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Fome

por Ana Vidal, em 25.02.12

Numa mecânica passagem pelos canais de televisão à uma e meia da manhã, rejeito liminarmente todos os filmes e séries que me saem ao caminho e continuo, procurando nem eu sei bem o quê. Procurando nada, no fundo, apenas tentando fintar a noite com a paciência e a resignação dos insones crónicos. Detenho-me, hipnotizada, numa reportagem sobre a fome no reino dos eleitos: a América pujante e esplendorosa do presidente Obama. Nas estatísticas caem as máscaras e surgem números tão assustadores como surpreendentes. Dolorosamente, desfilam perante os meus olhos, como fracturas expostas, abrigos para indigentes, lixeiras habitadas, tendas imundas que são morada de família. E finalmente o golpe de misericórdia, desferido pela indescritível expressão de desistência nos olhos de uma menina de cinco ou seis anos. Entrevistada num abrigo comunitário para crianças, responde à pergunta "e tu, porque estás aqui?" com a lentidão dos que já nada esperam: "a minha mãe come ratos". A jornalista estaca, sem ar nos pulmões. Eu morro por dentro, sabendo que nunca mais esquecerei a cena. Nunca mais. Nem o olhar, nem a frase, nem o fio de voz. Nesta hora sombria em que tudo parece mais negro, eis o que a luz de nenhuma manhã conseguirá apagar. Augusto Gil salta de um livro da minha infância para martelar-me o cérebro, impiedoso. Mas as crianças, Senhor?

 

Ah, não me venham falar de direitos adquiridos que eu ainda mato alguém.


12 comentários

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De Ana Vidal a 25.02.2012 às 15:59

Cara(o?) d.

Acho que a(o) entendi, mas essa tese é perigosa. Reconhecer que o sofrimento existe na condição humana não significa exaltar-lhe as virtudes, e muito menos aceitá-lo como inevitável em todas as circunstâncias. Porque não o é. Pelo contrário, está muitas vezes na nossa mão - igualmente humana - evitar que outros o sintam na pele com esta intensidade, e ainda mais quando se trata de um ser indefeso. Não gosto de conformismos nem de generalizações, mas se há sofrimentos perante os quais somos impotentes, há outros que nos fazem sentir culpados. E isso é bom, porque nos abana a indiferença.

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