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A barbárie está no meio de nós

por Pedro Correia, em 26.03.12

 

O Mal existe. Tem nome e rosto. Tem identidade própria. Tem alegadas "motivações", propaladas aos quatro ventos através da caixa de ressonância dos órgãos de informação. Tem até defensores - uns por razões políticas, porque interessa "destruir o sistema", outros simplesmente porque sim.

Não faltam aqueles que procuram negar a existência do Mal. Desde logo por crerem na bondade intrínseca à natureza humana: essas excelentes almas acreditam convictamente que não há rapazes maus. Ou por negarem validade às estruturas axiológicas: esses são os que argumentam pela irrelevância das fronteiras entre o Bem e o Mal, sobretudo porque as imaginam sempre contaminadas de conteúdo religioso. Sem repararem que tantas vezes, ao difundirem tal crença, assumem com frequência um fervor simétrico ao dos mais ortodoxos fiéis de uma determinada igreja.

E no entanto o Mal existe. Podemos vislumbrá-lo em múltiplas erupções quotidianas. No indivíduo que pela calada da noite põe uma bomba no carro de um autarca basco e encolhe indiferentemente os ombros quando a explosão desse veículo mata crianças que ignoram o significado da palavra nacionalismo, considerando-as "danos colaterais" - o homicídio mais aleatório e mais gratuito elevado à categoria de instrumento de acção política. O monstro de sorriso gélido que planeia friamente a execução sumária de algumas dezenas de adolescentes num acampamento de férias na Noruega e acaba classificado de inimputável por um colégio de psiquiatras. O fanático anti-semita que transforma o ódio étnico, cultural ou religioso em senha de identidade à margem de todos os considerandos de ordem moral, convertendo o massacre de seres humanos numa espécie de mandamento ditado pelo sectarismo mais irracional.

É preciso correr o sangue de inocentes para também a França republicana, ilustrada e laica reparar que alberga a semente do Mal no seu seio iluminista. Não adianta proclamar, como fazem alguns saudosos discípulos de Sartre, que o inferno são os outros. Não tenhamos ilusões: a barbárie está no meio de nós. E ganha cada vez mais terreno quanto mais tentarmos justificá-la com uma indiferença cúmplice invocando argumentos de sociologia política para validar as cartilhas ideológicas que autorizam a dissolução da dignidade humana em benefício de impulsos liberticidas. Como se os fins justificassem todos os meios. Como se houvesse equivalência moral entre carrascos e vítimas.

"Observar um crime em silêncio é cometê-lo", ensinou-nos José Martí. Nada mais certo. Não podemos resignar-nos ao poder da barbárie. Nem tolerá-la. Nem "compreendê-la". Nem deixar que ela se banalize a tal ponto que comece até a ser encarada com indiferença. Enquanto mastigamos qualquer coisa à hora do telejornal.

Temos que dizer basta. Sem esperar que os cadáveres se amontoem. Porque um já é de mais.

Imagem: O Massacre dos Inocentes (1609-11), de Rubens


12 comentários

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De Fátima a 26.03.2012 às 17:48

Subscrevo, Pedro. Infelizmente o mas existe. E não há pano de fundo que o justifique - em qualquer religião (passado e presente), política, credo, filosofia, etnia. QUALQUER. E mesmo quando não há pano nenhum. Rejeitamos o mal. Sempre.
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De beirão a 26.03.2012 às 18:13

Não falta quem chame a esta França 'a rameira de pernas abertas...'.
Um miserável terrorista islâmico abate uma data de gente inocente e, para seu gáudio , filma os seus crimes: sete pessoas em Toulouse, algumas delas crianças, declarando o monstro, altivo, que o seu único remorso é o de não ter podido assassinar a sangue frio muitos mais franceses e israelitas.
E, sobre isto, que diz o primeiro-ministro francês, Fillon? "Não temos o direito, num país como o nosso, de vigiar em permanência alguém que não cometeu um delito, sem uma decisão da justiça. (...). Vivemos num Estado de Direito."
O asqueroso terrorista Merah estava referenciado pela polícia de Toulouse como sendo um perigoso terrorista, com um passado de terror no Afeganistão e no Paquistão, e que sabia da sua fuga de uma prisão afegã; acresce que estava na lista negra da Interpol e era procurado pelo FBI.
Este 'estado de direito', de que fala o 'direitista' Fillon , que medidas tomou, afinal, para proteger aquelas pessoas e aquelas crianças friamente chacinadas às mãos de um miserável terrorista?
Neste nosso Ocidente, doente, alucinado, patético e paranóico, as vítimas não têm direito a ter, também, direitos?
São os direitos propriedade exclusiva de bandidos, de criminosos, de trafulhas de toda a espécie?
E as famílias daquelas pessoas assim abatidas, à queima-roupa, para quem a vida - uma vida que valha a pena viver - acabou com a chacina dos seus entes queridos - esses pais e essas mães e avós e irmãos, não têm direitos?
Este Ocidente, de facto, entregou a alma ao diabo...
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De IMMC a 26.03.2012 às 18:35

Não tenha a menor dúvida.
Todos os dias e em quase todos os lados, nas empresas, nos hospitais, nos tribunais, nas repartições, nas diferentes instituições e às vezes até em algumas "famílias".
Choca-me sempre a normalidade com que algumas pessoas convivem pacificamente com a barbárie, como se conformam e pior como colaboram com ela.
Causam-me a maior repulsa aqueles que por medo, temor reverencial ou por agendas pessoais pré-definidas e puro calculismo se calam à destruição dos outros, "assobiando para o lado"...
E quando somos nós o alvo da barbárie, sinto sempre que pior do que os actos ou as palavras dos nossos inimigos o que dói mais é o silêncio dos nossos amigos!!
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De Daniela Major a 26.03.2012 às 20:37

Uma vez Pedro, nunca mais me esqueci, escreveu isto num post seu:

As culturas não se equivalem: essa é a tese dos relativistas morais. Há culturas superiores a outras. Uma cultura que se funda na Declaração Universal dos Direitos Humanos, como a nossa, é superior a uma cultura que espezinha esses mesmos direitos humanos. Há que dizer isto uma vez, cem vezes, mil vezes - tantas vezes quanto for preciso.

Penso que isto está muito relacionado com o que disse aqui:


"E ganha cada vez mais terreno quanto mais tentarmos justificá-la com uma indiferença cúmplice invocando argumentos de sociologia política para validar as cartilhas ideológicas que autorizam a dissolução da dignidade humana em benefício de impulsos liberticidas"

Não podemos deixar de pensar que muitas culturas europeias estão a ser invadidas por pessoas que não respeitam os direitos mais básicos. E a verdade é que nós (os Europeus, os políticos, as autoridades, a "quem de direito" essa frase terrível) não sabemos o que fazer para reagir a isto.
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De Carlos Cunha a 26.03.2012 às 20:43

é verdade, veja-se as coisas que acontecem num mundo de padres pedófilos, de escravas sexuais, de trabalhadores escravos, de militares que saem desvairados dos quartéis e matam civis a eito, de seres humanos classificados como danos colaterais, também de seres humanos que tentam desesperadamente ser como tal reconhecidos e chegar a terras prometidas mas onde não os querem receber, e sei lá que mais.
acontecesse só isso, e não os exemplos dados neste post, e não existiria "mal" na terra.
ao que parece o mal é apenas aquilo que chama de "terrorismo" e nada mais.
se não o praticamos, estamos livres do mal. amén.
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De Daniel João Santos a 26.03.2012 às 21:24

Muito bem colocado. O mal tem muitas faces e não só aquela que trás um turbante. Talvez o pior mal seja aquele quem vem de onde menos se espera... na realidade não existe um pior ou melhor mal, tudo é o mal.

Infelizmente, como muito bem colocou, dada a vulgaridade desses cadáveres nas imagens televisivas, já ninguém se choca com nada disso.

Este mundo tem cada vez mais gente e cada vez menos pessoas.
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De Patrícia Reis a 26.03.2012 às 21:40

O mundo não muda, Pedro. Beijos
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De singularis alentejanus a 26.03.2012 às 22:18

Hoje estamos a sofrer as consequências das gerações quem foram educadas pelo PREC. Naquele tempo, ai de quem chamasse quem quer que fosse á atenção, pelo facto de deitar um papel no chão, por atravessar a rua fora da passadeira, por faltar ao respeito pelo professor, pelos familiares mais velhos, etc., chovia logo um chorrilho de acusações de fascista, burguês, capitalista, reaccionário, etc., etc..
Entretanto, muita gente crescia, e cresceu, sem o mínimo de noção de disciplina e de respeito pelos outros.

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De JSP a 26.03.2012 às 22:30

O mais revoltante é a protecção e justificação objectivas com que o chamado relativismo cultural rodeia o "ovo da serrpente".
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De José da Xã a 27.03.2012 às 00:43

Infelizmente o Mal é inerente ao ser humano. E deste axioma eu não abdico. Todavia o Mal foi em tempos uma causa, sem que o pretendessem. Senão vejamos: na época da Inquisição quantas pessoas foram mortas acusadas injustamente e queimadas à frente de um povo ignorante? Quantas crimes se cometeram em nome de um Deus magnânimo?
Não estou aqui obviamente a defender os crimes cometidos em nomes de causas, longe disso. Mas a tentar perceber como o Mal para mim que sou católico se veste de uma maneira e para um muçulmano de veste de forma completamente diferente. O próprio Papa João Paulo II pediu desculpa pelos crimes cometidos pela igreja em no me de Deus.
Poém as desculpas não se pedem, evitam-se! Os muçulmanos estão a fazer na Europa as Cruzadas da Idade Média. O dilema é que a sociedade europeia assentou, no pós-guerra, em pilares muito diferentes da mentalidades muçulmana. E com pouca força para contrariar estes pensamentos radicais. É bom não esquecer que as tropas que derrotaram Kadaffi e que foram apoiadas pela Europa vão ser as mesmas que daqui a uns tempos estão a lutar contra esta mesmo velho continente em nome de um radicalismo feroz ou de um qualquer Deus insano.

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