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Eros & Thanatos (como de costume)

por José Navarro de Andrade, em 29.02.12
Julie, 1994

Julie, 1994

Tecla, 1994

 forcado, Forte da Casa, 2000

 forcado, Montemor (?), 2000

 

A realidade é complicada, o retrato por exemplo. Uma pessoa vê a máquina fotográfica e põe-se logo em pose; o que fica dela acaba por ser um híbrido entre o que quis mostrar e o que dela se conseguiu ver. Como fazer com que alguém que esteja em pose deixe de posar?

Uma das maneiras mais simples de evitar o problema é fotografar o instante. Mas aí, não é o retratado que fica, mas apenas o que dele sobrou do momento em que o captámos. Outra maneira é apelar a expressões como “essência” ou “alma”, mas estas são provenientes da fantasia platónica, que em boa verdade procuram pouco e encontram menos. Talvez o próprio grego tenha percebido o embuste que criou, ao declarar com a humildade dos sobranceiros que “o belo é difícil” – é que a essência nunca está onde quer que seja.

A fotógrafa Rineke Dijsktra (n. 1959) tem um processo sagaz: fotografar os seus retratos quando as pessoas acabaram de passar por um grande esforço. Quer apanhá-las desarmadas ou frágeis? Nem tanto; quer que elas estejam demasiado fatigadas para se preocuparem com a pose.

Numa das suas séries Dijkstra fotografas mulheres que acabaram de dar à luz: Julie, uma hora antes de ser fotografada, Tecla, um dia depois do parto. Para outra série, Dijkstra veio a Portugal fotografar forcados, captados pouco depois da pega. O que se obtém é o retrato de pessoas no seu estado humano mais radical, o de quem acabou de sobreviver à natureza.


8 comentários

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De Ana Vidal a 29.02.2012 às 20:40

As fotografias são impressionantes. Mas a pose é uma reacção tão mecânica que o forcado de cima já não está completamente natural.
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De José Navarro de Andrade a 01.03.2012 às 10:26

É uma observação que dá pano para mangas, a tua. Uma das séries de Dijsktra é sobre nadadores, acabados de sair da água. Há aí uma foto que deu que falar, porque a menina, sem querer, sublinho, assume uma pose igual à da Vénus de Boticelli.
http://www.metmuseum.org/toah/works-of-art/2001.307
Onda fica a fronteira da "naturalidade"?

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De Ana Vidal a 01.03.2012 às 12:04

E o que é exactamente a "naturalidade"? Pano para mangas, como dizes. O tema é fascinante.
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De José Menezes a 29.02.2012 às 22:36

Sobreviver é um acto natural. Alterar a natureza é mais que natural, é humano. As 2 primeiras são actos naturais, os forcados desafiam a natureza para demonstrar bravura. Só um humano a compreende.
Só para contrariar, e demonstrar a natureza esquecida, costumo afirmar que só desafio (fisicamente) quem é mais fraco do que eu (fisicamente), senão fico mal. Se retirar os parentesis, fica mais normal no mundo cão.
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De Helena Sacadura Cabral a 29.02.2012 às 22:43

Adoro fotografias, Mas odeio ser fotografada, porque me roubam um instante de vida que, sendo meu, não o é!
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De Ana Vidal a 01.03.2012 às 12:07

Bem observado, Helena. Talvez seja por isso que também eu detesto ser fotografada, embora goste muito de fotografia.
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De Ivone Mendes da Silva a 01.03.2012 às 09:35

Felizes o que sobrevivem a essa omnipresente contenda entre Eros e Thanatos, ou que nela habitam sem pose.
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De bluesmile a 01.03.2012 às 09:41

Belíssimas imagens, desconhecia a fotógrafa, muito obrigada!

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