Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




O que ando a ler (24)

por José Navarro de Andrade, em 26.01.12

Somos o único bicho incapaz de dormir ao relento. Somos também o único animal que lê na cama. Um livro bom de se ler deitado há-de ser suficientemente cativante para impedir que nos deixemos distrair por outras solicitações que possam surgir, como por exemplo, enfim, isso, mas também suficientemente magnânimo para nos permitir que deslizemos em paz para dentro do sono.

Nem toda a arte, neste passo a literatura, tem que ser um espinho cravado na consciência ou um tiro na cabeça. É um bocado redutor enfiá-la nessa caixa e dela não a deixar sair. Pode ser assim, pode ser assado, seja como o escritor quiser. Pode ser uma tentativa de atingir o Belo (uma proposta demodèe nos dias correntes), pode querer comover-nos, ou consolar-nos, ou apenas retirar-nos, durante o tempo que temos o livro entre mãos, da nossa amarga realidade e transportar-nos para outros lugares. Pode ser ainda uma forma de pôr em ordem uma parte do mundo que ficou por arrumar; pelo menos na cabeça de quem o escreve e de quem o lê.

Atrevo-me a considerar que todas estas formas são equivalentes em nobreza quando conseguem atingir aquilo a que se propõem. Atrevo-me ainda mais a dizer que “Os Espiões” de Luis Fernando Veríssimo é bom para ler na cama. Espero que percebas, ó sereno leitor, que estou a elogiar o livro e também espero que não te passe pela cabeça que faço o elogio da literatura light; suplico-te um esforço aristotélico para que não baralhes categorias, como tão amiúde se faz por preconceito e precipitação, ou apenas porque há quem não dê para mais.

“Os Espiões”:

Um enredo que no dizer do protagonista é digno de John le Carré, sobre uma misteriosa escritora que assina como Ariadne, logo eruditamente remetendo para os olimpos da mitologia, acaba desmistificado por na verdade decorrer à copofónica mesa de um botequim manhoso de Porto Alegre. Vidas conformadas, boémia de bairro, cosmopolitismo intelectual de meia tigela, tudo isto também é desmobilizado pela prosa irónica mas sem sobranceria, generosa com as personagens mas sem complacência, enfim divertida – palavra caída em desuso e normalmente substituída por “fluente” ou “conciso”.

Não sendo novidade, “Os Espiões” é novo de 2009. E guardado estava o bocado, pois Luis Fernando Veríssimo que nunca me cativara nas crónicas publicadas no “Expresso”, veio agora vencer-me com “Os Espiões”. Retrocedo, relerei as crónicas e retracto-me.

Mão amicíssima em boa hora mo fez chegar aos olhos, porque isto é da melhor literatura portuguesa actual. Portuguesa? Mas Luis Fernando não é brasileiro, descendente do anti-presbítero Érico? Sim, mas a nossa língua é só uma e só há a perder dividi-la pelos continentes. Boas noites.


14 comentários

Sem imagem de perfil

De MCS a 26.01.2012 às 18:44

"Somos também o único animal que lê", Ponto.
(pelo menos que eu tenha conhecimento...)
Imagem de perfil

De José Navarro de Andrade a 26.01.2012 às 19:31

E colocou o ponto muito bem. Mas talvez seja mais fácil uma besta ler de pé do que deitada.
Sem imagem de perfil

De MCS a 26.01.2012 às 20:18

"Mas talvez seja mais fácil uma besta ler de pé do que deitada." !! Isto é dirigido a quem?!
Imagem de perfil

De José Navarro de Andrade a 27.01.2012 às 10:16

A si de certeza que não.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 26.01.2012 às 19:51

Não li "Os Espiões" mas gosto do que escreve o LF Veríssimo. E a leveza, em literatura, nem sempre é traduzível nesse conceito que agora inventaram e a que chamam "light". Aliás, há muita literatura "light" de cortar veias, literalmente.
Quanto ao resto... um livro que nos impeça de sucumbir a outras solicitações na cama não é, por definição, um livro "bom"! :-)
Imagem de perfil

De José Navarro de Andrade a 27.01.2012 às 10:17

ai as tentações...
Sem imagem de perfil

De xico a 26.01.2012 às 20:07

Somos o único bicho incapaz de dormir ao relento? Bem desconfiava que eu, e os sem abrigo, devemos ser alienígenas. Na altura em que era jovem, muita vez dormi ao relento. E na cama, qualquer solicitação é melhor do que a leitura. A leitura, por melhor que seja, na cama só deve fazer-se na falta de outras solicitações. Nunca em vez de. Já dizia Camões: Melhor é experimentá-lo que julgá-lo, mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.
Como não leio de pé, espero que o autor não me apelide de besta, embora Pessoa escrevesse de pé, e talvez lesse o que escrevia.
Sem imagem de perfil

De c. a 26.01.2012 às 23:29

Será que um inglês clamará para a literatura inglesa Scott Fitzgerald? Creio que não, por ele ser... norte-americano.
Algum espanhol pediu para Espanha o grande Borges? Creio que não, já que era... argentino.
Não percebo estes exercícios de apropriação.
Revivalista angústia de separação?
Faz lembrar aquelas pessoas que apenas conseguem gostar do que é deles.


Imagem de perfil

De José Navarro de Andrade a 27.01.2012 às 10:22

Gosto do que é meu, precisamente: a língua, não o país.
Sem imagem de perfil

De jarrra a 27.01.2012 às 00:07

Como é sabido os cães são os únicos animais que conseguem ler ao relento - Luís Fernando dixit.
Imagem de perfil

De José Navarro de Andrade a 27.01.2012 às 10:18

Se Luis Fernando diz então é porque é.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 27.01.2012 às 09:31

"Somos o único bicho incapaz de dormir ao relento."

!!!

Eu fiz uma vez uma excursão de mais de uma semana em que não levei tenda e dormi ao relento todas as noites. E não tive insónias.
Imagem de perfil

De José Navarro de Andrade a 27.01.2012 às 10:24

ah grande Luís! Todo nuínho em pêlo como a fauna do bosque? E não se constipou?
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 27.01.2012 às 10:31

Se o conceito que o José faz de "dormir ao relento" é "dormir nu", então podemos generalizar a perspicaz observação citada e dizer que "somos o único bicho incapaz de andar nu, tanto de noite como de dia, tanto a dormir como acordado".

Comentar post



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D