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O respeitinho é muito bonito

por Pedro Correia, em 01.02.12

 

"Há que reflectir sobre o paradigma deste futebol."

"A boa colocação das linhas virtuais permite-nos fazer a avaliação certa dos lances."

"O clube não conseguiu traduzir a intensidade do seu jogo."

"Há jogos com outra intensidade competitiva."

"Essa resignação pode ser uma projecção da falta de exigência mais acima e de uma liderança mais efectiva em termos de balneário."

"A equipa não tem níveis de coesão suficientes para introduzir um jogador tão jovem."

"Caiu numa zona de bloqueio da qual vai ter de sair."

"Tem de integrar-se na filosofia colectiva da equipa que representa."

"As grandes equipas da Europa conseguem atingir níveis exibicionais significativos."

"O conceito do treinador baseia-se numa marcação mais subida."

"Do ponto de vista do esqueleto táctico, a disposição no terreno faz sentido."

"São dois jogadores verticais que dão mais profundidade à equipa."

"O jogador X mostrou um ritmo baixo, mostrou alguns pormenores."

"Queremos contribuir para um futebol menos macrocéfalo."

"O futebol é uma lógica de conjunturas."

 

Perceberam?

Eu também não. É uma espécie de dialecto autónomo, só praticado por alguma gente da bola e que tem como principal cultor um jornalista televisivo capaz de rivalizar em fôlego com Fidel Castro, que em 1998 falou sete horas e um quarto sem parar na Assembleia Nacional cubana, ou Hugo Chávez, que no passado dia 14 discursou igualmente sem parar durante nove horas e meia no Parlamento de Caracas.

Quem não seja iniciado neste jargão muito particular dos "níveis exibicionais", do "esqueleto táctico" e da "intensidade competitiva" mantém-se totalmente à distância. Porque o dialecto acima transcrito, ao contrário da esmagadora maioria dos restantes, não foi criado para comunicar: existe para cavar um fosso deliberado entre o seu inventor e o comum dos mortais. A razão? Incutir respeito. Ou respeitinho, mais à portuguesa.

É uma receita infalível. Porque, em regra, os portugueses só respeitam o que não entendem. E aqui entre nós: quem é que entende minimamente o que significa "filosofia colectiva", "zona de bloqueio", "jogadores verticais" e "marcação subida"?

O respeitinho é muito bonito.

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20 comentários

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De Helena Sacadura Cabral a 01.02.2012 às 19:24

Percebe ele, o rapaz da brilhantina...
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De Pedro Correia a 01.02.2012 às 22:12

Uma mente brilhante.
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De José Navarro de Andrade a 01.02.2012 às 19:32

Não fosse o frasco de óleo Fula e ficaria confuso, é que há outro que fala quase assim. Mas do que eu gosto mais é aquela maneira de proferir truísmo como quem revela descaradas verdades. Um cromo de truz.
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De Pedro Correia a 01.02.2012 às 22:53

Julgo saber que o óleo utilizado agora é outro. Agora é Óleo Djaló.
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De Ana Vidal a 01.02.2012 às 19:36

Ah, não digas mal do rapaz. Tem o mérito de manter-me - a mim, que detesto futebol - agarrada ao ecrã sem conseguir mudar de canal, só para tentar decifrar o que ele diz. Aquele homem é um prodígio.
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De Helena Sacadura Cabral a 01.02.2012 às 19:56

Aquele cabelo mata-me!
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De Ana Vidal a 01.02.2012 às 20:05

E a pose de intelectual? E a segurança com que debita os seus aforismos para a posteridade? Um caso sério, é o que vos digo.
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De Pedro Correia a 01.02.2012 às 22:58

Questiono-me sempre se aqueles óculos são graduados ou servem apenas de adereço para reforçar o perfil de Grand Penseur.
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De Outside a 01.02.2012 às 20:06

5 estrelas Pedro Correia.
Assim escrito/aferido (muito bem), não contextualizado (até porque para esse Ser o contexto é irrelevante face à sua mestria não docente) onde se espelha o verdadeiro objectivo/desejo desse Ser...respeitinho porque vocês(nós) à escuta não entendem nada do que declamo e mais esse Ser afiança...que nunca ou jamais se engana.

Excelente post (acutilante e aqui sim, inolvidável).

Fique bem
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De Pedro Correia a 01.02.2012 às 23:06

Outside mas não 'offside'. Obrigado pelas suas palavras.
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De João Carvalho a 01.02.2012 às 20:19

O jornalista afecta-me a saúde. Cansa-me imenso.
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De Pedro Correia a 01.02.2012 às 23:04

Do meu ponto de vista, a intangibilidade do esférico decorre das sinuosidade tecnico-tácticas adjacentes à linearidade do relvado e a verdade desportiva depende em alto grau e larga medida da disponibilidade de todos os agentes envolvidos na condução do processo dentro das quatro linhas de jogo mas principalmente nas estruturas que enquadram este fenómeno capaz de mobilizar a massa adepta e também os milhões que se acumulam sobre as mesas directivas em razão do qual eu não me calarei e sempre relatarei aqui tudo quanto sei e julgo saber ou talvez nem saiba nada por aí além mas mesmo assim contem com a minha voz que ressoará qual trombeta contra a investida castelhana nos plainos de Aljubarrota naquele ano em que a Ala dos Namorados conquistou a Taça Ibérica.

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De Helena Sacadura Cabral a 02.02.2012 às 13:28

Pedro
Um dia eu também quero escrever assim!
Percebi tudo, apesar do mixt dos conceitos envolvidos que perpetuam estruturas em que assenta a verdade desportiva, sobretudo quando norteada pela sinuosidade técnica da batalha de Aljubarrota e eivada do espírito da Ala dos Namorados.
É ela, aliás, que determina a intangiblidade do esférico que se enquadra no fenómeno de mobilização das massas que a Federação, por inépcia, tarda em perceber!
Julgo que estarás de acordo comigo.
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De Pedro Correia a 02.02.2012 às 14:57

Pois, Helena. Na verdade, as incidências no relvado desencadeadas pelas contingências tecnico-tácticas do onze dominante foram claramente demonstrativas do que venho referindo em razão do qual em equipa que ganha não se mexe e em boca fechada não entra mosca.
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De Rui Rocha a 02.02.2012 às 11:37

Brilliant, Pedro.
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De Pedro Correia a 02.02.2012 às 14:59

Já dizia o Aristóteles, Rui: Diz-me que brilhantina usas, dir-te-ei como pensas.
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De Antifalsidades a 02.02.2012 às 12:08

Em 2010 durante o Mundial tive o "trabalho" de escrever algumas pérolas do L. F. Lobo que não fica nada atrás deste cavalheiro:

http://antifalsidades.blogspot.com/2010/08/ha-por-ai-muitos-jacques-roussseau-ate.html

http://antifalsidades.blogspot.com/2010/07/ha-por-ai-muitos-jacques-roussseau-ate.html
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De Pedro Correia a 02.02.2012 às 15:00

Tudo depende da marca da brilhantina que se usa. Se não for a certa, a análise sai torta.
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De André Miguel a 03.02.2012 às 13:37

Aqui está um post que é um verdadeiro golaço pela esquadra.
Uma verdadeira jogada de antologia, capaz de driblar a maior muralha defensiva do universo futebolístico. Genial.
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De Pedro Correia a 09.02.2012 às 13:33

Os melhores golos são os do Rinaudo, André Miguel.

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