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O elogio da preguiça

por Leonor Barros, em 13.02.12

No meu tempo, já o disse aqui, quem faltava e ultrapassava o limite de faltas era excluído da frequência. Nesse tempo não havia almofadas, credo, que até pareço o Passos Coelho, não havia segundas oportunidades, muito menos novas, ninguém andava connosco nas palminhas e a maior parte dos professores estava-se nas tintas para a vida privada dos alunos, se tinha problemas em casa, se estava com problemas, se o namorado/a nos tinha dado com os pés ou se tínhamos sido atacados por um ataque de adolescendite aguda e parvoeira acentuada. Nesse tempo as consequências eram bem claras e à maneira judaico-cristã quem pecava tinha de sofrer a culpa e esperar pelo ano seguinte.

Esta prática tão vergonhosamente anti-pedagógica esteve grosso modo em vigor até um belo dia o governo Sócrates ter desencantado Maria de Lurdes Rodrigues para dirigir os desígnios da educação neste país. A excelsa dama num afã de reduzir o abandono escolar lembrou-se de implementar uma coisa chamada provas de recuperação. As provas de recuperação eram uma bela manobra de diversão mais uma vez cheia de papelada e de rodriguinhos, formulários, comunicações para cá e para lá. Podem até ter reduzido o abandono escolar no papel mas na prática os prevaricadores eram ainda brindados com a ausência total de faltas e podiam começar tudo de novo. Ultrapassar limites de faltas era o desejo último de muitos faltosos. Feitas as provas e recuperadas as aprendizagens, ah que belo naco de prosa, os alunos poderiam faltar e fazer mais provas e faltar e fazer mais provas. Naturalmente esta permissividade legitimada e aprovada em decreto só teve como consequência o laxismo, o abandalhar da escola e do próprio sistema e fazer com que quem faltasse visse ainda premiadas as sucessivas ausências, já que muito pouco lhe acontecia.

Mortas e enterradas as provas de recuperação surgiu mais uma maravilha: os planos individuais de trabalho. Servem para o mesmo que as provas de recuperação, as consequências em última análise e em muito última, podem levar a uma situação menos doce mas enquanto isso os professores vão-se arrastando numa teia infindável de papelada, reuniões com os pais, cartas e mais cartas e os alunos felizes da vida contando com a almofada que a lei permite. Não é de admirar que cheguem ao mundo do trabalho com manhas. Até aí ninguém lhes apontou a porta de saída se não cumprirem. Foi-lhes sempre dada uma segunda, terceira oportunidade e os professores sempre lestos para cumprir a lei e os pais justificar o injustificável, algumas faltas. Se não estamos a criar preguiçosos irresponsáveis não sei o que estamos a fazer.

Também aqui.

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8 comentários

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De José da Xã a 14.02.2012 às 16:10

Leonor,

só hoje li o seu escrito. E parece-me que uma vez mais está coberta de razão.
Quando andei na escola apanhei o 25 de Abril a meio do Liceu. Mesmo nessa altura conturbada da nossa sociedade, os professores ensinavam e os alunos aprendiam (os que queriam, obviamente!). As notas na pauta reflectiam, com alguma segurança, os conhecimentos adquiridos pelos alunos. Os professores eram pessoas respeitadas por todos: pelo ministério, pelos pais e pelos alunos. Ainda hoje sinto saudades de alguns desses (bons) professores.
Hoje ensinar é uma profissão de (muito) risco e altamente desgastante. Estou certo que se eu fosse professor só o seria um par de horas, tal é a vontade que tinha em educar "à força" alguns miúdos. Os alunos vão à escola, não para aprender, mas para passar simplesmente o tempo. Depois, mais tarde, no mercado de trabalho são umas nódoas, que não sabem falar nem escrever e dizem um ror de disparates como de verdades absolutas se tratassem.
Quando os meus filhos eram pequenos e chegavam a casa com notas menos boas, nunca critiquei os professores mas sempre lhes tentei fazer ver que o problema estava neles e no pouco trabalho que tinham em estudar.
Hoje já homens a acabar a universidade, reconhecem que o estudo e o trabalho são fonte de sabedoria (quem diria?). E lamentam-se do tempo perdido entre GameBoys e computadores.
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De Leonor Barros a 14.02.2012 às 19:11

Muito obrigada por ter lido, José. O post é longo e com 'eduquês' a mais mas foi a minha função de Directora de Turma que o escreveu.
O problema, quanto a mim, um deles, pelo menos, é o laxismo que a lei permite. Está a prestar um mau serviço aos jovens e um péssimo serviço ao país. Hoje numa conversa com um ralhete à mistura que tive com os meus alunos descobri algo inédito: não querem crescer, daí a irresponsabilidade. Que um ser humano não almeje à independência é assustador. Com 16, 17, 18 anos, os meus alunos não querem e estão convencidos que há sempre alguém que lhes vai aparar as quedas. Muito preocupante.
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De José da Xã a 14.02.2012 às 23:53

Leonor,

tinha 18 anos quando tive de tomar uma decisão que alterou irreversivelmente a minha vida. Lembro-me dessa tarde/noite como se fosse hoje.
E agradeço ao meu pai e à minha mãe terem-me obrigado a decidir.
Hoje a juventude está em casa até muito tarde. Prendem-se às mordomias dedicadas dos pais e jamais ousam "voar". As decisões são para os outros as tomarem.

Quanto à educação, esta é (ou devia ser) o principal pilar no crescimento de um país. Sem ela ficamos reféns de outros que apostaram numa educação rigorosa. Hoje a palavra rigor está associada à palavra imposição. Puro engano!

Em Portugal o facilitismo é o maior fracasso da nossa educação. Mas foi um Estado irresponsável e sem visão de futuro que assim o quis.

Recordo a minha prova da quarta classe (ainda guardo a caneta de tinta permanente com que escrevi a prova!); os exames no ciclo preparatório e muitos outros que fiz pela vida fora. Os livros que me obrigaram a ler e que hoje fazem parte de mim. Aprendi latim, História de Portugal (mal contada, é verdade!), Geografia e Matemática. Hoje nada disso seria possível...

Quarenta anos passados sobre alguns dos acontecimentos atrás relatados, olho para a escola actual e sinto uma certa amargura. Os professores (claramente mal pagos) vêem-se confinados a dar uma matéria tão simples quanto possível e a exigir de cada aluno quase o mínimo (não se pode pedir demais às crianças!!!).

Não sei se o novo Ministro Nuno Crato trará algumas melhorias. Ainda é cedo, creio!
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De Leonor Barros a 15.02.2012 às 17:13

Tenho esperança que Nuno Crato mude algumas coisas, José. Gostei da proposta para alteração da gestão das escolas, desta decisão em relação aos exames e na reforma curricular as mudanças no Ensino Básico também não me parecem mal. Acho mal que os alunos, com o perfil que lhes conhecemos, passem a ter apenas 4 disciplinas no 12º ano e que não haja mais investimento no Português. Isto para dizer que estou relativamente optimista, mas uma coisa lhe garanto, até ao 10º ano os alunos não são obrigados a pensar e a fazer raciocínios elementares. Hoje admoestei uma aluna que estava a mexer no telemóvel. Justificou-se que ia fazer uma conta e mostrou-me a conta: 39 a dividir por 3. Quando lhe respondi concluiu, "Vê, stora, eu nunca devia ter ido para MACS" (Matemática Aplicada às Ciências Sociais), como se fosse uma complexa operação matemática. E é assim em mais coisas. Se as crianças hoje em dia são bem mais espertas do que nós éramos não se admite que cheguem assim ao Secundário. Algo correu mal.
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De José da Xã a 15.02.2012 às 22:34

O investimento no Português e na Matemática (duas disciplinas fundamentais no ensino) devia ser feito a fundo a partir da primária (ou básico como sói dizer-se, actualmente). As máquinas de calcular (e os telemóveis) são usados desde muito cedo para ajudar na resolução de problemas matemáticos.
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De Leonor Barros a 15.02.2012 às 23:20

Sim, claro, mas tendo em conta a situação actual devia ser continuado. Não passa um dia sem que os meus alunos me perguntem o significado de uma palavra em português. Impressionante, a falta de vocabulário.
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De Teresa Ribeiro a 14.02.2012 às 22:20

Só agora te li, Leonor. Quem está de fora não conhece os detalhes, por isso acho muito bem que nos contes, mesmo em posts mais longos :) Ajuda-nos a fundamentar opiniões. Sobre a qualidade do ensino, as políticas adoptadas e o vosso papel no meio disto tudo.
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De Leonor Barros a 14.02.2012 às 22:52

O problema é sempre o mesmo, Teresa, manobras de diversão para fazer boa figura no exterior. Foi assim com Maria de Lurdes Rodrigues e continuou com a Alçada. Tenho esperança de que o Crato acabe com isto mas temo que não consiga. Há que criar alternativas, mais cursos profissionais mais virados para o mundo laboral e acabar com estas tretas. Não estão a ajudar os alunos a crescer. Não ajudam o país.

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