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O jornalismo que não se surpreende

por Pedro Correia, em 27.02.12

 

Já escutei hoje mais de dez vezes a frase "sem surpresas" referente à distribuição dos Óscares. Se não há surpresa, não há notícia. Mas houve notícia. O cineasta galardoado com a estatueta de melhor realizador é francês (quantas vezes isso já sucedeu na história da Academia de Hollywood, ó jornalistas nada surpreendidos?). A película vencedora, O Artista, é uma produção franco-belga (lembram-se da última vez em que isto sucedeu ou se alguma vez ocorreu nestas oito décadas de distribuição dos Óscares, caros amigos?). O actor que recebeu o prémio para o melhor desempenho masculino, Jean Dujardin, é também francês (digam-me, por favor, qual foi o actor fancês que antes dele levou um Óscar para casa). E Christopher Plummer, veterano de longas-metragens que há muito fazem parte do imaginário universal, como Música no Coração, foi o mais velho actor de sempre a conquistar uma estatueta, neste caso destinada a premiar o melhor desempenho secundário: triunfou aos 82 anos numa indústria rendida ao culto da juventude.

Limitei-me a anotar algumas novidades em poucos minutos, ao correr da pena. Outras houve que poderia igualmente sublinhar aqui -- do Óscar de melhor argumento original para Woody Allen por um filme de produção europeia até ao cineasta iraniano distinguido com o prémio para melhor filme de fala não-inglesa.

Mas reconheço que é muito mais fácil iniciar notícias com o chavão "não houve novidades". Marca de um certo jornalismo preguiçoso que permanece instalado entre nós.

Imagem: Jean Dujardin e Bérénice Bejo numa cena d' O Artista


16 comentários

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De Patrícia Reis a 27.02.2012 às 19:00

Como eu estou contigo, Pedro!
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De Pedro Correia a 28.02.2012 às 19:27

Grazie, Patrícia.
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De Octávio dos Santos a 27.02.2012 às 19:50

O «sem surpresas» refere-se ao facto de não ter havido diferenças em relação às previsões e, em especial, aos outros prémios anteriores desta temporada (Globos, BAFTA, guildas), em que «O Artista», invariavelmente, foi o vencedor.
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De Pedro Correia a 28.02.2012 às 19:30

Eu percebi, obrigado. Mas o jornalista deve ir além da gestão das expectativas. Nunca deve perder a capacidade de se surpreender. E deve, em todas as ocasiões, evitar o lugar-comum que neste caso se difundiu como eco. Cansei-me de ouvir a expressão «sem surpresas». Esta é a maneira mais preguiçosa, desinspirada e desinteressante de escrever uma notícia.
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De Daniel João Santos a 27.02.2012 às 20:50

pior é as opiniões dos especialistas que dão estrelas aos filmes no jornais.
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De Pedro Correia a 28.02.2012 às 19:30

Muito pior, reconheço.
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De Luís Alves a 27.02.2012 às 21:36

Não concordo. Diz-se hoje que a noite de ontem não trouxe surpresas porque os galardoados foram os grandes favoritos. A surpresa refere-se às previsões e não aos acontecimentos em si.
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De Pedro Correia a 28.02.2012 às 19:23

Certo. Eu próprio fiz aqui as minhas previsões e não andei longe dos resultados. A minha crítica visa no entanto o discurso jornalístico, tão pobre, tão pouco exigente, que reduz a dimensão dos factos à mera gestão das expectativas.
Repare: o PSD liderava as sondagens às legislativas de Junho de 2011 e poucos analistas políticos duvidavam da vitória de Passos Coelho. Isso não levou, no entanto, os jornalistas na noite eleitoral a escrever ou a dizer frases do género «Conforme previsto, o PSD venceu as eleições» ou «Sem surpresa, Passos Coelho derrotou José Sócrates».
Essas frases, a terem sido escritas ou ditas, matavam a história.
O jornalista deve procurar a novidade por detrás das evidências. Deve saber construir uma notícia apelativa e com interesse em vez de se escudar em lugares-comuns. Em suma, o jornalista nunca deve perder a capacidade de se surpreender.
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De macarvalho a 27.02.2012 às 22:54

Sem surpresas, conforme se viu e ouviu.
Tão sem surpresas que, ainda ontem, também ouvi que não havia memória de um filme francês ter sido alguma vez premiado na Gala do Kodak Theatre e que as probabilidades seriam, portanto, praticamente inexistentes e não justificariam o realce.
Assim, o filme considerado como o provável vencedor foi exactamente o que dividiu o número de estatuetas com o surpreendentemente vencedor.
Tudo foi surpreendente, este ano: o melhor actor, o melhor realizador, até o melhor actor secundário, o veterano Christopher Plummer, o eterno Captain Von Trapp, com um savoir faire e um humor inexcedíveis.
Só não terá sido surpresa alguma o Óscar para a melhor actriz.
Em tudo o mais, só quem for ceguinho....
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De Pedro Correia a 28.02.2012 às 19:32

Quem diz que o Óscar para melhor filme foi «sem surpresa» diria o mesmo se o premiado tivesse sido 'A Invenção de Hugo', por exemplo.
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De leitor a 27.02.2012 às 22:55

Naturalmente de acordo com o seu post, mas não posso deixar de notar que hoje em dia parece que os óscares já só servem para "bater recordes": o filme francês que ganha tudo, o ator mais velho a receber o prémio, a primeira realizador a vencer, o filme indiano,...
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De Pedro Correia a 28.02.2012 às 19:17

Isso faz parte de uma lógica jornalística também muito contemporânea, que presta tribuno ao número e à dimensão quantitativa de todas as actividades humanas.
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De Teresa a 28.02.2012 às 11:01

Só consigo lembrar-me de uma actiz francesa a ganhar o Oscar, a fabulosa Simone Signoret.
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De Pedro Correia a 28.02.2012 às 19:16

Sim. Depois dela, mais recentemente, a Marion Cotillard. E houve a Sofia Loren, primeira actriz italiana a receber o Óscar falando a língua materna. Mas a regra quase aboluta é os filmes, cineastas e actores de língua não-inglesa ficarem à margem das nomeações. Desta vez três dos quatro Óscares principais distinguiram uma cinematografia extra-Hollywood, o que basta para construir um discurso jornalístico bem estruturado, coerente e com... novidades.
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De Ana Vidal a 28.02.2012 às 21:23

Outra (boa) surpresa foi o discurso do realizador iraniano. E um cão em palco. Não faltaram surpresas, apesar das previsões.

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