Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




O que ando a ler (22)

por Fernando Sousa, em 20.01.12

 

Tomo estas notas a quente e frio, por causa de uma despedida e da temperatura que baixou, e por as duas coisas me terem lembrado umas férias de Verão, em 1966, de um imenso calor e de uma morte, de uma escultura de areia e de como a maré a desfez, seriam umas sete da tarde, isto para vos sugerir o que o uruguaio Felizberto Hernández levou a vida a fazer: a procurar, entre as palavras, os seus sentidos. Foi o autor que acabei de reler, porque a leitura é isso mesmo, voltar a ela. Mas que livro, este Contos Reunidos! Naqueles em que volta a ser menino, FH descobre o passado, e o homem que resultou dele, através por exemplo da amizade com Clemente Colling, um violinista virtuoso que nunca trocava de meias e tinha o corpo coberto de percevejos, de duas irmãs velhas que a mãe visitava, duas mulheres de véus caídos sobre as caras e de chás tomados na penumbra de uma sala igual há cinquenta anos, de como o atraiu, adolescente, o cesto de roupa suja da casa de banho de uma mulher bonita - e de como lhe bateu o coração com medo de que alguém de repente entrasse. Noutro, já homem e pianista, antes de trocar o mundo dos sons pelo das palavras, aceita ser convidado de uma matrona rica que vegeta, caprichosa e ferida de amores, numa casa alagada, onde só se pode andar de canoa, e as camas e os armários flutuam sobre bóias. Felizberto Hernández convive com as palavras para encontrar o sentido das coisas, umas vezes claro outras misterioso. “… Tenho como um processo de amizade com as palavras, primeiro faço-me amigo directo delas; e depois fico muito contente quando me aparecem juntas, duas que nunca haviam estado juntas, que se haviam simpatizado, ou que se haviam atraído nalgum lugar da minha alma não vigiado por mim. Mas há palavras que nunca poderão ser minhas amigas, as que não me parecem naturais ou as que não entram no mistério da simpatia” – escreveu a uma amiga. Portugal conhece pouco este abridor de caminhos, este autor incomparável - o mais próximo, no humor e na angústia, talvez seja Kafka. E no entanto Italo Calvino, Júlio Cortázar ou García Márquez, para citar só estes, têm-no como um dos seus maiores mentores. Este o livro que acabei de reler. O que estou a terminar, O Espião Alemão em Goa, de José António Barreiros, é outra história: de como, em Março de 1943, no porto de Mormugão, as tripulações de três navios mercantes alemães e um italiano, atacados por um comando britânico, preferiram metê-los no fundo, criando um problema ao Portugal neutral, que, não podendo reconhecer o ataque, fez julgar e condenar as quatro equipagens. Uma história feia, que o conhecido advogado soube investigar e trazer à tona.

E aqui vai, Cláudia, com um enorme pedido de desculpas pelo atraso, o meu contributo para esta série. E tu, Helena Sacadura, o que andas a ler?


5 comentários

Imagem de perfil

De Ana Vidal a 20.01.2012 às 22:24

Extraordinário esse parágrafo sobre as palavras! Já me conquistou, assim como os aperitivos dos contos que aqui nos deixas. Vou procurar o livro. É por estas trocas de experiências que esta série é tão interessante. Obrigada, Fernando.
Imagem de perfil

De Fernando Sousa a 20.01.2012 às 23:17

Não te arrependerás. Já tenho preenchido o cheque para o caso de não gostares. Porém no teu caso acho francamente difícil. Não tenho dúvidas em pôr este livro entre os melhores que li na vida.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 22.01.2012 às 18:37

Ah, também me parece que será difícil não gostar, Fernando. Depois comento contigo.
Imagem de perfil

De Laura Ramos a 21.01.2012 às 01:41

Fernando, se por mais mais não fosse as séries colectivas têm isto de bom: obrigam-te a vir cá, para nos deliciares :) Vou ver se apanho esta leitura, fiquei a salivar. Os sul-americanos são inconfundíveis.
Imagem de perfil

De Fernando Sousa a 21.01.2012 às 11:53

O FH é inconfundível. E de facto incomparável. Verás pelos teus próprios olhos.

Comentar post



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D