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Serviço público descarrilado

por Pedro Correia, em 18.01.12

 

Gare do Oriente, meio dia menos dez. Um casal de meia idade e aspecto humilde acerca-se da bilheteira: "Podemos comprar aqui dois bilhetes para o comboio das quatro e tal para Irún?" Resposta seca e ríspida do funcionário: "Aqui, não. Só no guichê do lado, que está fechado, como podem ver. Só abre às 12 e 40."

-- E então o que podemos fazer? -- insiste o homem, provavelmente emigrante em França, de chapéu na mão.

-- Se querem comprar agora o bilhete terão de ir a Santa Apolónia.

Assim trata a CP os seus utentes: remetendo-os de um extremo ao outro de Lisboa. Só porque um guichê não está aberto por volta do meio-dia e o funcionário do guichê do lado pode vender bilhetes para uns destinos mas não para outros. Como se vivêssemos na era pré-digital, quando a informação não circulava em rede.

O casal lá se afastou, melancólico e cabisbaixo, procurando um lugar abrigado na inóspita gare para entreter o tempo. Faltavam 50 minutos para o guichê abrir e mais de quatro horas até o comboio passar.

Um quadro de meados do século XX em pleno século XXI. Exceptuando a noção elementar de serviço público: essa sim, perdeu-se pelo caminho. Descarrilou, para usar um termo mais apropriado à situação.


43 comentários

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De lucklucky a 18.01.2012 às 14:00

Não precisam do dinheiro dos clientes ou seja economia livre. Têm a economia política(publica) para pagar os seus ordenados.
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De Pedro Correia a 18.01.2012 às 22:46

A cena que descrevo - e à qual assisti - é tudo menos um exemplo de serviço público.
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De Outside a 18.01.2012 às 14:26

Cenas tristes neste paìs amado.
Já nem se estranha a posição da CP que já no século passado abandonou/esqueceu os seus clientes, especialmente no interior.

E assim suspensos nesta catenária sem corrente nos encontramos.

Bom texto Perdo. Obrigado por partilhar.
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De Pedro Correia a 18.01.2012 às 22:47

Acredite: preferia não o ter escrito. Preferia aliás que isto não tivesse acontecido.
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De Outside a 19.01.2012 às 00:02

Sem dúvida! E sem dúvida acredite que é também partilhando estes momentos/instantes que tornamos este nosso Portugal mais atento a coisas simples, tão simples...se humano não conseguir ser.
Fique bem.


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De Helena Sacadura Cabral a 18.01.2012 às 14:27

Lamentável ocorrência.Espero que alguém que nos governa leia o DO e medite nesta circunstância particular da abertura de um guichet à precisa hora do meio dia e quarenta.
Serviço público?! Não posso dizer "já era", porque nunca foi...
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De cenas underground a 18.01.2012 às 16:10

"Serviço público?! Não posso dizer "já era", porque nunca foi..."

Concordo plenamente
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De amendes a 18.01.2012 às 16:39

"Espero que alguém que nos governa..."
Não!
O sindicato dos "bilheteiros" que façam greve...
Em seguida os revisores... depois os maquinistas
Todos solidários...com o fecho da CP... para obras... até que
renasça outra das cinzas! Com esta não há governo que lhe valha!
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De Pedro Correia a 18.01.2012 às 22:48

E o pior é que as pessoas prejudicadas são sempre as mais desfavorecidas.
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De PALAVROSSAVRVS REX a 18.01.2012 às 14:36

Detesto rispidez aliada a ineficiência. Tenho da Gare do Oriente a melhor e mais dulcificada imagem, mas o espírito de serviço e a simpatia natural andam arredias de Lisboa, não é só dos guichês do "serviço público".

E é pena.
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De Pedro Correia a 18.01.2012 às 22:48

Tens razão, Joaquim. E é pena que tenhas razão.
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De José da Xã a 18.01.2012 às 14:37

Pedro,

O problema não está só no serviço não prestado, mas na impunidade em que vivem as empresas do estado. Em vez de dois idosos se fosse alguém da empresa não conhecida e depois fizesse um relatório com as devidas consequências, talvez se trabalhasse mais e melhor e quiçá sem grandes saldos negativos.
Também onde estou vejo aquela postura: deixar para amanhã o que não quero fazer hoje.
Assim vai o nosso Portugal.
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De Pedro Correia a 18.01.2012 às 22:49

E se fosse um compincha da empresa - ou um familiar de um compincha da empresa, ou um amigo de um familiar de um amigo da empresa - seria tratado de forma bem diferente.
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De Bartolomeu a 18.01.2012 às 14:47

Isto é puro boicote da CP, ao conselho do ministro, para o pessoal emigrar.
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De Pedro Correia a 18.01.2012 às 22:50

Quase faltou dizer àquele casal: 'Por que raio de motivo insistem vocês em andar de comboio?'
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De Carlos Pires a 18.01.2012 às 15:22

A flexibilização das leis laborais ajudará a resolver alguns desses problemas. Mas isso não basta, pois não afectará os gestores e patrões, que são em muitos casos - nomeadamente na CP - dinossauros antiquados e incompetentes.
Curiosamente, nas queixas dos sindicatos nunca se encontra a denúncia dessa incompetência e impreparação dos gestores, mas apenas a reinvindicação de mais incompetência e impreparação da parte deles. Talvez porque os sindicatos também se carateriazam pela incompetência e impreparação - como é eloquentemente demonstrado pelos sindicatos de trabalhadores da CP, nomeadamente dos maquinistas.
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De Pedro Correia a 18.01.2012 às 22:52

Os sindicatos deviam ser muito exigentes na questão do atendimento ao público, Carlos. Porque isto afecta a imagem dos trabalhadores da empresa.
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De Luís Lavoura a 18.01.2012 às 15:29

Segundo já constatei pessoalmente por duas vezes, e segundo me disseram, atualmente a bilheteira da estação da Pampilhosa está fechada todas as tardes.
Pergunto, se uma pessoa quiser tomar o Sud-Express na Pampilhosa, como faz para comprar o bilhete? E se quiser tomar um dos intercidades que lá páram e não tiver multibanco, como faz?
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De Pedro Correia a 18.01.2012 às 22:54

Parecem-me perguntas pertinentes.
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De Luís Lavoura a 18.01.2012 às 15:34

Vendo bem: o Sud-Express é atualmente um comboio marginal, com poucos viajantes. Supondo que a bilheteira fechada apenas servia para esse comboio e para nenhum outro, qual a necessidade de ter uma bilheteira aberta todo o dia só para servir esse comboio? Não é já mais que suficiente que a bilheteira abra quatro horas antes de o comboio passar?
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De Pedro Correia a 18.01.2012 às 22:58

Mas qual é a necessidade de haver uma bilheteira em exclusivo para esse comboio? Por que motivo as que estão abertas não podem vender o bilhete pretendido - e qualquer outro? Qual o sentido de remeter aquelas pessoas para o outro extremo da cidade? Por que motivo à mesma hora há bilhetes disponíveis em Santa Apolónia e não há na Gare do Oriente?
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De Luís Lavoura a 19.01.2012 às 09:23

Porque a venda de um bilhete internacional é, provavelmente, mais complicada do que a venda de um bilhete nacional.
Nas bilheteiras internacionais pode-se comprar bilhetes, não apenas para um comboio e trajeto único, mas também bilhetes que envolvem comboios múltiplos. Por exemplo, você pode comprar um bilhete único para uma viagem Lisboa-Génova, que envolve apanhar diversos comboios sucessivamente, pertencentes a diversas companhias. A emissão de tal bilhete, com a definição do trajeto a percorrer e o cálculo do preço, não será uma tarefa tão fácil assim.
Por esse motivo, sempre houve nas estações bilheteiras dedicadas para o serviço internacional.
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De sc a 18.01.2012 às 15:42

Uma antiga empregada lá de casa tinha pavor aos comboios.
Não sei o que será feito dela. Mas não me admirava que tivesse sido administradora da CP. Ou um filho dela, que tivesse herdado o pavor da mãr. Creio que detestar comboios é um condição sine quo non para estar à frente dos destinos da CP.
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De Pedro Correia a 18.01.2012 às 22:59

Começo a convencer-me do mesmo.

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