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"(...) não percebeste bem o filme!"

por José Maria Gui Pimentel, em 26.02.12

Afortunados os cientistas que não têm de se preocupar senão com os do próprio meio. Já os artistas são obrigados a tolerar uma horda de chicos-espertos a comentar o seu trabalho, como se percebessem verdadeiramente da poda. Como a arte, contrariamente à ciência, é subjectiva, não é difícil a um leigo fazer parecer que tem algo para dizer. Pior que isso: não é difícil a um leigo pensar que tem algo para dizer. Mesmo consciente desse facto, não resisto em enveredar pela quinta-essência dessa chico-espertice aplicada ao cinema: uma (parcial e desajeitada) análise dos filmes nomeados para os Oscars (e de um que não está, mas devia).

 

 “O Artista” – 4.5 estrelas.

 

É um filme absolutamente fantástico, pela história, pela ideia de fazer uma película muda na época do 3D, mas, principalmente, pela realização. Michel Hazanavicius transforma com mestria uma aparente escassez de recursos numa vantagem, enfatizando magistralmente as funções da representação física e da banda-sonora (que aqui recupera a razão do seu nome). Jean Dujardin faz um enorme papel, com uma expressividade insuperável. Bérénice Bejo está também muito bem.

 

 

“Hugo” – 3.5 estrelas

 

Junta uma boa ideia a uma história razoável. Não pude ver em 3D, mas Martin Scorsese faz o habitual uso magistral das câmaras, mesmo em 2D. Todavia, confesso que o filme não me seduziu muito. A história poderia ter descolado mais do género em que se insere e algumas personagens poderiam ter sido mais bem exploradas. Em todo o caso, tem alguns trunfos: Cativaram-me por exemplo, as várias pequenas histórias que se vão desenrolando, (aparentemente) em paralelo à trama principal, apenas para depois se interceptarem, num final feliz conjunto. É um truque habitual, mas que aqui foi especialmente bem empregue.

 

“O Artista” e “Hugo” são os dois favoritos para o Oscar de melhor filme. É curioso o facto de ambos abordarem o mesmo período da história do cinema, o fim do cinema mudo. Mais curioso ainda é o facto de um o fazer recorrendo à técnica de então, enquanto o outro faz uso do 3D. Nesse aspecto, um golpe brilhante de Scorsese, que, duma penada, reconcilia o público com a tecnologia moderna e faz a devida homenagem aos primórdios do cinema.

 

"Os Descendentes” – 3 estrelas

 

Apenas mediano, com uma complexidade mais aparente do que real. Ademais, continuo sem achar George Clooney um grande actor. É um papel diferente, de facto, mas que não achei particularmente bem desempenhado.

 

"As Serviçais" – 4 estrelas

 

É um tipo de narrativa relativamente comum, o que é uma desvantagem, mas bem conseguida. Compensa essa previsibilidade com a qualidade da história, que inevitavelmente cativa o espectador. Viola Davis e Emma Stone têm notáveis desempenhos. O da primeira trazendo muitas subtilezas a um papel aparentemente simples. A segunda revelando aqui uma polivalência inesperada (tanto é capaz de fazer de miúda gira da escola como, pelos vistos, de maria-rapaz). Por fim, descobri no filme um pormenor interessante. Numa indústria incrivelmente machista como é a de hollywood (hei-de escrever aqui sobre isso), é admirável o sucesso alcançado por um filme quase sem homens.

 

"Meia Noite em Paris" – 3 estrelas

 

Este filme que, como não poderia deixar de ser (sendo de Woody Alen), saiu fora de época de Oscars, já aqui foi discutido profusamente no nosso espaço: aqui, aqui e aqui. Mantenho que é um filme agradável, e com uma mensagem interessante, mas com pouco sumo, cheio de clichés. Pareceu-me mais uma ode a Paris do que um filme amadurecido.

 

"Moneyball" – 4 estrelas

 

Tal como “The Help” é um género de narrativa algo gasto, porém igualmente bem gizado, ademais possivelmente superando aquele em originalidade da trama e em qualidade de filmagens (um bom trabalho de Bennett Miller). Acresce que é um filme sobre desporto, o que é sempre um handicap. Para quem, como eu, nada percebe de basebol, torna-se por vezes difícil de acompanhar, mas o essencial está lá. Brad Pitt mostra, mais uma vez, ser, ao contrário do “homólogo” citado acima, mais do que um sex symbol, confirmando a sua grande versatilidade. Ainda assim, não me parece suficiente para privar Jean Dujardin do prémio.

 

"Cavalo de Guerra" – 3 estrelas

 

Não há muito a dizer sobre este filme. Visualmente muito bem realizado e com uma boa banda sonora, cortesia da parelha habitual Steven Spielberg / John Williams. Mas muito atrás das obras-primas de Spielberg. Mesmo tendo em conta o género em que se abertamente, não achei que merecesse a nomeação.

 

"Os Homens que Odeiam as Mulheres" – 4 estrelas

 

Um policial de qualidade, realizado por David Fincher (não sei se bem ou mal adaptado, pois nunca li o livro). Daniel Craig cumpre e Rooney Mara revela-se, embora não deva ser suficiente para levar o Oscar.

 

"A Melhor Despedida de Solteira" – 3,5 estrelas

 

Uma comédia romântica de um estilo de que não sou grande fã. Ainda assim, consegue ser relativamente original. Pelo menos meia estrela deve-se ao desempenho de Melissa McCarthy. Lembro-me duma entrevista do Herman em que ele dizia que nenhum tipo de humor é mau, desde que seja bem feito. Melissa McCarthy prova isso mesmo.

 

"A Dama de Ferro" – 3,5 estrelas

 

É uma fita difícil de avaliar. Sendo um filme, e não um documentário, justifica-se perfeitamente a opção por uma narrativa diferente, neste caso focada no sofrimento da personagem principal, Margaret Thatcher, após morte do marido. A ideia é boa mas não especialmente bem executada, com o realizador a parecer não ter a certeza em relação a de que perspectiva adoptar. Ainda assim, é muito hábil o modo como são geridas as sempre polémicas políticas de Thatcher, sem juízos de valor. Estes vêm sempre das personagens, e não do realizador, cada uma representando os vários pontos de vista existentes. Acresce o desempenho notável de Meryl Streep, que confirma ser das únicas atrizes (quiçá a única) a conseguir sobressair num mundo em que os papéis de relevo são quase sempre masculinos.

 

 

"J. Edgar" – 4 estrelas

 

Discordando do Pedro Correia (até nestas matérias se discorda neste blogue!), acho o filme bem conseguido. Confesso-me: Leonardo Dicaprio é, provavelmente, o meu actor americano preferido. O homem não sabe fazer maus filmes: escolhe os guiões a dedo, e interpreta-os quase sempre com mestria. Não compreendo como ainda não ganhou sequer um Oscar. Tal como o filme sobre Margaret Thatcher, o realizador (Clint Eastwood neste caso) tenta seguir uma linha diferente, afastando-se do filme biográfico tradicional. Não acho, Pedro, que o objectivo tenha sido narrar uma novela gay, o próprio Eastwood numa entrevista antes de o filme ser divulgado parecia pouco interessado em seguir esse caminho. Na verdade, os rumores sobre a vida privada de Hoover teriam, caso o realizador quisesse ir por aí, dado para muito mais do que aquela relação casta que é retratada no filme (os boatos incluíam cross-dressing e orgias homossexuais). Posto isto, o filme adopta, propositadamente, uma ênfase no lado pessoal de Hoover, não deixando de contar a história da sua carreira pública, mas deixando esta em função daquela. É uma perspectiva lícita para um filme, e aqui, na minha opinião, mais bem conseguida do que na “Dama de Ferro”.

 

Mesmo tendo presente não ter conseguido ver todos os filmes, apontaria para os seguintes vencedores (não são previsões, são opiniões):

 

Melhor Filme: “O Artista”

Melhor Realizador: Michel Hazanavicius (“O Artista”)

Melhor Actor Principal: Jean Dujardin (“O Artista”)

Melhor Actriz Principal: Meryl Streep (“A Dama de Ferro”)

Melhor Actor Secundário: *

Melhor Actriz Secundária: Melissa McCarthy (“A Melhor Despedida de Solteira”)

*só vi um dos filmes seleccionados


8 comentários

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De Luis Eme a 26.02.2012 às 13:35

gostei de ler e de notar que a opinião comum pode ser mais interessante que a do crítico. :)
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De José Maria Gui Pimentel a 26.02.2012 às 17:41

Obrigado, Luís. É um exercício engraçado.
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De Helena Sacadura Cabral a 26.02.2012 às 19:02

Estou de acordo. Prefiro sempre a opinião de "quem gosta de cinema" à dos "críticos de cinema"!
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De José Maria Gui Pimentel a 27.02.2012 às 09:17

Obrigado! Infelizmente os críticos compensam muitas vezes a cultura cinematográfica com preconceitos intelectuais...
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De João André a 27.02.2012 às 09:48

«Afortunados os cientistas que não têm de se preocupar senão com os do próprio meio»

Quem me dera, quem me dera. infelizmente há demasiadas pessoas a opinar sobre ciência quando nem sequer dominam a sua linguagem (problema menor no cinema).

E filmes são filmes, portanto não me debruço em excesso sobre as suas opiniões. Apenas dois pontos:
1. Em "O Artista" (que ainda não vi), confesso que vou à partida céptico em relação a um filme filmado de forma em tudo idêntica à da altura que retrata. Talvez tivesse sido mais interessante filmar a história com tecnologia actual. Um pouco como Stanley Donnen fez com "Serenata à Chuva". Mas reservo julgamento para quando vir o filme.
2. "Cavalo de Ferro" é o pior filme, de longe, que Spielberg alguma vez realizou. Aliás, será talvez o único mau filme que realizou. Visualmente está bem, mas isso é tarefa de fotografia. O actor principal não está mal, para uma caricatura. O resto é um pastelão descomunal que me fez perguntar porque razão decidi eu ficar a ver o filme para lá dos 20 minutos. Creio que esperava que sucedesse alguma coisa interessante...

Seja como for, isto são opiniões e cada um pode ter a sua.
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De José Maria Gui Pimentel a 27.02.2012 às 11:27

Em relação ao Cavalo de Ferro, concordo completamente. Só não fui tão radical por duas razões: a) não é o meu género de filme, por isso desconto algum enviesamento; b) vi o filme há poucos dias e gosto de deixar estagiar os filmes na memória de curto-prazo; às vezes remoendo sobre eles altero a opinião (não me parece que seja o caso).
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De João André a 27.02.2012 às 13:00

Exacto, tem toda a razão. Ferro há muito no filme, mas mal distribuído... O cavalo é suposto se de guerra (e corrida, e agricultura e sabe-se lá que mais, não é?...)

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