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Estrelas de cinema (12)

por Pedro Correia, em 21.02.12

 

ROMANCE DE CORDEL, COM 'GANGSTERS' EM FUNDO

**

Há um esforçado trabalho de composição da personagem central - mérito de Leonardo di Caprio - e uma adequada reconstituição de época, tarefa nada fácil, pois a narrativa estende-se por mais de cinco décadas. Além da notável banda sonora, como de costume a cargo do próprio realizador. Mas esgotam-se aqui os méritos de J. Edgar. Este filme parece, aliás, confirmar que desde o já distante Bird (de 1988) Clint Eastwood não se sente muito à vontade no género biográfico.

O título não deixa lugar a dúvidas: estamos perante um retrato que se pretende pessoal, íntimo, de J. Edgar Hoover, influente figura pública dos EUA enquanto fundador e director do FBI, entre 1935 e 1972 (tendo sido director, entre 1924 e 1935, do Bureau of Investigation, organismo predecessor do FBI, ainda sem competências federais). Hoover trabalhou com oito presidentes norte-americanos, vários dos quais o detestavam (Roosevelt, Kennedy e Nixon, por exemplo) mas nunca tiveram coragem de o exonerar alegadamente para não verem expostos segredos inconfessáveis que o super-espião fora arquivando sobre cada um deles e acabaria por levar para a tumba.

Ora o discutidíssimo e reservadíssimo Hoover também tinha os seus segredos que contradiziam a imagem do celibatário ascético e austero composta pelas peças de propaganda. Eastwood centra-se nisto. Acontece, porém, que nada do que nos traz é novidade: os últimos anos têm sido férteis em livros que revelam a face oculta do líder histórico do FBI. E Di Caprio, apesar do esforço revelado, não consegue ser totalmente convincente na pele da personagem: jamais nos esquecemos de que estamos perante um trabalho de representação, o que costuma constituir um teste decisivo à capacidade interpretativa de um actor em cinema (teste que Meryl Streep supera com êxito no papel de Margaret Thatcher noutro filme recém-estreado em Portugal, A Dama de Ferro). E se na primeira parte existem interessantes sequências de acção na sombria América dos anos 20 e 30 dominada por sindicatos do crime, na segunda metade o filme transforma-se numa espécie de soap opera gay centrada num suposto idílio amoroso entre Hoover e o seu adjunto de longos anos no FBI, Clyde Tolson - interpretação de Armie Hammer que jamais descola da caricatura, sobretudo quando surge já envelhecido, numa caracterização digna de causar gargalhadas por ser tão óbvia e tão incompetente.

Dos gangsters puros e duros ao romance de cordel: demasiadas contorções num filme só. O Clint Eastwood dos bons tempos só é reconhecível quando são os maus a invadir o ecrã.

 

J. Edgar. (2011). De Clint Eastwood. Com Leonardo di Caprio, Armie Hammer, Naomi Watts, Judi Dench.


10 comentários

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De Helena Sacadura Cabral a 21.02.2012 às 23:04

Tenho que ir ver. Mas não tenho vontade. Gosto muitíssimo de Eastwood realizador, mas não aprecio Di Caprio e a figura do boss do FBI não me atrai.
E a vida sexual das figuras públicas nossas ou estrangeiras nem um pouco.
Depois da tua crítica, então...
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De Pedro Correia a 21.02.2012 às 23:34

Fiquei francamente decepcionado com o filme, Helena. Como se percebe pelo meu texto. Claro que os filme do Clint Eastwood suscitam-nos, em regra, expectativas muito elevadas, o que torna as decepções mais acentuadas - isso influiu certamente na minha apreciação.
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De Maria Nunes a 22.02.2012 às 09:55

eu estou exactamente na mesma:
Penso que tenho de ir ver, mas não tenho vontade... É que também gosto muitíssimo de Eastwood realizador.
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De Pedro Correia a 22.02.2012 às 13:00

Nem sempre é possível fazer filmes de cinco estrelas. Este está longe disso. Muito longe.
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De Ana Vidal a 22.02.2012 às 01:20

Nah, este não me leva ao cinema. Nem pelo tema, que está esgotadíssimo, nem pelo Di Caprio, nem sequer pelo Clint Eastwood de quem não sou incondicional. Acho que ele tem tido altos e baixos como realizador (alguns altos bastante altos, admito, como é o caso de Gran Torino), mas também já assinou algumas xaropadas.
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De Pedro Correia a 22.02.2012 às 08:00

Sim, Ana. Aliás nenhum grande realizador produziu apenas obras-primas. Os melhores de todos - Hitchcock, Ford, Billy Wilder, Fellini, Bergman - assinaram filmes fracos ou mesmo muito fracos. É a vida, como dizia o outro. E a arte reproduz a vida.
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De Ana Vidal a 22.02.2012 às 10:35

É verdade, nenhum artista produz só obras-primas. Talvez a produção torrencial de Clint Eastwood, por ser mais recente e portanto mais viva na minha memória, me pareça mais irregular.
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De Pedro Correia a 22.02.2012 às 13:00

Acontece o mesmo com o Woody Allen, outro grande cineasta contemporâneo. Produz uma obra-prima em anos bissextos.
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De Teresa Ribeiro a 23.02.2012 às 11:30

És demasiado duro com o filme e o DiCaprio. Este teve o azar de ver o filme lançado a par com o da Meryl a fazer de Tatcher. E ninguém consegue sair compostinho dessa comparação. Ela é insuperável.
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De Pedro Correia a 24.02.2012 às 00:30

Achei Di Caprio esforçado apenas: em nenhum instante nos esquecemos de que está ali um actor a representar; Meryl Streep, pelo contrário, faz-nos esquecer disso: confunde-se de tal maneira com o papel que parece tornar-se por vezes quase tão real como a personagens que encarna. E no cinema, tal como na política, o que parece é.
Di Caprio e Streep: eis a diferença que vai da mediania à excelência, Teresa.

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