinhadas. Uma inabilidade total, a minha.
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De Ana Vidal a 30.03.2012 às 03:03

Excepto a criança, parecem-me todas profundamente tristes. Nem sequer um sorriso enigmático a la Gioconda, nada. Não devia ser fácil ser-se mulher nessa época, mesmo sendo poderosa e rica.
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De Ivone Mendes da Silva a 30.03.2012 às 12:26

Não devia ser, não. Aqui há, também, a pose para o artista. A seriedade que o retrato oficial impunha.
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De Ana Vidal a 30.03.2012 às 12:55

Sim, mas quando o artista é bom - e Bronzino era um excepcional retratista - deixa-nos ver mais do que a pose formal. E a infelicidade está bem visível em todos estes olhos...

Gostei muito desta tua mini-série.
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De George Sand a 30.03.2012 às 21:23

Uma pena que seja o último post da série...podia pensar-se em mais :).
Gostei imenso desta série de post.
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De Ivone Mendes da Silva a 30.03.2012 às 21:36

Oh, Filipa, obrigada, é muito gentil. Mas prolongar isto acabava por se tornar maçador :)
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De IMMC a 31.03.2012 às 01:22

Fico com pena ser o último post desta série.
São tão interessantes.
Obrigada.
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De Ivone Mendes da Silva a 31.03.2012 às 12:54

Eu é que agradeço a leitura.

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