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Línguas

por José Navarro de Andrade, em 13.03.12


Ao contrário da vasta maioria dos países, os Estado Unidos não têm uma língua oficial; a adopção do inglês é apenas de facto. Só em 28 estados o inglês é designado como língua oficial, sendo o Hawai o caso único em que existem duas línguas de estado: o inglês e o havaiano. No Novo México e no Louisiana há leis que estimulam o bilinguismo nos documentos oficiais: inglês/espanhol no primeiro, inglês/francês no segundo.

Uma das possíveis razões para este vazio legislativo prender-se-á com a enorme discussão acerca do tema, logo nos primeiros anos após a independência. A aversão a tudo que era britânico grassava vivaz e há pelo menos o episódio de em 1794 as vastas comunidades germânicas da Virginia terem entregue uma petição no Congresso para que as leis passassem a ser publicadas em alemão. A proposta morreu num comité. Outro exemplo, este quase caricato, dessa aversão, foi a proposta de um tal Thorton, que concebeu uma nova grafia para o inglês falado nos EUA, como forma de o distinguir. Além de “e”s invertidos e “i”s com a pinta em baixo, ele afirmava que assim “Di Amerike languids uil des bi az distint az de gevernment, fri from aul foliz or enfilosofikel fasen.”

Mas a história mais famosa é dada à luz em 1814 num artigo de William Gifford no Quartely Review, segundo a qual Charles Astor Bristed propôs ao Congresso que adoptasse o grego clássico como língua oficial. Não era ideia implausível, dada a forte inspiração da república ateniense, frutificada pelas filosofias iluministas e maçónicas, na arquitetura constitucional americana. Após discussão, o documento foi rejeitada apenas por um voto de diferença.

Para muitos esta história é apócrifa e inventada por Gifford, embora tenha sido reiterada pela Cambridge History of American Literature. Para outros comprova que a língua, a sua adopção e a sua grafia, não decorrem de uma inevitabilidade natural, mas de uma decisão institucional.


17 comentários

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De Vasco a 13.03.2012 às 14:47

Esse episódio do Grego é apócrifo - tanto mais que a inspiração constitucional Americana foi a república romana e não Atenas. Sendo uma sátira, quer indicar que as línguas não devem derivar de decisões institucionais - precisamente o oposto do que o post conclui.
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De José Navarro de Andrade a 13.03.2012 às 19:31

1) Não se sabe se é ou não apócrifo.
2) Romana & grega - φίλος & ἀδελφός
3) Não tem registo satírico
4) Pode indicar ou não - discute-se.
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De Vasco a 13.03.2012 às 20:13

Então se não se sabe, para quê usá-la como argumento de que as línguas não decorrem de uma inevitabilidade natural, mas de uma decisão institucional? (Como se, aliás, o Português não viesse de uma fusão do baixo-latim visigótico e das línguas celtas peninsulares que, como se sabe, foram todas legisladas tim-tim por tim-tim.)
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De José Navarro de Andrade a 13.03.2012 às 22:53

1) A adopção de uma língua nacional costuma ser institucional - artigo 11º da Constituição Portuguesa. A formação da língua é que não.
2) Nos EUA não houve adopção institucional a nível federal.
3) É este o tema do post.
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De Vasco a 13.03.2012 às 23:04

Não reconheço poder a uma Constituição para definir o que uma Língua deve ser. Qualquer que seja o texto de uma Constituição, terá sempre um valor inferior ao da evolução de um povo e da sua Língua. Qualquer Constituição que não reconhça as suas limitações é uma Constituição errada. É isto que o fascismo da esquerda não entende: o seu fascismo cerebral.
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De José Navarro de Andrade a 13.03.2012 às 23:50

Não reconhece? Então ficamos assim.
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De Vasco a 14.03.2012 às 02:58

Acha bem uma Constituição definir a forma como um povo se deve expressar, consciente de que influencia a História? Porque não assumir um papel mais modesto e deixar as pessoas e a sua Língua serem livres e evoluírem naturalmente? Para quê a arrogância de escrever no tronco da árvore: eu estive aqui? Que medo subjaz a esta mania de controlar tudo?
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De Vasco a 14.03.2012 às 03:30

O propósito de um texto constitucional é estabelecer condições de liberdade ao povo que pretende representar. Se uma qualquer constituição aprisiona um povo nas suas peripécias semânticas, então não servirá e deve ser abolida por todos os meios disponíveis.
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De GHY a 14.03.2012 às 13:02

Uma constituição pode consagrar o racismo ou a tortura? O racismo pode ser constitucional?
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De José Navarro de Andrade a 14.03.2012 às 13:43

Despropositada a comparação. Mas pode, como já aconteceu na África do Sul e na Alemanha Nazi. Só faltava agora que achasse que eu concordo com o racismo e com o nazismo...
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De Vasco a 13.03.2012 às 23:24

Mas que diabo quer isto dizer, senão paranóia legislativa?

"A adopção de uma língua nacional costuma ser institucional"

Os Japoneses estavam todos a falar Japonês, e um belo dia sentaram-se e acharam que deveriam falar Japonês e legislaram: temos de falar Japonês.

Mas esta m* faz algum sentido?
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De José Navarro de Andrade a 13.03.2012 às 23:49

Faz. Em vez do Japão o exemplo poderia ser o de qualquer país onde convivem várias línguas "naturais", ou seja, mais de 80% dos países do mundo.
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De Vasco a 14.03.2012 às 03:07

Isso é outra conversa (fascista, por sinal). Espanha teve de proibir a Língua dos Bascos por causa disso, para impingir a sua. Só reconsiderou à força, o que é sempre bonito e civilizado. Mas a questão nem é essa, no nosso caso: à excepção do futebol e dos jornalistas da TV, quantas línguas naturais e diferentes se falam em Portugal?
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De frg a 14.03.2012 às 04:29

Le créole brésilien remplace officiellement le portugais au Portugal
http://www.temoignages.re/le-creole-bresilien-remplace-officiellement-le-portugais-au-portugal,55127.html

Os franceses sabem ser demolidores.
Corei de vergonha - literalmente - quando li isto.
É preciso descer muito baixo no que diz respeito a corrupção política e a falta de brio, para produzir uma notícia destas.
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De Vasco a 14.03.2012 às 04:46

Registo de bom grado a vontade de discutir o assunto, embora me pareça que provém do mesmo registo que levou ao frenesi legislativo: ser fixe e cenas assim. Tudo pela Língua, nada contra a Língua.
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De ghy a 14.03.2012 às 04:57

Há 200 anos confundiam ortografia com transcrição fonética (as grafias apenas foram fonéticas nos primeiros estadios das línguas, tendo evoluído para grafias etimológica). De facto, nos países cultos há muito que tais concepções, que prendiam a ortografia à fonética, desapareceram (a grande língua franca mundial, o inglês, não reflecte qualquer alteração fonética posterior aos finais do séc. XV).
Infelizmente, as curiosidades de almanaque, são em Portugal, a história oficial.
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De José Navarro de Andrade a 14.03.2012 às 11:04

Parcialmente de acordo. Nalgum slang do inglês da América, por influência do sotaque negro, pode-se escrever sem escâncalo, por exemlo "the gal is cryin'", ou "singin' the blues". Mas a questão central é que a adopção de uma língua pro uma nação é sobretudo um acto institucional e às vezes bem conflituoso como no civilizadíssimo Canadá ou na serena Bélgica.

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