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O Metro do nosso descontentamento

por Ana Lima, em 25.02.12

Por muitas razões, das quais não vou agora falar, sou uma defensora da utilização dos transportes públicos. Apesar de gostar muito de andar a pé em Lisboa, utilizo, entre outros, o metro, com alguma frequência. É inegável o esforço que tem sido feito para melhorar a qualidade da sua utilização. A rede tem sido aumentada, as estações renovadas e, à excepção de algumas alturas do dia, as viagens não são desconfortáveis.

No entanto, nos últimos dias...

Provavelmente por contenção de custos, a circulação na linha verde faz-se agora (ainda não percebi se durante todo o dia, se apenas a algumas horas), apenas com três carruagens. Algumas das consequências deste facto são:

- as correrias nas plataformas de quem está desatento aos avisos ou simplesmente não consegue ler à distância em que o painel informativo se encontra. Esta situação é agravada no caso de pessoas idosas;

- a rápida saturação do espaço nas carruagens (hoje alguns casais estrangeiros, com crianças e carrinhos, não conseguiram entrar numa das estações, não apenas por não haver lugares sentados mas porque não conseguiam mesmo entrar - e isto à hora de almoço);

- a acumulação com o descontentamento já existente, face ao aumento do preço das viagens e a situações, que espero pontuais, mas que acontecem cada vez mais, como o não funcionamento de elevadores e escadas rolantes (pelo menos na estação do Cais do Sodré);

- o stress de uma viagem em que, não bastando a situação de irmos colados a vários desconhecidos, ainda temos que ouvir todas as lamentações e vociferações de quem se sente tão mal servido.

Sabemos que a aplicação de medidas de racionalização e emagrecimento é um imperativo inevitável mas impõe-se que ela seja feita criteriosamente para não se retroceder demasiado no tempo e para que não se afastem as pessoas dos transportes públicos, o que é contrário a tudo o que se deseja para uma cidade moderna.

Não sei se esta medida está em vigor ou se se encontra prevista para outras linhas. Sei, no entanto, que os investimentos que têm sido feitos na melhoria das estações, no seu alargamento, a oferta de actividades culturais, não fazem qualquer sentido se as carruagens não servirem para transportar os utentes com um mínimo de qualidade. E transformar o dia inteiro numa hora de ponta contínua diminui-a substancialmente.

Mesmo adoptando apenas um ponto de vista economicista, estas medidas não servirão certamente para fortalecer a empresa. Muito provavelmente diminuirão os custos mas, a médio e longo prazo, diminuirão também os ganhos.

Por enquanto nós já estamos a perder.


27 comentários

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De João Carvalho a 25.02.2012 às 09:34

Claro e oportuno, Ana.
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De Joao guedes a 25.02.2012 às 09:50

Não sei do que se queixa, so se for da muita oferta, no interior não ha transportes publicos, o se tem carro se noão se tem fica-se em casa.
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De fernando antolin a 25.02.2012 às 15:08

Pois caro João Guedes, como ainda (infelizmente) há analfabetos, eu tenho que passar a desgostar de ler livros...
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De João Campos a 25.02.2012 às 18:28

É um facto, mas não percebo o ponto aqui. Na minha aldeia vida é exactamente assim - não há carro, não há saídas - mas não me passa sequer pela cabeça pedir lá para a aldeia os transportes que tenho em Lisboa.
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De Ana Lima a 26.02.2012 às 02:05

Do que me queixo é exactamente do que escrevi. Como deve imaginar, longe de mim comparar situações incomparáveis. A situação no interior é diferente a muitos níveis. A comparação que aqui fiz é com uma situação anterior, muito concreta, que, não sendo a ideal, era bem melhor.
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De Beijokense a 26.02.2012 às 19:27

Concordo. Sou a favor do aumento da qualidade e do preço das viagens de metro.
Tenho alguma experiência de utilização de transportes públicos em vários países europeus. Foi na Suíça que tive as melhores experiências. Lá, o cliente paga 30% a 40% dos custos (do serviço e da infraestrutura, incluindo amortizações) das deslocações entre cidades ou fora dos grandes centros. Nas cidades principais, a participação do cliente sobe para valores que podem ir até aos 70%. Com preços relativamente caros, há clientes porque o serviço é realmente bom e porque não há lugares de estacionamento
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De Ana Lima a 27.02.2012 às 01:04

Mesmo não sendo a Suíça o melhor termo de comparação, compreendo. Mas aqui em Portugal, mesmo não conhecendo os números envolvidos, essas percentagens estão, certamente, longe das capacidades da grande maioria dos utentes. A não ser que os bancos, em vez de crédito para compra de automóveis, começasse a conceder crédito para se pagar os transportes. :)
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De Beijokense a 27.02.2012 às 20:02

Vivo numa cidade do interior e preciso de deslocar-me a outra com certa regularidade, por motivos profissionais. Se quiser usar um inconveniente transporte público, só tenho a opção de recorrer a operadores privados... logo, em princípio, estou a pagar mais de 100% do custo.
Não é fácil convenceres-me a pagar mais impostos ou aceitar mais cortes de salário para pagar a qualidade dos transportes de Lisboa. A opção de aumento de preços talvez fosse menos má do que a degradação do serviço, que irá afastar clientes sem "passe" e justificar novos cortes na qualidade...
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De Ana Lima a 29.02.2012 às 00:39

Compreendo-te.
Mas eu não quero convencer-te a nada.
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De lucklucky a 25.02.2012 às 16:02

Continuam a não querer pagar o que custa o Metro.
Os transportes publicos só são publicos se tiverem o preço de custo. Assim são transportes subsidiados.
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De Ana Lima a 26.02.2012 às 02:23

Quando toca a pagar custa-nos a todos (a uns mais que a outros). Mas sejam empresas públicas ou privadas a operar elas nunca são auto-suficientes, isto é, a receita não é suficiente para cobrir as despesas. Por isso os transportes públicos terão sempre que ser subsidiados. É esse um dos papéis do estado. Nos transportes e noutros aspectos. O que se pode discutir é o grau dessa participação. Mas sem o apoio do estado não teríamos a mobilidade que temos. Isso é inquestionável.
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De IsabelPS a 25.02.2012 às 17:54

A chatice é que é extraordinariamente difícil passar de cavalo para burro. O metro de Lisboa é, e suponho que apesar de tudo continua a ser, o metro mais confortável de todos os que conheço. De longe, de muito longe.
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De João Carvalho a 25.02.2012 às 18:52

Quase, mas... conhece o do Porto?
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De IsabelPS a 25.02.2012 às 18:58

Não. Mal acabei de escrever o meu comentário pensei que devia ter acrescentado qualquer coisa sobre o meu desconhecimento do metro do Porto porque se estava mesmo a ver que alguém o ia trazer à baila. ;-)

O que eu queria dizer era que correr atrás do metro pelo cais fora, ou viajar como sardinha em lata, ou esperar 20 minutos fora das horas de ponta, qualquer destas coisas é a triste sorte quotidiana dum utente do metro de várias metrópoles europeias que eu conheço...
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De Ana Lima a 26.02.2012 às 02:35

Confesso que não conheço muitas outras situações. Mas as que conheço não são melhores que Lisboa. É verdade. Mas o caso de Lisboa também não era assim tão exemplar. De qualquer modo, ao diminuir a qualidade da prestação do serviço, também a imagem fora de Portugal sai prejudicada. Nos inquéritos feitos aos turistas normalmente o metro aparecia como algo que funcionava bem. Agora assim... :)
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De Ana Lima a 26.02.2012 às 02:28

A última vez que estive no Porto andei várias vezes no metro. E sim, de facto, é muito confortável, João :)
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De Ana Lima a 26.02.2012 às 02:26

A questão que levantei era essa. Claro que eu sei que a contenção económica terá que se fazer sentir a todos os níveis. Mas, mesmo numa empresa como o Metro, haverá outros cortes que farão mais sentido.
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De Tiro ao Alvo a 25.02.2012 às 18:56

Claro que deve ser privilegiado o transporte público, em detrimento do transporte particular em viaturas ligeiras, circulando muitas vezes apenas com um passageiro.
É por isso que venho advogando que todas as auto-estradas deveriam pagar portagens, tanto mais caras quanto mais caro fossem os seus custos de construção e condizentes com as vantagens que essas auto-estradas proporcionem. E se assim fosse feito, a CRIL, por exemplo, deveria ser portajada, desencorajando dessa forma muitos dos automobilistas que, hoje, passam por ali de borla, forçando-os a utilizarem os transportes públicos que, tanto no Porto como em Lisboa, são baratos e eficientes. E se a frequência desses transportes aumentasse, talvez não fosse necessário aumentar tanto os preços, isto por um lado; por outro lado, o valor das portagens das auto-estradas que atravessam Lisboa e Porto, deveria, em grande parte, reverter para os Metros e para as Carris. Assim como está, são os contribuintes da província quem está a financiar os transportes das capitais das nossas duas metrópoles. Uma injustiça.
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De Ana Lima a 26.02.2012 às 02:48

Com excepção dos que usam o automóvel por razões justificadamente válidas, concordo, em termos gerais com o que diz. Também eu acho os transportes públicos, de um modo geral, eficientes. Já baratos, não sei. Mas é um círculo vicioso. As pessoas não os utilizam, baixando os lucros potenciais das empresas o que faz com que o investimento na melhoria da oferta não seja tão grande, levando muitos a sentirem-se insatisfeitos, não os utilizando.
Já em relação à injustiça do financiamento dos transportes das cidades, pelos contribuintes da província, bem, é uma situação irresolúvel. É que o Estado é só um. Por isso todos os cidadãos do país pagam para tudo. Há investimentos feitos fora das cidades pagos também por quem não utiliza os seus frutos. É difícil falar em termos genéricos.
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De Brasileiro a 26.02.2012 às 08:47

A autora não tem prestado muita atenção, pois não? É em três carruagens porque SEMPRE FOI EM TRÊS CARRUAGENS na linha verde, justamente porque algumas estações não comportam as composições (comboios) maiores, v.g. Arroios ou Areeiro (que, imagino, ainda está em reformas). É diferente do que ocorre na linha azul, em que esses comboios de três carruagens só são usados em horários bem mais tardios.
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De Ana Lima a 27.02.2012 às 00:11

É verdade que na linha verde a circulação sempre se fez com menos carruagens pela razão que apresenta. Mas eu tenho prestado atenção sim. A circulação em três carruagens faz-se desde o dia 22 deste mês. Antes disso eram quatro e não três. Não sei quantos passageiros leva cada carruagem mas, acredite, faz uma grande diferença. E se prestar atenção verificará isso mesmo.
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De Tiro ao Alvo a 26.02.2012 às 11:11

A amiga não se referiu à eventual forma de financiamento dos transportes púbicos, através de portagens à entrada das grandes metrópoles, sobretudo a partir dos pontos bem servidos pelos Metros. Gostava de conhecer a sua opinião sobre isso.
Quanto ao financiamento das obras públicas fora dos grandes centros urbanos, repare que muitos deles também não são a favor, exclusivamente, dos habitantes dessas regiões. Pelo contrário, como é o caso das barragens.
Mas peço-lhe que tente compreender o buracão das empresas públicas de transportes, para além dos subsídios que têm recebido ao longo dos anos: 15 mil milhões de euros, ou seja, o valor de 3 ou 4 novos aeroportos, do tipo pensado para Alcochete. Uma barbaridade, que todos vamos ter que pagar. Todos! Inclusive os provincianos.
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De Ana Lima a 27.02.2012 às 00:34

Eu tentar, tento mesmo que seja difícil compreender. :) Eu sei que o "buraco" é enorme. E quando escrevi o post disse que "a aplicação de medidas de racionalização e emagrecimento é um imperativo inevitável". Só falei nesta medida concreta que me parece que não resultará, tendo em conta os custos/benefícios. Quanto a outras desconheço os efeitos.
Em relação ao financiamento das obras públicas, tem razão. Mas as opções dos governos que não são sujeitas a consultas tipo plebiscito terão sempre esse problema.
Quanto à ideia de portagens à entrada das grandes cidades sou, com as necessárias excepções, inteiramente a favor. Claro que, para que essa medida fosse viável, seria necessário ser criado estacionamento em zonas chave e não tenho visto grande esforço nesse sentido. Conheço bem o caso de Algés em que, no lugar onde existiam parques de estacionamento, que serviam quem deixava ali o carro e utilizava os transportes para entrar na cidade, foram construídos edifícios de habitação, a preços altíssimos, claro, que estão há longos meses à espera de serem comprados.
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De Ismael Pires a 10.03.2012 às 16:04

Associem ao protesto contra a redução da oferta de transporte no Metro de Lisboa. Assina a petição.

http://www.peticaopublica.com/PeticaoAssinar.aspx?pi=metro3c

Escreve para

relacoes.publicas@metrolisboa.pt


Faz circular este protesto
.
http://canais.sol.pt/blogs/contramestre/default.aspx

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