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O olhómetro

por Teresa Ribeiro, em 24.01.12

 

Neste fim-de-semana adoeci. Sempre que tal acontece procuro resolver a crise recorrendo à minha farmácia caseira e ao know-how que com o tempo ganhei no tratamento de viroses e cenas afins. Mas no domingo a tosse era tanta que decidi recorrer à Linha Saúde 24. Debalde. A senhora que me atendeu, muito simpática, recusou-se a aconselhar-me o tratamento, argumentando que eu devia ser vista por um médico. A ideia não me entusiasmava, mas percebi as suas razões. Aquela tosse persistente que me partia em duas merecia honras de auscultação, just in case.

Lá fui a um centro de saúde, destes que têm urgência ao fim-de-semana. Penei três horas. Por fim, lá tive os meus cinco minutos de protagonismo. Enquanto me queixava da minha tosse de guincho e fazia olhinhos para o estetoscópio, achei que não perdia nada  em dizer que estava ali a conselho da Linha Saúde 24: "Disseram-me que devia mesmo ser vista por um médico. Do you know what I mean?"

Fiz bem. A médica levantou os olhos do que estava a escrever desde que começara a consulta e fitou-me. A sua expressão dizia-me: "O que tu queres sei eu!" E quando se levantou na minha direcção rejubilei. Finalmente. As minhas três horas de espera não tinham sido em vão.

Mas em vez de pegar no meu objecto de desejo a senhora abeira-se de mim e pede para lhe mostrar a goela. Espreitou e fez-me saber que estava muito inflamada. Ainda bem que mo disse.

A seguir mete-me a receitinha na mão e estima as minhas melhoras. Mais nada. Três horas para me espreitar a garganta. Da receita constava paracetamol entre outras drogas que dispensam prescrição médica, o que aumentou ainda mais a minha frustração. Nem para aviar aquela receita eu precisava de ter passado pela consulta. Enfim, mas tinha sido vista por uma médica, isso ninguém podia negar. Ela viu-me e eu vi-a. Em Portugal "ver doentes" é uma expressão que pode ser tomada à letra. Cientes de que a Medicina não é um ciência exacta, os médicos portugueses, quando são mesmo bons, dispensam os meios auxiliares de diagnóstico. Estetoscópios? Raio x? Para quê se podem usar o olhómetro?

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29 comentários

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De Leonor Barros a 24.01.2012 às 15:19

Exactamente. Aconteceu com a minha mãe. Setenta e cinco anos, um desmaio e uma queda de cabeça em casa. Levo-a ao centro de saúde. O médico manda-lhe fazer um RX, olha para o dito cujo mas para ela, zero. Como felizmente não tinha um traumatismo, nem algo para o hematoma, enorme, diga-se de passagem, lhe deram ou sequer viram se, por acaso, teria mais alguma coisa ou se precisava de cuidados. Se pudesse escolher tinha-me ficado pelos bombeiros que foram inexcedíveis. O problema é que não têm RX ou TAC. Nem queria acreditar.
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De Leonor Barros a 24.01.2012 às 15:20

As melhoras, Teresa. Beijinho
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De Teresa Ribeiro a 24.01.2012 às 19:28

Obrigada, Leonor. Pois, o que se passou com a tua mãe encaixa no quadro que descrevi. Uma tristeza este SNS.
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De Desconhecido Alfacinha a 24.01.2012 às 17:07

Sinceros desejos de rápidas melhoras!
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De Teresa Ribeiro a 24.01.2012 às 19:29

Obrigada, desconhecido :)
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De Ulisses a 24.01.2012 às 17:08

E já agora uma TAC, porque não?
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De Teresa Ribeiro a 24.01.2012 às 20:02

Tem razão, Ulisses (ou devo chamar-lhe dr Ulisses?)pretender ser auscultada numa urgência de um centro de saúde é capaz de ser tão disparatado como exigir uma TAC para diagnosticar uma unha encravada.
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De bruxo a 24.01.2012 às 17:26

A tosse só é precupante quando acompanhada de freve... caso contrário chama-se "tosse de cão" ( salvo seja)

Remédio caseiro:

2 cenouras às rodelas, cobrir com açucar mascavado e deixar ao relento dum dia para outro..no dia seguinte beber às colheradas com uma praga: Tosse vai ... para quem de mim quer mal... ( 4 vezes)
Remédio de bruxo...

Cada cole
Se persistir telefone-me

Bruxo

Remédio Santo.
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De Teresa Ribeiro a 24.01.2012 às 20:04

Obrigada pela receita. Se não tivesse febre não me tinha dado a tanto trabalho, bruxo.
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De Luís Lavoura a 24.01.2012 às 17:55

E que sabe a Teresa. Um bom médico, com bastante experiência, vê qual é a doença só com um olhar rápido ao doente. Para quê estetoscópio se se está mesmo a ver que a garganta está inflamada?

Eu quando vou ao meu médico fico sempre surpreendido com a rapidez e precisão infalível do seu diagnóstico. Ele perde pouquíssimo tempo a olhar para mim ou a fazer-me perguntas e diz-me logo qual é o mal de que sofro e o tratamento adequado. E nunca falha.
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De Teresa Ribeiro a 24.01.2012 às 20:08

Luís, da próxima vez que for ao médico pergunte-lhe se há alguma coisa que possa tomar para esse seu espírito de contradição.
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De Luís Lavoura a 25.01.2012 às 09:18

Eu não contradisse absolutamente nada, Teresa. Só lhe fiz notar que um bom médico tem muita experiência e não precisa necessariamente de estetoscópio.
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De Luís Lavoura a 25.01.2012 às 10:23

(É claro que um mau médico também não precisa de estetoscópio.)
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De Rómulo da Silva a 24.01.2012 às 21:57

Antigamente, para se elogiar um médico, dizia-se que ele tinha "um bom olho clínico". É que não havia TAC's, Ressonâncias Magnéticas ou quejandos; era mesmo a olho!
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De Teresa Ribeiro a 25.01.2012 às 00:15

Nem tanto, Rómulo. Nesses tempos, os médicos usavam os olhinhos mas também os ouvidinhos e as mãozinhas. Começando por escutar o que o doente tinha para lhes dizer e acabando com o ouvido encostado às suas costas para lhe sondar os "interstícios". Sendo necessário também usavam as mãos para fazer um exame mais completo. Outros tempos...
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De Rómulo da Silva a 25.01.2012 às 10:11

Mas principalmente conheciam o doente. Conhecíam-lhe os avós, os pais, irmãos. Em muitos casos tê-lo-iam acompanhado desde a nascença.
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De Pedro Correia a 24.01.2012 às 18:46

Boas e rápidas melhoras, Teresa.
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De Teresa Ribeiro a 24.01.2012 às 20:08

Obrigada, Pedro.
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De Isabel T. a 24.01.2012 às 19:05

A Teresa ainda teve alguma sorte,porque a médica viu-lhe a garganta,a ultima vez que fui ao centro de saude com uma tosse dessas,a médica mandou-me beber agua.
Ja agora ,rápidas melhoras.
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De Teresa Ribeiro a 24.01.2012 às 20:13

Pareceu-me que ela só espreitou a garganta porque lhe falei da Saúde 24. Não mencionei esse pormenor no post, mas essa linha até mandou um fax com o seu parecer, fax que mostrei à médica.
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De Cristina Torrão a 24.01.2012 às 19:23

«Em Portugal "ver doentes" é uma expressão que pode ser tomada à letra» - será que os médicos ganham em proporção com o número de doentes "vistos"?

Também te desejo as melhoras, Teresa.
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De Teresa Ribeiro a 24.01.2012 às 20:16

Informaram-me que os serviços de urgências ganham em comparticipações do Estado um X por número de doentes atendidos, sim. Ignoro se sobra algum para os médicos.
Obrigada, Cristina.
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De IsabelPS a 24.01.2012 às 19:44

Essa médica era muito à manivela. Até chegou ao pé de si para lhe ver a garganta, imagine-se! Isso de auscultar, tocar no doente e outras coisa que tais, já foi. Em qualquer parte do mundo por onde tenho andado.

Pensando bem, acho que nunca fui auscultada pela minha excelente, excelente médica que me tratou na estranja durante 20 e tal anos e me acompanhou em váriás moléstias (mas não muitas porque, à maneira dos antigos médicos chineses, dedicava-se mais a manter-me de boa saúde).
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De Teresa Ribeiro a 24.01.2012 às 20:24

Então, Isabel, estou muito mal habituada. Pois ainda frequento dois ou três que me dão esses mimos quando lá vou.

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