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Comissão de Serviço - XVIII

por Fernando Sousa, em 23.01.12

 

"MEU AMOR"

 

Um dia fui ao SPM – o Serviço Postal Militar.
Estava na guerra há meses e há semanas que L. não me escrevia.
(Escrevo estas linhas e rebobino os anos. Volto a ter 20. Entro, suado, nos correios militares de Nampula e pergunto por cartas para mim.)
1974. Está um calor de derreter as solas. Estou numa fila de magalas ansiosos. Dizem o nome e recebem o que chegou – ou não recebem nada e voltam a sair. Uns sorriem, outros encolhem os ombros.
Digo o meu nome. L. voltou a faltar.
 “Meu amor, meu amor, minha parte de mim.” Tenho-lhe escrito com tinta das veias. Esgoto os aerogramas. Impossível que não me pressinta! Mas também sorrio e saio. À noite volto a escrever-lhe.
(Os aerogramas eram folhas amarelas com asas, gratuitas.)
2012. Escrevi-lhe sempre. Esgotava-me a lembrá-la – linda! – e a contar-lhe os meus dias, e de como os meus olhos não pousavam em mais mulher nenhuma.
Um dia deram-me uma carta. Logo pela letra, era dela! Começava por um olá e pelo meu nome, e contava de como as ruas, aqui, estavam cheias e de como era urgente travar a reacção. E acabava com um beijo – só um.
Foi a última. Mas continuei a ir sempre que pude ao SPM. Não tinha mais aonde ir. Excepto para a guerra, que, vista daqui, passara de uma tragédia a um pormenor.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

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16 comentários

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De Antónimo a 23.01.2012 às 16:51

Saudosista!!!
Cada vez que me lembro dos bate estradas...vomito !
Baaaaaaaaahhhhhhhh...já estou com a crise !
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De am a 23.01.2012 às 22:38

É porque não tinhas noiva... famila... amigos..

É o primeiro militar que diz " vomitar com a lembrança dos "bate estradas" ...

Possivelmente eras um homem só!

Devemos sómente lembrar o "aérograma", como veiculo de comunicação... Nada de confusões.
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De Antónimo a 24.01.2012 às 14:23

Erraste em todas !
Mas estás perdoado.
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De Helena Sacadura Cabral a 23.01.2012 às 19:43

Belo texto. E ela, uma ingrata!
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De Fernando Sousa a 24.01.2012 às 13:19

Obrigado, Helena. Mas não, uma ingrata não, estávamos só em lados diferentes da história. E havia ainda a distância...
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De José Moura Pereira a 23.01.2012 às 22:15

Belo texto.
Ela tinha uma guerrinha em clima temperado...
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De ilda pontes a 23.01.2012 às 22:16

Não me olhe de esguelha... mas deixe-me dizer-lhe que
o meu coração gosta do seu coração... o meu ficou
agora alagadinho de ternura...
Lindo!, isso que escreveu! Eu adorava receber uma
carta de amor, mas só me escrevem sms malucos!!
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De Fernando Sousa a 24.01.2012 às 13:49

Deixou-me sem jeito, Ilda. Não, não a olhei de esguelha. Obrigado pelas suas palavras.
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De Ulisses a 24.01.2012 às 02:58

Na guerra em Nampula? Sim abelha.
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De Fernando Sousa a 24.01.2012 às 13:54

Não, guerreiro. Estive lá de férias.
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De Ana Vidal a 24.01.2012 às 16:26

Que belo texto, Fernando!
Mas não sejas severo com ela. Possivelmente estavam mesmo em lados - ou tempos - diferentes da mesma história. Lembro-me de que um amigo me pediu para ser sua "madrinha de guerra" (lembras-te da figura?) - e trocar com ele os ditos aerogramas durante a comissão de serviço que o esperava lá longe. Mas eu sabia que aquilo significava sempre um compromisso futuro, intensificado ainda por cima por esse drama de isolamento e desespero que vocês viviam em situação de guerra. E não aceitei, porque não quis mal-entendidos. Claro que não me teria custado nada ser um elo de ligação dele com o mundo "normal", mas eu não estava minimamente interessada na conclusão da história, pelo menos como ele a queria escrever...
Fiz bem. Arranjou outra por correspondência e lá casaram quando ele voltou, são e salvo. :-)
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De Fernando Sousa a 24.01.2012 às 17:49

Não fui severo com ela, nem sou. Estávamos realmente na altura em dois mundos diferentes, na velocidade e no lugar. Percebi isso ao voltar - será um dos últimos episódios desta série. Mas custou, como custou a tantos outros. Para mais quando, não, L. não era uma madrinha de guerra, era minha companheira já há vários anos.
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De Helena Sacadura Cabral a 24.01.2012 às 18:00

Meu caro Fernando
Isto de estar em lados diferentes da história é complicado. Às vezes significa, apenas, que estamos a viver histórias diversas, julgando que se trata da mesma...
A quem não aconteceu já? Mas, parece, fica sempre algo por desatar!
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De Fernando Sousa a 24.01.2012 às 19:21

Em lados - ou tempos, como apontou a Ana - diferentes, um onde tudo mudava, todos os dias, outro ansioso por um regresso que nunca o seria porque tudo estaria mudado. Como aconteceu. E sim, foi complicado, Helena.
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De Ana Vidal a 24.01.2012 às 19:21

Bom, isso é muito diferente. Mas esses tempos não deixaram ninguém igual ao que era antes.
Seja como for, gostei muito do teu texto.

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