1. UM LIVRO
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CA...... SARKIS G........N
Bastou a João Cosme um esfregar de olhos mais acordadiço para perceber que o livro havia de ser obra de bifes. Vamos e convenhamos: depois de uma mão cheia de filmes de estio na praça da vila, as garatujas da capa não exigiam um Detective Varatojo.
Já a aparição daquele volume ali, no seu quarto, o quarto do seu falecido padrinho, na exacta madrugada do regresso da "expedição"? Preocupante o suficiente para entender o quanto antes. Talvez começar por aquele resto de assinatura na folha de rosto: Ca...... Sarkis G........n?
Cosme ouviu os passos curtos e ainda ligeiros de Vivelinda em direcção à sala de refeições. O cheiro a pão fez parágrafo no seu ritual matinal de higiene, mais longo que o costume, dada a quantidade de lama terrosa que havia ficado por limpar.– Vivelinda! - chamou, com poucas maneiras.
– Diz lá, João... - respondeu a sexagenária, em tom simétrico.
– Qu'é lá?! - impôs ele.
– Faz favor, menino Cosme... - fingiu a serviçal.
– A madrinha e o professor José Augusto, já estão na casa de jantar? - inquiriu, por fim.
– Não, menino, ainda só estás só tu e o Eduardo - despachou, empurrando o carrinho dos beberes.
– Já não estamos nos Freixos, Vivelinda - resmoneou, deixando escapar o sotaque.
– Pois não, João Cosme! - suspirou.
– Bom dia, D. Linda - acenou, respeitoso, o outro inquilino.
– Bom dia, sr. Eduardo - correspondeu, plácida.
(Este é o segundo capítulo do nosso 'cadáver esquisito', explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a da Ana Vidal.)