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Cadáver esquisito (3)

por Ana Vidal, em 05.03.12

1. UM LIVRO, 2. CA...... SARKIS G........N

3 

OLHOS

 

Ca...... Sarkis G........n. Que coisa estranha, pensou José Augusto quando João Cosme lhe espetou o livro em frente do nariz, com ar pomposo e sem mais explicações.

- Diga-me lá que nome pode ser este, professor. Se não formos nós os dois, duvido muito que alguém decifre o mistério, aqui neste fim de mundo.

Olhou a velha capa escalavrada, a assinatura semi-ilegível e depois a expressão intrigada do seu interlocutor, que mantinha a pose de cumplicidade intelectual sem se dar conta de que era tão ignorante como todos os que desprezava. O nome parecia-lhe óbvio: Calouste Sarkis Gulbenkian, o arménio-maravilha que em época de tormenta europeia se encantara com a placidez de Portugal, a ponto de eleger o país como seu herdeiro universal. O "senhor cinco por cento", ele mesmo, em assinatura manuscrita. O enigma não estava no nome, mas na presença do livro naquela casa. O professor sabia, por dolorosa experiência própria, que aquele bando de iletrados jamais se interessara por literatura. Mas não podia dizer isso ao seu anfitrião, por isso se limitou a olhá-lo e a dizer, maquinalmente:

- Este livro pertenceu a Calouste Gulbenkian e está assinado por ele. Hum... 1942, confere. Não há mistério nenhum. E agora tenho de ir, se me dá licença. Os meus alunos esperam-me.

Com a pressa não viu, ao sair, a expressão profundamente alterada do outro.

 

Vivelinda abafou uma gargalhada trocista ao lembrar-se da exigência do "patrãozinho João", como lhe chamava às vezes só para o provocar. Afinal tinha-o quase visto nascer, conhecia-o por dentro e por fora. Depois do horrível incêndio d'Os Freixos, fora com ele para a casa dos padrinhos naquela malfadada noite. Ela sabia todos os segredos da família, e não eram poucos. Nem leves. João não sabia, por exemplo, até que ponto ela conhecia bem a cama em que ele dormia agora, muito antes de ele se ter deitado nela pela primeira vez. Mas não se importava com a sua actual situação. Era assim mesmo que tinha de ser. Vivelinda, a analfabeta, nascera no exacto momento em que as chamas tinham devorado Valeriya Sarkis Kaprelian, a célebre pintora exilada. Agora era D. Linda, criada para todo o serviço. Todo mesmo, pensou, com um sorriso irónico. Üsküdar era pouco mais do que uma longínqua memória de tempos dourados.

 

Eduardo escondeu as mãos nos bolsos, envergonhado e inquieto, ao aperceber-se de que tinha ainda terra preta debaixo das unhas. A terra d'Os Freixos, maldita e hipnótica, que lhe consumia as noites de vigília em cada "expedição" com João Cosme. A peregrinação era certa sempre que se acendia o sinal nas ruínas da torre, mas o que iam lá fazer nenhum dos dois sabia ao certo. Escavavam, simplesmente, guiados por aquela voz que os assustava, em busca de um passado glorioso e trágico que teimava em esconder-se deles. De vez em quando eram recompensados com um ou outro objecto, que geralmente lhes trazia mais perguntas do que respostas. Não tinha sido o caso da véspera, tinham voltado uma vez mais de mãos a abanar. Quem sabia, calava. A madrinha de João, por exemplo. Uma velha enigmática, tão estranha como as roupas que vestia. E D. Linda, a empregada com porte de rainha... ah, essa sabia muito mais do que dizia, tinha a certeza! Tudo naquela casa era uma teia de mentiras, mas ele viciara-se no jogo e agora era já tarde para escapar. O seu próprio passado o empurrara um dia para ali, onde o esperava a busca desesperada por um passado alheio. Ou era o seu, afinal? Já não sabia nada, a não ser que os seus olhos mudavam de cor quando a noite caía, e que só naquela terra perdida no mapa encontraria a explicação desse fenómeno. Também João Cosme já fora cego e a partir daquela estranha noite passara a ver. Decididamente, alguma coisa os unia. E havia ainda Stella, a bela Stella. A bifa, como era conhecida na aldeia.

 

(Este é o terceiro capítulo do nosso 'cadáver esquisito', explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a do António Manuel Venda.)


13 comentários

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De Adolfo Mesquita Nunes a 05.03.2012 às 00:24

Cego, enfim!
Obrigado Ana :)
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De Ana Vidal a 05.03.2012 às 01:46

Mas curado, Adolfo! O que não significa, claro, que não posso ter uma recaída...

(isto ainda acaba num ensaio sobre a cegueira :-)
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De Ivone Mendes da Silva a 05.03.2012 às 13:33

Eu sabia que a Vivelinda nos traria problemas. Ana, pelos vistos temos uma inevitável vocação para romance russo.
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De Ana Vidal a 05.03.2012 às 18:40

Tens razão, Ivone. Nada a fazer, isto vai ser um ror de Natachas e Ivans a saltarem de todos os cantos. A culpa é da Cláudia, com aquela charada do nome...
Sempre quero ver o que vocês fazem com os meus meninos. ;-)
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De Patrícia Reis a 05.03.2012 às 13:54

Muito bom, muito bom mesmo! Beijos
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De Ana Vidal a 05.03.2012 às 18:43

Daqui até chegar a ti ainda muita coisa vai ser desenterrada, Patrícia. O quê, não faço ideia nenhuma. Mas isso é que tem graça. Beijos :-)
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De João Carvalho a 05.03.2012 às 19:45

A narrativa vai em grande. Como é que descobriste a charada Ca...... Sarkis G........n?
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De Ana Vidal a 05.03.2012 às 19:49

Sei lá, muitos anos de scrabble... :-)

(eu sabia o nome completo dele, e encaixava)
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De João Carvalho a 05.03.2012 às 19:59

Hum... Palpita-me que já leste a história toda...
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De Ana Vidal a 05.03.2012 às 20:21

Sou bruxa... :-)
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De Ana Cláudia Vicente a 06.03.2012 às 21:04

Grande Ana!

[Com uma vénia a esse grande bibliófilo arménio, súbdito de Sua Majestade e benfeitor desta nossa terra, lá onde estiver]
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De Ana Vidal a 06.03.2012 às 22:27

Era ele, não era? :-)
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De Ana Cláudia Vicente a 07.03.2012 às 00:18

Era, pois! E o enredo cada vez mais denso, como se quer...

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