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Pontos nos is (12)

por João Carvalho, em 29.02.12

DESACORDO

I

O secretário de Estado da Cultura disse ontem que o Governo se prepara para alterar o chamado Acordo Ortográfico (AO) até 2015 e que cada português é livre para escrever como entender.

Ontem à noite, na TVI-24, Francisco José Viegas manifestou o seu desacordo face a algumas normas do AO e lembrou que, «do ponto de vista teórico, a ortografia é uma coisa artificial» que pode ser mudada: «Até 2015, podemos corrigi-la, temos essa possibilidade e vamos usá-la. Nós temos de aperfeiçoar o que há para aperfeiçoar. Temos três anos para o fazer.»

Sobre a polémica em torno da decisão de Vasco Graça Moura, que chegou ao Centro Cultural de Belém (CCB) e cancelou a aplicação do AO que foi encontrar já em vigor, o secretário de Estado da Cultura fez notar que o actual presidente do CCB «é uma das pessoas que mais reflectiu e se empenhou no combate contra» o AO. Mais: notou também que foram aqueles que «não têm qualquer intimidade, nem com a escrita, nem com a ortografia», que correram a «criticar e pedir sanções» perante a "ousadia" de Vasco Graça Moura. «Para mim, é um não-problema. Os materiais impressos e oficiais do CCB obedecem a uma norma geral que vigora desde 1 de Janeiro em todos os organismos sob tutela do Estado. O Vasco Graça Moura, um dos grandes autores da  nossa língua, escreve como lhe apetecer.»

Francisco José Viegas contou ainda que, «às vezes, quando escrevo como escritor, tenho dúvidas e vou  fazer uso dessa possibilidade, como todos os portugueses podem fazer uso dessa  possibilidade, isto é, da competência que têm para escolher a sua ortografia». E acrescentou: «Não  há uma polícia da língua. Há um acordo que não implica sanções graves para  nenhum de nós.»

II

De uma coisa tão simples e que tão escusamente tem feito correr tanta tinta, três conclusões imediatas se tiram.

Uma delas é a de que, se a teimosia bacoca de ex-responsáveis não tivesse impedido a falta de visão que levou a que políticos se substituíssem aos linguistas, não se teria perdido o tempo que se perdeu. Curiosamente, nunca como no passado recente de tais ex-responsáveis se falou tão mal português na vida pública.

Outra conclusão possível pode tirar-se do inexplicável paradoxo da notícia que serviu de base a este post (cujo link está no início), na qual se percebe o ridículo da divulgação desta posição acertada de Francisco José Viegas num texto noticioso escrito (repare-se) segundo o AO. Fica a lição para os apressadinhos-da-silva, aqueles que não aprenderam a reflectir e que, habitualmente, "não têm qualquer intimidade, nem com a escrita, nem com a ortografia", porque ridídulo mais ridículo não há.

A terceira conclusão é a que arrasa definitivamente os arautos da desgraça, que tanto espernearam por causa do cancelamento do Ministério da Cultura. Fica mais do que provado que um governo aberto à Cultura e ao que nos caracteriza como povo com História não se mede por ter no topo um ministro ou um secretário de Estado na pasta: parece-me bastante saber que Francisco José Viegas é um homem de Cultura (como já aqui referi).

Finalmente, a talhe de foice, o papel do DELITO DE OPINIÃO enche-nos de satisfação e continuará a contribuir para travar o famigerado AO. Por modesta que possa ser a nossa contribuição, este vosso blogue manter-se-á na senda do bom português e na luta contra o indesejável desacordo (no que, por sinal, temos contado com grande parte dos nossos comentadores). Sem embargo de qualquer dos autores do DO ser livre de fazer o uso da língua que mais lhe aprouver, o facto é que nesta casa se verifica que o DELITO representa um acordo e que o AO é que é um delito.


18 comentários

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De Gonçalo Correia a 29.02.2012 às 12:14

O Acordo Ortográfico (adiante designado por: aberração) nasceu, política e juridicamente, de forma defeituosa. Agora, pretendem impor essa aberração a todo o custo, de forma defeituosa, claro. Desrespeitando as normas jurídicas, pasme-se! Os governos angolano e moçambicano já se desmarcaram, e bem, das trapalhadas luso-brasileiras durante a condução dos trabalhos relativos à aberração em curso. Mais, “sem norma técnica com valor jurídico que as defina, as regras gerais do AO [aberração] não vigoram”, defende, e bem, Paulo Jorge Assunção (docente e investigador), num artigo publicado no jornal “Público”, no passado domingo. Ora, como ainda vivemos numa espécie de “Estado de direito democrático” (artigo 2.º da Constituição da República Portuguesa), a aberração não está em vigor, nem poderá entrar em vigor. Dura lex, sed lex.

Moral da história:

O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita.
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De João Carvalho a 29.02.2012 às 14:12

De preferência, nunca. Porque tarde já é o resto em Portugal.
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De Laura Ramos a 29.02.2012 às 13:21

Disse coisas bem interessantes, sim senhor. Como, por exemplo, que "o acordo está em discussão há 20 anos mas que em Portugal, como sempre, só acordamos na última"...
O "caso", tão bem caricaturado, lembra-me o doente que nunca vai ao médico e depois se revolta com ele pelo diagnóstico :)
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De VSC a 29.02.2012 às 13:36

O acordo está em discussão? Para quem não confunde discussão de uma questão maior com o "prós e contras" do regime, cabe perguntar: qual foi o debate nas UNIVERSIDADES e na ACADEMIA sobre o acordo?
Conhece?
O que foi produzido a nível universitário, fruto desse alardeado «debate»?
Onde está, que quero ler. Em 20 anos, e tratando-se do que se trata, devem ser volumes.
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De João Carvalho a 29.02.2012 às 13:54

Em discussão na CPLP. Será?
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De VSC a 29.02.2012 às 13:47

Quanto ao que diz o secretario viegas ou não leu o «acordo» ou, se leu, não percebeu
O "período de transição 2015" não é para fazer «emendas», como ele parece fazer crer.
Para quem defenda que o «acordo» está em vigor, como parece ser o caso do secretário, apenas pode defender uma renegociação total do tratado, com todas as partes envolvidas.
Que um secretario de estado, sabendo que o tema seria focado, exiba ainda assim uma tão completa e trapalhona ignorância diz muito do ponto a que chegámos neste e noutros assuntos.
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De João Carvalho a 29.02.2012 às 13:54

Pois diz. Diz que a maioria das partes envolvidas (leia-se Estados) decidiu ficar à margem do AO, como todos nós sabemos.
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De Isabel T. a 29.02.2012 às 15:40

A minha filha frequenta o 7ºano e está a ter muitas dificuldades em português,escrevia muito melhor no 4ºano do que agora. Não irei escrever nunca o novo acordo, é uma aberração.
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De João Carvalho a 29.02.2012 às 17:45

Entendo perfeitamente, Isabel.
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De P.Porto a 01.03.2012 às 21:59

Isabel, mas acha que os problemas da sua filha a LP neste ano têm alguma coisa a ver com o AO?

E acha que a sua atitude de querer ficar na ortografia antiga têm ligação direta com a sua conclusão sobre as causualidade dos problemas a LP da sua filha com o AO?

Ou é esta coisa de ler espetador como quem lê especulador que lhe faz confusão? Ou será antes pronunciar acordo diferente de acordo, ainda que seja ante-acordo e escreva sempre acordo?

Ou acha que os problemas do seu rebendo na escola têm mais a ver com hereditariedade de QI?
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De Isabel T. a 02.03.2012 às 10:21

O QI da minha filha até pode não ser muito alto,é aluna de 5 a matemática e fisico-quimica,não sei se é pouco para si,mas os pais dela souberam pelo menos dar-lhe educação suficiente para não ofender ninguém,coisa que o P. não teve.
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De Beirão a 29.02.2012 às 18:31

Força, 'Delito de Opinião'! Que nunca vos doam as mãos por pugnar, afincadamente, para que essa cobarde toleima de uns vendidos ao Brasil, não vá para diante.
Abaixo o novo AO!
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De Susana Bastos a 01.03.2012 às 15:29

Eu até simpatizo com o Francisco José Viegas. Gosto das crónicas dele, que acompanho há muito tempo. Custa-me, por isso, sobremaneira, que o mesmo continue a escrever as suas crónicas, sob pseudónimo, em bom português, mas tenha optado, enquanto ele próprio e na sua vida pública, por adoptar o acordês. É penoso. Porque é uma incongruência. Eu sei que, nas suas crónicas, ele escreve, e muito bem, como se se tratasse de um octogenário que dificilmente adoptaria o absurdo ortográfico e jamais se habituaria a escrever de acordo com as suas regras. Então porque o faz ele, o escritor? É evidente que as novas regras não fazem, também para ele, qualquer sentido. Então porque se acomoda à vontade de meia dúzia que defendem o indefensável? Porque não se manifesta abertamente contra? Parece-me inacreditável.
Mas mais inacreditável ainda, para mim, que o tinha como pessoa de bem, é constatar que mente e mente descarada e impunemente, como qualquer comum político. O que é uma pena. Quando diz que todos os portugueses são livres de escrever como querem mente. Absolutamente. Ou não está bem informado sobre o que se passa no seu e nos outros ministérios e serviços públicos. Porque aí o absurdo foi implementado à força e os funcionários são OBRIGADOS a escrever de acordo com as suas regras. Para isso têm o corrector ortográfico instalado em cada computador. E se ousam sequer remar contra a maré e apresentar relatórios ou informações de serviço em bom português os chefes de serviço mandam-nos refazer tudo em acordês.
É essa a liberdade que cada português tem para escrever como entender?
E o que vão alterar no absurdo que o torne tolerável? Nenhum dos argumentos utilizados pelos seus defensores colhe, quando devidamente examinados.
Que uniformização ou simplificação estão a tentar obter? Os brasileiros já têm uma língua muito própria. Se formos ler um livro escrito por um autor brasileiro editado em acordês continuamos a não perceber metade do que lá está escrito. Porque não são só as regras da ortografia e a forma como em cada país se escrevem determinadas palavras que diferem. Há todo um conjunto de vocábulos sinónimos que, embora comuns nos dicionários dos dois países, são utilizados de forma diferente ou exclusiva num e noutro país, tais como detento e detido. Ambas as palavras designam um preso mas no Brasil utilizam a primeira e nós por cá a segunda. E é assim e nunca vai ser diferente. Tal como por lá se inicia uma sindicância e por cá abrimos inquéritos. O absurdo também não vai alterar isso. Os nossos bengaleiros nunca serão os cabideiros deles, ou os nossos autocarros ônibus. Até nas nossas identificações a diferença existe - as carteiras de identidade deles não substituirão os nossos bilhetes de identidade (embora com o cartão de cidadão a confundibilidade seja menor). Ou o inverso, em qualquer das situações. Acrescem, além dos termos comuns, os inúmeros vocábulos que entraram ao longo dos anos na língua brasileira (porque na minha muito modesta opinião se trata já de uma língua nova e autónoma, com raízes no nosso português mas para todos os efeitos diferente), cujo significado, mesmo ao mais assíduo espectador de telenovelas ou filmes brasileiros, escapará completamente. Tal como a um brasileiro irá continuar a escapar o sentido de inúmeras palavras e frases escritas por autores portugueses e editados em acordês.
O pseudo acordo, que só à força vigora porque legalmente não poderia nunca estar em vigor, não é passível de ser alterado pela mesma razão que levou à sua torpe e absurda existência. Quem está contra o acordo irá sempre redigir em bom português. A maior parte dos que querem ser modernos e aderiram "porque sim" irão sempre escrever mal porque há hábitos e regras que nos foram incutidos de pequeninos e que não mudam por decreto ou, no caso, por resolução, pelo que, fatalmente, irão escrever num português misto, uma língua híbrida que não é carne nem peixe. E já se escreve tão mal no nosso português, para quê aumentar ainda a tragédia com este absurdo que nunca fará qualquer sentido e que não alimenta qualquer esperança de vir a produzir um Português correcto e uniforme? -O que conseguiram foi aumentar ainda mais a divergência.
Por isso só há um remédio para este absurdo e é acabar com ele. De vez.
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De Costa a 01.03.2012 às 22:03

Susana Bastos interpela com certeira crítica a atitude de FJV, apontando a bizarra duplicidade com que este, parecendo querer estar de bem com Deus e o Diabo (em matéria que nos convoca a tomar posição clara e não acomodada), encara essa coisa sem nome com que se pretende violentar a língua portuguesa.

No seu comentário num aspecto só S. Bastos terá sido, ainda assim, algo generosa para com esse poderoso inimigo. O famoso corrector ortográfico, que refere e que tão pressurosamente foi instalado (alguém, claro, facturou com isso; terá sido por ajuste directo?), mais do que um mero e objectivo "corrector", é antes um verdadeiro violador ortográfico, pois impõe de forma automática, independentemente da vontade de quem redige, ou mesmo contra essa vontade, uma aberração ilegal.

E se alguém lhe faz frente, ao violador, logo um funcionário curvado ante a hierarquia (mas há que pôr a comida na mesa, bem sei), acerta o passo, permita-se-me a expressão, ao subversivo ou subversiva.

Essa é a vontade de um estado mais e mais jacobino, sufocante, que se afirma guiado pelos mais nobres valores, mas nunca leu (ou então leu com meticulosa atenção!), certo romance que introduziu o conceito de novilíngua.

Costa
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De P.Porto a 01.03.2012 às 22:05

Susana, vou-lhe contar uma verdade e uma mentira e depois a Susana diz qual é qual:
- O FJViegas abandonou a ortografia antiga logo em 2009;
- Ouviu falar da entrada em vigor da Constituição de 1976? É falso. Leia o articulado da constituição de 1933 e vai ver que a de 1976 não pode nunca estar em vigor.
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De Costa a 02.03.2012 às 15:45

P. Porto, conhece o significado de ruptura constitucional? De golpe de Estado? De levantamento militar, de afastamento violento - mesmo que apenas em potência- da ordem político-jurídica estabelecida?

Foi em 1974, caso o ignore. Bom ou mau, foi nesse ano. Daí em diante a Constituição de 1933 ficou à mercê do novo regime, saído do levantamento militar e dotado dessa legitimidade, boa ou má, revolucionária. Qualquer ideia de reforma ou alteração seguindo as imposições nela contidas, na de trinta e três, respeitando uma continuidade, um processo nela definido e de carácter vinculativo, ficou naquele momento obsoleta. O legislador constituinte de 1976 aproveitou da de 1933 o que quis; o que não quis pura e simplesmente pôs de parte. E fez a setenta e seis, boa ou má, livre de vínculos à anterior.

Bom ou mau, foi assim.

Acha, P. Porto, que a alegada entrada em vigor da Aberração Ortográfica tem força de armas, valor de golpe de Estado, organização de levantamento militar?

Acha mesmo? Se calhar até tem... Isto é uma terra de doidos...

Costa

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