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A Rainha

por Pedro Correia, em 05.02.12

 

"A dissimulação é a ciência dos reis."

Richelieu

 

Quando ela ascendeu ao mais alto cargo do seu país, José Estaline era ainda o senhor absoluto da Rússia vermelha. Nos Estados Unidos, mandava Harry Truman, então sem saber o que fazer dos soldados atascados no inferno da Coreia. E na Grã-Bretanha o primeiro-ministro era Winston Churchill, herói da guerra.

Ela viu tudo, ouviu todos. Quando se sentou no trono herdado de seu pai, Mao Tsé-Tung mandava na China continental, Chiang Kai-Shek pontificava na Formosa, Hirohito mantinha-se como imperador do Japão mesmo após a rendição do seu país aos pés do general Douglas MacArthur. Havia nessa altura outros imperadores no mundo: Hailé Selassié na Etiópia, o xá Reza Pahlevi no Irão. As monarquias eram em número bem superior ao actual: havia-as da Grécia (com o rei Paulo) ao Egipto (com o rei Faruk). E até na Líbia do rei Idris, que um tal coronel Kadhafi viria a derrubar 17 anos mais tarde, em 1969.
 
Nesse mês de Fevereiro de 1952, quando a jovem Isabel se tornou Rainha da Grã-Bretanha, com apenas 25 anos, o planeta era governado por figuras que hoje têm lugar garantido nos livros de História: Sukarno na Indonésia, Perón na Argentina, Tito na Jugoslávia, Franco na Espanha, Nehru na Índia, Ben-Gurion em Israel, Getúlio Vargas no Brasil, Salazar em Portugal. Conheceu muitos deles, numa sucessão de encontros ao longo de 56 anos – tempo suficiente para ter visto aparecer e desaparecer Elvis Presley, os Beatles e os Pink Floyd. Coexistiu com seis Papas (Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II e Bento XVI), oito presidentes franceses (Vincent Auriol, René Coty, De Gaulle, Pompidou, Giscard d’Eistang, Mitterrand, Chirac e Sarkozy), oito chanceleres alemães (Adenauer, Erhard, Kiesinger, Willy Brandt, Helmut Schmidt, Kohl, Schroeder e Angela Merkel), 12 presidentes norte-americanos (Truman, Eisenhower, Kennedy, Johnson, Nixon, Ford, Carter, Reagan, Bush pai, Clinton, Bush filho e agora Obama). E 18 chefes do Estado brasileiros – de Getúlio a Dilma. E oito presidentes de Portugal (Craveiro Lopes, Américo Thomaz, Spínola, Costa Gomes, Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva) e 17 primeiros-ministros portugueses, da ditadura ao actual regime constitucional, passando pelo período revolucionário, onde em menos de dois anos houve seis Executivos.
 
Sábia, serena, sibilina, Isabel II foi reinando ao longo de todo este tempo de convulsões no mundo. Assistiu a guerras no Congo, no Vietname, no Biafra, no Médio Oriente e nos Balcãs. Testemunhou a descolonização de África, a chegada do homem à Lua, o desmoronar do bloco soviético. Viu as monarquias chegarem ao fim em países tão diferentes como o Iraque, o Afeganistão e o Nepal. Trabalhou com 12 primeiros-ministros – oito conservadores (Churchill, Anthony Eden, Harold MacMillan, Alec Douglas-Home, Edward Heath, Margaret Thatcher, John Major e David Cameron) e quatro trabalhistas (Harold Wilson, James Callaghan, Tony Blair e Gordon Brown).
Churchill não escondeu a ternura paternal que sentia pela jovem monarca. Ela retribuía-lhe a simpatia, sem quebrar o rígido dever de imparcialidade que os costumes do reino lhe impõem, mas não falta quem garanta que o primeiro-ministro favorito dela foi Harold Wilson, com os seus ares de filósofo de cachimbo na swinging London dos anos 60. E que Thatcher terá sido a líder do governo que mais detestou. A verdade sobre isto e tudo o resto não será apurada num livro de memórias com selo real. Isabel II, a monarca britânica que mais anos reinou desde a Rainha Vitória, nunca escreverá esse livro.
Num mundo em mutação, onde tudo passa, tudo se esgota e tudo se esquece, ela é uma referência de estabilidade. Lembramo-nos dela desde sempre, são já poucos os que conheceram outro chefe do Estado no Reino Unido. O tempo dela foi sulcado por todas as modas – do chapéu de coco ao punk, passando pela mini-saia de Mary Quant. Só ela nunca passou de moda.
 
O que sente, o que pensa, o que esconde? Só ela sabe: por detrás do suave sorriso protocolar, subsiste a esfinge nesta monarca que ninguém tem a ilusão de conhecer. "A dissimulação é a ciência dos reis", dizia o cardeal Richelieu. Uma legenda que bem se aplica a Isabel II, Rainha do Reino Unido, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Jamaica, Barbados, Bahamas, Granada, Papuásia-Nova Guiné, Ilhas Salomão, Tuvalu, Santa Lúcia, São Vicente e as Granadinas, Belize, Antígua e Barbuda, e Saint Kitts and Nevis.
 
Isabel II subiu ao trono a 6 de Fevereiro de 1952, por morte de seu pai, Jorge VI. Faz amanhã 60 anos.

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16 comentários

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De xico a 05.02.2012 às 14:47

A/o único/a político/a que me merece respeito e admiração. Uma mulher que abdicou da vida para se pôr ao serviço do seu país. Lembrar que esta mulher, uma das mais ricas do mundo, nunca pôde passear-se pelas ruas de Paris às compras, nem nunca pôde passar férias fora do seu reino. Uma vida completamente devotada aos outros. Quem se chega à frente para a comparação?
Um episódio com o arcebispo da Cantuária vinca a sua personalidade: Num encontro com o arcebispo, perguntou-lhe se bebia algo. Depois serviu-o. O arcebispo perguntou-lhe se ela não o acompanhava. Ela respondeu: não, estamos na quaresma!
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De H. a 05.02.2012 às 17:44

A Rainha Isabel II é incomparável, um exemplo de dignidade, espírito de serviço e de sacrifício tão pouco habituais hoje em dia.
E a Chefe de Estado do mais velho aliado de Portugal, descendente - não podia deixar de ser! - de D. Afonso Henriques, e de João de Gant, o pai de D. Filipa de Lencastre.
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De Ana Paula Fitas a 05.02.2012 às 19:48

Caro Pedro Correia,
Fiz link... e agradeço.
Um grande abraço.
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De Pedro Correia a 06.02.2012 às 00:04

Obrigado pela simpatia de sempre, cara Ana Paula.
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De Ana Vidal a 05.02.2012 às 23:31

Muito bem lembrado, Pedro. A rainha Isabel é uma personagem incomparável, uma das últimas da sua espécie. E o teu texto faz-lhe inteira justiça.
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De Pedro Correia a 06.02.2012 às 00:01

Ao longo destes 60 anos ela esteve sempre lá, Ana. Muitas vezes mal se dando por ela - o que constitui uma prova suplementar do seu sentido de Estado, acima dos jogos políticos. Um referencial de estabilidade e de prestígio num Reino Unido que continua a ser um dos países mais invejáveis do mundo. Não é necessário ser monárquico para reconhecer isto: basta estar de boa fé para prestar justiça a este longo reinado.
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De macarvalho a 05.02.2012 às 23:35

Fantástica esta pequena biografia-resumo, excelente mesmo.
Não sendo uma pessoa totalmente do meu agrado, pela excessiva frieza ou até alguma rigidez, rendo-me, evidentemente, a todo este passado histórico, aos acontecimentos dos últimos sessenta anos, a toda uma atitude sem mácula na convivência com personalidades tão distintas, e mais que tudo, ao papel que decidiu cumprir com toda a dignidade, sendo tão jovem.
A sua discrição ao longo de toda a vida será sempre um exemplo. Quaisquer que fossem as "ofensivas", para o bem ou para o mal.
De alguma forma, poderei até considerá-la uma rainha moderna, apesar de vermos sempre a monarquia britânica como estática e ultrapassada.
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De Pedro Correia a 06.02.2012 às 00:06

É um exemplo, Alexandra. Oxalá quase todos os outros países do mundo tivessem no posto cimeiro das suas estruturas de representação política - em sistema monárquico ou republicano, tanto faz - alguém com o sentido do dever, a contenção, o equilíbrio, a sabedoria e o bom senso de Isabel II.
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De Henrique Pimentel a 06.02.2012 às 02:33

Caro Pedro Correia, parabéns pelo post! É bem merecido que Isabel II seja falada neste blog no dia em que completa 60 anos no trono.
A Rainha é uma mulher extraordinária, por vezes fora do nosso alcance. É um símbolo de estabilidade, continuidade, prestígio e serviço à nação inglesa, e o mais extraordinário é que a longevidade que leva no trono não faz dela um resquício de outra época, bem pelo contrário, tem sabido manter-se estas 6 décadas à frente da Inglaterra que não por acaso tem atravessado um dos períodos de maior prosperidade, tal como no reinado da sua avó Victória. Revi há muito pouco tempo o filme “A Rainha”, épico pelo período de que trata e pela protagonista claro. Naquela semana fatídica da morte de Diana, ela vê abalada a ideia que tinha do seu povo estóico e reservado nas suas emoções, mas apercebendo-se da mudança distinguiu até onde ia o verdadeiro sentimento do povo e o que era enfatizado e orquestrado pelos Media, cedendo assim somente o necessário, naquela atitude que faz dela a verdadeira e natural provedora do povo. Relembro o elogio que Tony Blair lhe fez nos seus 80 anos em que dizia: “a continuidade da monarquia oferece enorme segurança, pois seja o que for que se passe na politica, a serenidade isenta da Soberana é a melhor garantia da estabilidade(…) para qualquer 1º Ministro acabado de chegar ao poder não há melhor suporte do que uma Monarquia Constitucional Democrática”. É de facto uma lição e, claro está, que grande parte das suas qualidades são partilhadas pela restante realeza europeia e vale a pena mencionar as suas congéneres Beatriz da Holanda e Margarida da Dinamarca, duas outras mulheres sentadas num trono e que bem têm sabido conduzir os destinos dos seus países. Esperemos que por muito anos possamos ver Isabel II e uma coisa é clara, no dia em que nos deixar o Mundo vai parar!
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De Pedro Correia a 06.02.2012 às 14:45

Obrigado pelas suas palavras. Revejo-me, naturalmente, em muito do que aqui escreveu. E não é preciso sequer sermos monárquicos para reconhecermos como tem sido positivo o reinado de Isabel II. Não só na Grã-Bretanha, mas também em países tão diversos como a Austrália, o Canadá, Jamaica e Nova Zelândia.
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De Nuno Resende a 06.02.2012 às 16:04

Há dias o jornalista José Manuel Fernandes elogiava o trabalho humanitário da princesa Adelaide de Bragança com uma nota: "não sou monárquico". Seguiram-se várias réplicas. Muitos exclamavam: "não sou monárquico mas..." como o Pedro Correia fez aqui, creio que 2 vezes. De onde vem este "nojo"? É peçonha que se pega, como a lepra, só arremedada com um "t'arrenego"? Nos dias que correm eu prefiro ser monárquico a ser fascista ou comunista. Mas talvez seja uma questão de ignorância. Os republicanos sempre invocam o progresso como arremessso contra os monárquicos. Está visto que o sistema republicano é coisa de gente velha e caduca, como a rainha Isabel II. Admira-te que no Reino Unido não se coma com as mãos e de salte de árvore em árvore.
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De Pedro Correia a 06.02.2012 às 16:34

Não disse que sou nem que deixo de ser. Disse - está escrito mais acima, nesta caixa de comentários - que não é necessário ser-se monárquico para se reconhecer a relevância do reinado de Isabel II. Esse reconhecimento, quando é expresso por alguém que não se declara monárquico, torna o elogio ainda mais insuspeito.
Tudo o que resto que traz aqui ('peçonha', 'lepra', 'nojo') nada tem a ver, obviamente, com a letra ou o espírito do que escrevi. Até pode estar certo, mas entrou na caixa de comentários errada.
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De Nuno Resende a 06.02.2012 às 19:20

Não pretendi ofender. Simplesmente há sempre a tentação de ressalvar que não se é monárquico, mesmo quando se aborda a questão como o Pedro abordou - como se ser monárquico significasse abdicar de valores democráticos ou politicamente sérios. Esse preconceito é, aliás, a causa do republicanismo primário com que a maioria dos portugueses encara o tema monarquia, cumulando-o de clichés perfeitamente irrisórios.
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De Pedro Correia a 07.02.2012 às 00:59

«Como se ser monárquico significasse abdicar de valores democráticos ou politicamente sérios», lamenta o Nuno. Não penso assim, de forma alguma. Nem poderia escrever o texto que escrevi se pensasse desse modo.
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De Henrique Pimentel a 07.02.2012 às 22:36

Nem mais! Alias ela é e vai ser uma das grandes monarcas da História pela interiorização da condição de realeza, nem por 1 segundo se pode dizer que ela se esqueceu de que é Rainha. Por fim, acho a esta sua frase sublime: "O tempo dela foi sulcado por todas as modas – do chapéu de coco ao punk, passando pela mini-saia de Mary Quant. Só ela nunca passou de moda." Mais uma vez, parabéns!
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De Pedro Correia a 08.02.2012 às 00:11

Obrigado, Henrique. Vá passando por cá. Esta casa também é sua.

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