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Os Meus Carros (1)

por João Carvalho, em 02.03.12

O Austin 8 é capaz de ter sido o primeiro carro a fazer parte da minha vida. Pelo menos, parece-me ser assim que o localizo nas minhas memórias. Era do meu avô materno e nunca me esqueci da matrícula: TO-11-54.

O meu avô Manuel era médico militar e tinha, por isso, acesso facilitado à gasolina racionada na altura, em resultado da II Guerra Mundial. O carro, de 1948, mandara-o ele vir de Inglaterra, pelo que tinha volante do lado direito, o que não fazia qualquer diferença nessa época. Era azul muito escuro com os guarda-lamas salientes em preto e o couro interior castanho.

O Austin era mais velho do que eu, mas o certo é que pouco precisei de crescer nos meus calções para dar início ao culto que ele merecia: comecei cedo a deixar-me arrebatar por automóveis. A este, familiarmente, costumávamos chamar-lhe "Cartolinhas".

A mala do Eight andava sempre cheia de ferramenta, corda, arame, trapos e tudo o mais que se quisesse. Quando o carro avariava em viagem, o meu avô barafustava com toda a gente e ninguém piava com medo de piorar a situação, mas a verdade é que ele ficava encantado por poder desenrascar o problema — coisa que adorava fazer com má cara, mas no que era quase sempre bem sucedido, para não dizer sempre — e, no fim, com as mãos e o fato sujos, sentia-se feliz por ter dominado a máquina.

Problema maior era quando o carro não pegava a trabalhar em frio. A pesada manivela em ferro tinha de entrar em acção, mas o sacão que dava podia ser perigoso ao ponto de partir um braço ou a mão pela força do motor a rodar.

 

 

Na década de 50, depois da morte repentina do avô Manuel e por acordo familiar, o meu pai ficou com o carro, que foi impecavelmente pintado e o motor rectificado. Durante umas semanas, um dístico no óculo traseiro explicava aos condutores que seguissem atrás a razão da marcha mais lenta do que seria de esperar: Em Rodagem.

Lembro-me de andar numa escola pública do Porto e de, em dias de muito mau tempo, o meu pai me levar no carro para as aulas.

Creio que nos despedimos do "Cartolinhas" aí pelo início dos anos 60, levado por um particular que até do volante à direita gostava, vá lá saber-se por que razão. Lá em casa, o lugar do velho british nascido em Birmingham era rapidamente ocupado por um italiano de Turim, que logo substituiu aquele resistente herói sobrevivente da Guerra. Mas o veterano ainda hoje suscita um suspiro.

 


22 comentários

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De Bartolomeu a 02.03.2012 às 11:26

Pois lá em casa, ainda parqueia (mas sempre pronto para as curvas) o já velhote mas ainda assim mais jovem que o Austin; Mercedes 190 SL de 56, o 2º a chegar ao nosso país. Também este passou de pai para filho, a fazer-lhe companhia, uma Fiat 131 Mirafiori e mais um par de modelos recentes.
Tanto o Mercedes como a Fiat estão em puro estado de novo, mercê das atempadas reparações e pinturas.
Feitas bem as contas, a soma das facturas já deve ser equivalente ao preço de um desportivo topo-de-gama actual.
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De João Carvalho a 02.03.2012 às 11:47

Belos exemplares de clássicos, meu caro. O 190 SL é um dos carros que eu não desdenharia, apesar da direcção muito pesada (só passou a ser assistida a partir dos modelos "Pagode" que lhe sucederam).
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De João Pedro a 02.03.2012 às 12:57

Terna história e belíssimo carro. O meu avô materno tinha preferência pelo FordV8, antes de nos anos 50 enveredar definitivamente por italianos de Turim. Não conheci nem o meu avô, morto antes do meu nascimento, nem os carros, mas tenho uma miniatura do V8 no meu quarto que a minha avó afirmava ser igual ao original, até na cor.
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De João Carvalho a 02.03.2012 às 13:17

Belos carrões, esses V8, meu caro.
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De José da Xã a 02.03.2012 às 14:00

Caro João,

Adorei ler sobre o seu carro.
Eu que sou um amante de tudo o que é velho fiquei, como deve calcular, encantando.
A minha área de gostos recai actualmente pelos velhos rádios, aqueles a válvulas que demoram uma eternidade a ligar.
Fico todavia à espera de ver novos carros.

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De João Carvalho a 02.03.2012 às 17:07

Partilho o seu gosto, José. E é claro que virão mais carros.
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De fernando antolin a 02.03.2012 às 17:07

O 1º lá em casa foi um Fiat 500 Topolino, comprado pelo meu Pai antes de se casar, sacrificada que foi a Matchless 350, que havia chegado de Inglaterra no caixote e foi montada pelo meu Pai e o seu grande amigo, o Engº Zé Canelas, o que significou que a moto, lá pelos idos dos 40, " assoprava " diabolicamente " ...depois veio um VW de óculo traseiro dividido e um segundo ( o meu primeiro BB-21-39 ) já de óculo traseiro inteiro,mas pequeno. Depois a espectacular Opel 1700 caravan (EI-56-84)que quase arrancava em 4ª e a fazer cavalinhos...depois um Fiat 124S.(IC-27-51) Em simultâneo e após este, um Fiat panda e e um Mini. Terminou com um Fiat Punto ELX 75. Ainda ali está. Conduzo-o, intercalado com o meu Fiat punto. Mas o meu Pai, lá de "cima", ri-se e " diz " ...0 que tu querias era a Matchless... e eu lá me conformo e penso que quem sabe, algum( longínquo...) dia ainda acelero nela, do 6º para o 7º céu ...
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De João Carvalho a 02.03.2012 às 17:51

Que bela história, Fernando. Duas notas: o VW de óculo traseiro pequeno tem o nome de "oval"; o Opel 1700 não arrancaria em 4.ª porque me parece que ainda só tinha caixa de três velocidades.
Um abraço, meu caro.
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De fernando antolin a 02.03.2012 às 23:17

Caixa de 4 velocidades,com a manete na coluna do volante, o clássico H com a marcha atrás ao lado da 1ª. Foi nela que aprendi a guiar...
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De João Carvalho a 03.03.2012 às 11:03

Certo. Era um 1700 mais actual do que eu pensava.
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De Ana Vidal a 02.03.2012 às 19:17

Era o tempo dos carros personalizados, hoje são todos iguais. Ou quase todos, enfim, para não ofender os fiéis da religião do automobilismo.
Gostei de ler a história, e o carro era bem bonito. :-)
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De João Carvalho a 02.03.2012 às 20:29

Tens razão: hoje são quase todos iguais e costumo queixar-me disso mesmo.
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De Laura Ramos a 03.03.2012 às 00:05

Ora que bom ouvir-te através do teu 1º carro :):) Que bela história, tão cheia de ressonâncias interiores. Gostei muito! E o carro, a propósito, é lindo: a "proa" do cartolinhas - a grelha fronteira- infunde respeito e transpira classe. Acabo de reparar que estão a voltar à moda, adaptadas. Não é?
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De João Carvalho a 03.03.2012 às 11:06

Estão a tentar voltar, sim, mas (como já disse a nossa Ana Vidal mais acima) os carros estão todos tão parecidos que a tentativa de regresso palpita-me que está condenada ao fracasso.
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De c. a 03.03.2012 às 00:49

"e ninguém piava com medo de piorar a situação" eeheeheh.
Quando era pequeno ainda andei num Ford v8, "conversível", que vinha dos anos 40 e era o carro da minha mãe, que já só era usado na praia.
Ainda me lembro da lona (?) cinzento claro da capota. O cheiro da lona, e do carro quente do sol do meio-dia faz parte das minhas lembranças mais antigas e mais felizes. Não faço a menor ideia onde esteja, mas creio que não chegou a ser vendido.
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De João Carvalho a 03.03.2012 às 11:08

Entendo perfeitamente. E espero que consiga localizar esse carrão, se não foi vendido.
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De Pedro Correia a 03.03.2012 às 21:24

Excelente série que agora começa, compadre. Espero que prossiga por muitos fins de semana.
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De João Carvalho a 03.03.2012 às 22:44

Acho que sim, compadre.
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De Bic Laranja a 03.03.2012 às 22:33

Gostei de ler. Gosto de novidades antigas. Melhor se vierem com alma.
Cumpts.
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De João Carvalho a 03.03.2012 às 22:45

Obrigado. Vai haver mais novidades antigas!
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De d.a.i. a 04.03.2012 às 20:26

Que lindo é o carro do meu bisavô!
Maria João

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