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Não há coincidências (18)

por Ana Vidal, em 25.03.12
Trago-vos hoje um dos mais curiosos casos da história dos plágios musicais. Não só porque envolve um dos Beatles (possivelmente os mais amados ícones da música contemporânea) mas também porque se trata de uma das suas canções mais emblemáticas, My Sweet Lord. A canção faz parte do premiadíssimo All Things Must Pass, o primeiro álbum a solo de George Harrison após a inesperada e muito atribulada separação da banda. Composta ainda em 1969, com os Beatles ainda oficialmente juntos, foi oferecida por Harrison em 1970 a Billy Preston, tendo por essa razão sido este o primeiro a gravá-la. Mas a canção não deu nas vistas até ser o próprio George Harrison a gravá-la, acrescentando-lhe um solo de guitarra que ficou célebre e uma aura mística que a catapultou definitivamente para a fama. Ofuscado durante anos pelos mais mediáticos John Lennon e Paul McCartney, George Harrison lançou então grande parte do material que havia acumulado e iniciou a sua carreira solo de forma brilhante. All Things Must Pass é considerado por muitos como o melhor disco de um ex-beatle e um dos melhores discos da história da música ligeira.
My Sweet Lord (1970) - George Harrison
Mas este enorme sucesso ficaria manchado por uma contenda legal cheia de episódios controversos, que durou décadas. Pouco tempo depois do êxito surgiu nos tribunais uma acusação de plágio da canção He's So Fine, composta por Ronnie Mack para The Chiffons. As semelhanças eram inegáveis, pelo que George Harrison, que inicialmente negou a acusação, acabou por admitir a hipótese de ter "inconscientemente" a melodia de He's So Fine no ouvido quando compôs My Sweet Lord. Quanto às letras, não há qualquer proximidade: a canção dos Chiffons é uma brincadeira leve e romântica, enquanto a de Harrison tem um conteúdo sério e muito forte, e por isso se tornou rapidamente num hino à paz universal e num apelo à aproximação entre religiões. Mas a melodia, essa, é praticamente a mesma. O tribunal decidiu a favor dos queixosos em 1976, e só o solo de cordas de My Sweet Lord - ausente da canção original - permitiu a Harrison conservar um terço dos créditos (e das receitas) de My Sweet Lord. As discussões sobre os pagamentos pelos danos causados levaram o caso a arrastar-se nos tribunais até aos anos 90. A defesa de Harrison usou como arma de arremesso um outro suposto plágio, alegando que He's So Fine era, por sua vez, uma reinterpretação do antigo e muito conhecido gospel Oh, Happy Day. Mas não teve sorte, e (embora haja de facto, na minha opinião, alguns pontos em comum entre as duas melodias) o tribunal não lhe deu razão. O processo trouxe também à luz da ribalta os desentendimentos entre os Beatles, tendo ficado para a história o depoimento de John Lennon, negando a não intencionalidade de George Harrison no plágio e afirmando que ele "sabia muito bem o que estava a fazer".

He's so fine (1963) - The Chiffons

 

A história não ficaria por aqui. Aproveitando ao máximo a onda de fama que My Sweet Lord e a guerra legal tinham gerado, os Chiffons decidiram gravar a sua própria versão da canção e conheceram, assim, um grau de notoriedade que nunca tinham atingido com a canção anterior. E, num curioso volte face desta autêntica novela, mais tarde foi George Harrison quem fechou o círculo, gravando He's So Fine após ter comprado finalmente os direitos de ambas as canções. Quanto a My Sweet Lord, ganhou novo título quando o álbum foi remasterizado em CD: a nova versão passou a chamar-se "My Sweet Lord 2000".

 

My sweet Lord - The Chiffons
Houve ainda outros episódios dignos de registo nesta autêntica novela: a traição ética de Allen Klein, ex-empresário dos Beatles, o qual - com a intenção óbvia de capitalizar os pagamentos dos danos que Harrison eventualmente teria que assumir - comprou, enquanto decorria o processo legal, a editora Bright Tune, dona dos direitos autorais de He's so Fine, trocando assim de barricada e entrando na justiça contra Harrison. Mas acabou por perder esse processo, tendo o tribunal considerado que tinha havido conspiração e abuso por parte do empresário.

 

Nota: Para quem estiver interessado em saber todos os pormenores deste curioso caso, pode ler a história toda aqui.


6 comentários

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De Luis Eme a 26.03.2012 às 12:50

esta história passou-me completamente ao lado.

o curioso é que sempre achei o George Harrison, o elemento mais sério e solidário da banda.
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De Ana Vidal a 27.03.2012 às 19:13

Também eu, Luís. É o meu Beatle preferido. Mas no melhor pano cai a nódoa, como se vê.
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De Gi a 26.03.2012 às 14:42

Esta é tão evidente que até dói. Não imaginava que o George Harrison precisasse de copiar.
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De Ana Vidal a 27.03.2012 às 19:16

Não precisava, Gi. Mas tenho ficado espantada com a quantidade de gente talentosa que não precisa de copiar e o faz, como se fosse medíocre. Neste caso eu não acredito que o plágio fosse inconsciente... não num músico informado como ele era.
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De Paulo a 26.03.2012 às 17:50

Desta história também não sabia, mas o plágio é tão evidente que não adiantava a George Harrison inventar desculpas.
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De Ana Vidal a 27.03.2012 às 19:18

Claro, Paulo. Qualquer desculpa só agrava a situação, acho eu. Mais vale assumir que se cedeu à tentação, até porque ele melhorou imenso a canção original.

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