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Valha-o Deus, homem

por Rui Rocha, em 17.02.12

D. Manuel Monteiro de Castro, o novo cardeal português, entende que "a mulher deve poder ficar em casa, ou, se trabalhar fora, num horário reduzido, de maneira que possa aplicar-se naquilo em que a sua função é essencial, que é a educação dos filhos”. É de homem. Das cavernas, benza-o Deus. Desde logo, é lamentável que transpareça do discurso uma visão funcional das mulheres. Se bem a conheço, a visão oficial da Igreja Católica apela à integridade ontológica, independentemente de qualquer função. É nessa perspectiva que se entende, por exemplo, a defesa da proibição do aborto. Entendamo-nos. O lugar das mulheres é onde elas quiserem, mesmo que não sirvam para nada ali onde estiverem. O mesmo se aplica aos homens. Sendo que, no caso destes, a probabilidade de não servirem para nada seja lá onde for é bem maior. Tal como a de fazerem ou dizerem asneira. Depois, as palavras de D. Manuel são incompreensivelmente redutoras. Existem tantas funções essenciais para as mulheres em casa, no escritório, na praia ou no campismo que os dois mil e tal anos de história da Igreja Católica não foram suficientes para as enumerar, quanto mais para as perceber. Mesmo admitindo que uma dessas funções não é dizer missa. Mas, para além disso, esta intervenção é profundamente discriminatória. Na verdade, não admito a D. Manuel que me exclua da possibilidade de, a ficar alguém em casa a educar os meus filhos, ser eu próprio a fazê-lo. Pode um ser humano ter uma visão do Paraíso? Acho que sim. No meu caso, passar os dias com os meus filhos, brincar com eles, ajudá-los, ensinar-lhes o pouco que sei, aprender com eles, zangar-me e logo correr a abraçá-los, rirmos e chorarmos juntos, tudo isto me parece a antecipação do Céu em plena Terra. Digo que não tem comparação, não desfazendo, com a função de Cardeal ou de Penitenciário-mor da Santa Sé. Melhor, só mesmo se a minha mulher pudesse estar em casa connosco. Mas isso, de tão bom, tão bom, talvez já fosse pecado. Por isso, espero que D. Manuel, ungido pelo Espírito Santo, possa um dia ver a luz que o ajude a despir-se, em bom recato se a isso a Providência ajudar, do preconceito que a vontade de Deus o fez exteriorizar. Até lá, resta-lhe enfiar o barrete. Cardinalício.


367 comentários

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De Anónimo a 17.02.2012 às 23:19

O amor é como a sabedoria: sendo único tudo pode, imutável em si mesmo, renova todas as coisas; ele se derrama de geração em geração, em qualquer género. O amor é dom, sendo dom é dádiva, sendo dádiva, busca-se.
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De Jonasnuts a 17.02.2012 às 23:25

Começámos na ciência, acabamos na poesia.

Os argumentos científicos terminaram? É que poesia, há para todos os gostos (e eu nem sou apreciadora), já ciência, havendo diversidade, é mesmo assim, mais difícil.
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De Anónimo a 17.02.2012 às 23:30

O amor encontra-se na diversidade mas não é diverso, é único.
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De A. a 18.02.2012 às 04:11

Parece-me que se está a esquecer da amamentação, que até há pouco tempo (dezenas de anos, isto em centenas de milhares do homem) representava a diferença entre a vida e morte e que, a não ser proporcionada pela mãe, teria se sê-lo necessariamente por outra mulher, sendo um fenómeno minoritário na história, a amamentação por leite de outra origem.
Sendo de crer que a amamentação não é cultural, mas biológica, pode-se talvez inferir que enquanto durar há uma relação de eleição entre mãe e filho...
Se atentarmos que até há pouco tempo - também dezenas de anos -, mãe e pai trabalhavam a pouca distancia física das crianças, e não parecendo uma ousadia supor que esse desejo de proximidade da prole será biológico e cultural em ambos os progenitores, não me parece um dislate o que disse o Cardeal.
Pertenço a uma geração em que a mãe estava em casa e liberta das tarefas que se costumam associar ao "estar em casa" pela existência de empregadas e tenho uma pena imensa destas crianças que chegam a casa ou tarde ou com os pais cansados de um dia de trabalho.
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De jMenezes a 18.02.2012 às 16:51

Que sabes tu de sabedoria?

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