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Delito de Opinião

Retratos(2):Isabel e a companhia dos monstros

Ivone Mendes da Silva, 23.03.12

Isabella di Cosimo de' Médici, Bronzino. Galleria degli Uffizi

 

Hesitei enquanto escolhia um  retrato de Isabel de Cosme dos Médicis para encimar o post até me decidir por este de Bronzino. Eu tenho, como já se viu, uma predilecção pelos retratos em que ele pintou as Médicis. Gosto daquela oficial imobilidade, daquela pose para o pintor. São retratos que, sempre que os olho, me fazem pensar no tempo. No tempo delas e no tempo por detrás delas, a tapeçaria que não se vê mas que está lá, bordada de enredos, segredos e  tragédias.

O retrato mais conhecido de Isabel não é este, mas um dos pintados por Alessandro Allori, discípulo na oficina de Bronzino e sobrinho do mestre. Há um outro em que ela surge de veludo escuro, recamada de longas fiadas de pérolas e de coral, com os cabelos presos por uma rede, fazendo lembrar a pose majestosa da mãe. Os especialistas tendem dividir-se sobre a autoria dos quadros. Na altura em que Isabel foi retratada, Allori tornara-se já um artista reputado na oficina do tio, partilham um traço muito semelhante, embora o mais novo pareça preferir cores mais claras.

Isabel é a terceira filha de Cosme e de Eleonora e tem toda a Florença para a educar. É, sem dúvida, das filhas do casal a que melhor recebe a herança das artes e das letras que, por todo o lado,  a rodeavam. Fluente, além das línguas vivas, no latim e no grego, escrevia bem, falava melhor. O pai, que ao casar-se com Eleonora se ligara à nobreza da Europa,  continua, ao contratar os casamentos dos filhos, a estreitar laços com as antigas famílias italianas, ao sangue antigo que vinha dos patrícios da Urbe, os que se tinham sentado no Senado e determinado que Cartago devia ser destruída.

Isabel nasceu em 1542 e, prometida desde os 11 anos, casa em 58 com Paulo Jordano dos Orsini. Uma linhagem de luxo, duas avós filhas de Papas, uma della Rovere e uma Sforza, o ducado de Braciano e pouco dinheiro. E uma rudeza conhecida: os Orsini eram uma gens fabulosa, mas de uma  obscura e inapelável crueldade que muitas vezes vinha ao de cima. Paulo Jordano era um condottiero, homem de guerra e de batalhas, há-de estar na de Lepanto, sem grande apreço pelos artistas ou pelas discussões neo-platónicas.

Uma cláusula extraordinária no contrato de casamento permitia que Isabel permanecesse em Florença enquanto o marido continuava em Roma ou onde muito bem lhe apetecia. Só o dinheiro de Cosme poderia ter imposto tal condição. Isabel fica, assim, durante muitos anos debaixo da asa florentina, ao abrigo das obrigações conjugais. Enfim, obrigações que lá terá cumprido ocasionalmente porque, depois de alguns abortos, em 71 nasce Eleonora, a pequena Nora, que casará com o primo Alexandre Sforza, e em 72 nasce Virgínio, o futuro duque de Braciano.

Isabel era feliz em Florença no seu mundo de artistas. Olha-se para ela ano quadro de Bronzino e parece-nos contida e firme na sua gola de seda com um pequeno toucado sobre a testa. A jóia aposta sobre ele não é a ferronière tão em moda naquele tempo, mas um broche de pérolas, longitudinal,  como se fosse um segmento de um diadema. A riqueza dos Médicis, muito evidente nos pormenores destes quadros, é sempre de um gosto sem defeito. 

Olhamo-la na sua bela quietude e esquecemo-nos de que Isabel viveu rodeada de monstros e de mortos. Porque era assim que se vivia, a aprender as declinações latinas e a esquivar-se ao punhal ou à taça de veneno. E a saber usá-los, também, no intervalo de duas danças.

Quando Eleonora morre, em 1562, Isabel tem vinte anos. Está naquele confortável estado de casada há quatro, não tem filhos ainda, e o pai passa-lhe o legado de Eleonora: ser a primeira-dama de Florença. Aquela rapariga muito educada, determinada, senhora do seu nariz, é a menina dos olhos dos florentinos. Gritavam-lhe como gritavam aos homens da família, quando ela saía do palazzo e  passeava pelas ruas, como tanto gostava de fazer antes de reencontrar o pai no studiolo e com ele discutir a assinatura dos contratos e dos pactos a firmar. Ocasionalmente, saía da cidade para se encontrar com Paulo Jordano em Roma ou no castelo de Odescalchi, nas margens do lago Braciano. Estadas curtas, Florença chamava-a sempre.

A morte do pai, em 74, empurra Isabel para a sombra. Francisco, o irmão mais velho que vai ocupar os destinos da signoria, inveja a estima que lhe têm, inveja a sua inteligência.

Francisco casara em 65 com Joana da Áustria, permanentemente infeliz com saudades do palácio paterno sem nunca se habituar às cores de Florença, e mantém o relacionamento de muitos anos com Branca Capello. Isabel dedica uma estima compreensiva a Joana e nunca hostiliza Branca. As suas discussões com o irmão têm um fundamento político: enquanto Cosme tudo fizera pela independência de Florença, agora a subserviência de Francisco em relação ao sogro, o imperador Fernando I, fá-lo exagerar nos impostos dos florentinos em proveito dos cofres do Sacro-Império.

Entretanto, Paulo Jordano decide que Isabel deverá ter junto dela uma espécie de embaixador de marido e nomeia para o cargo um dos primos, Troilo dos Orsini. Bem, a tradição diz que entre os dois se desenvolveu um romance. Isabel estava habituada a ser livre e a não ter dar satisfações a quem quer que fosse. A companhia de Troilo agradava-lhe, fosse um one nigth stand com direito a repetição, fosse apenas o prazer de longas conversas. Acostumada a ser a senhora de Florença, Isabel descurara a sua segurança e nunca aprendera a recear os comentários alheios. A amante do marido, Vitória Accoramboni, e o próprio Francisco devem ter tido um papel fundamental no desenlace desses amores. Paulo Jordano pede a Isabel que vá passar algum tempo com ele na villa de Cerreto Guidi, nos arredores de Florença.

Na noite em que ela chega, 16 de Julho de 1576,  estrangula-a no quarto conjugal.

O irmão não reage. Aliás, seis dias antes, o irmão mais novo, Pedro, tinha matado, também por ciúmes, a prima com quem casara, a tão bonita Eleonora de Garcia dos Médicis.

Por detrás das donne della signoria nos quadros Bronzino, há uma tapeçaria que não se vê, mas que está lá. Juro. Agitam-se na trama os monstros de sempre, os ódios, os medos, os segredos, os olhos escuros de solidões desmesuradas, a frias ambições astuciosas. O mundo.

O fantasma de Isabel passeia às vezes no castelo de Odescalchi, junto a Braciano, mas onde ela mais gosta de andar é na uilla de Cerreto Guidi. Em 1953, uma companhia de teatro que lá preparava um espectáculo viu-a nitidamente. Duas actrizes ouviram um ruído de tecido a arrastar e, virando-se para trás, viram Isabel. Todos viram Isabel a passar ao longo da sala. Vestia de veludo escuro e tinha pérolas presas nos cabelos. Ignorou-os.

 

(mini-série republicada com supressões e alterações)

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