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Querer e poder

por Leonor Barros, em 14.01.12

Vida de professor é feita de papéis, papelinhos, destacáveis, comprovativos e tudo o que tenha a ver com papeladas, burocracia sem fim. Nos intervalos de tudo isto sou professora e faço aquilo devia fazer e que o tempo em volta dos papéis me rouba. Entro na sala com um lembrete na cabeça, uma campainha que toca para que não me esqueça, não me posso esquecer, e mesmo antes da aula começar digo-lhes, Meninos, preciso dos destacáveis para a reunião com os Encarregados de Educação. Ergue-se uma pletora de respostas. Ai stora, esqueci-me! Trago-lhe amanhã ou Não trouxe o papel mas a minha mãe vem, O meu pai pode vir mesmo sem o papel? A minha mãe não sabe se pode vir. Alguns levantam-se entretanto e entregam-me o rectângulo branco. Recolho a papelada, organizo-me na secretária, ligo o computador e de lá do fundo ergue-se uma voz  Stora, eu já disse à minha mãe e ao meu irmão. E depois a voz descaída como um ramo despencado Mas nenhum quer vir. Arrumou-se ao fundo da sala e manteve-se estranhamente silenciosa. Não que o dia ou a hora fossem inconvenientes. Um qualquer outro dia e hora seriam igualmente maçadores. Substituíra-se querer por poder e talvez o mundo fosse outro. A diferença que um verbo faz.


17 comentários

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De Ana Vidal a 14.01.2012 às 10:22

Isto que escreves aqui (e lá na tua curva da estrada) é de apertar o coração. Irritamo-nos com os adolescentes porque os achamos irresponsáveis e desleixados, mas muitas vezes têm vidas que nem imaginamos. Vocês, professores, sabem disso. Tens razão: muito bons são eles.
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De leitor a 14.01.2012 às 10:52

Aproveito para lhe dizer que esse modelo de "reuniões de país" são inúteis, só servem para os país perderem horas de trabalho.

O melhor modelo é ver quais as questões relevantes de cada aluno, individualmente, e combinar reuniões pessoais com os pais e se um aluno for impecável, os pais nem precisam de ser chateados.
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De Leonor Barros a 14.01.2012 às 11:52

Estas reuniões não são para tratar de assuntos de cada aluno, mas da turma em geral. Os assuntos particulares de cada um são tratados com cada um, por uma questão ética e de respeito absoluto pela privacidade. Há, contudo, questões que dizem respeito à turma e que devem ser tratados em conjunto. Neste caso, e dependendo de como são dirigidas as reuniões e a afluência que têm, é óbvio que são úteis.
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De Leonor Barros a 14.01.2012 às 11:49

Por isso é que não embarco na diabolização da adolescência como se fossem uma carneirada de ignorantes. Há mais do que isso, muito mais.
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De IsabelPS a 14.01.2012 às 10:25

A resiliência do ser humano é uma coisa espantosa. Ela, pelo menos, usa o verbo certo e não se conta histórias da carochinha. Continua no bom caminho e, se outros continuarem a dar-lhe atenção, há-de se safar. Boa sorte para ela (que também é preciso!) e bom trabalho para si.
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De Leonor Barros a 14.01.2012 às 11:53

O problema é esse, Isabel, não sei se será fácil continuar por um bom caminho. Espero que sim, naturalmente, espero mesmo que sim.
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De Arame Farpado a 14.01.2012 às 10:52

A diferença de dizer a verdade, diria...
Belo post, aqui e na outra morada.

Cumps.
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De José António Salcedo a 14.01.2012 às 11:10

Obrigado por ser professora Leonor. Eu devo a minha vida - literalmente - ao facto de um professor na Califórnia ter reparado que uma manhã faltei a uma aula dele. Cá, sempre me custou ver a indiferença generalizada e, progressivamente, a agressividade que muitos pais têm vindo a demonstrar em relação quer a professores quer a escolas. Temos tanta gente para educar neste país...
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De Leonor Barros a 14.01.2012 às 11:57

Eu é que agradeço as suas palavras, José António. É verdade, há muita animosidade em relação a tudo o que diga respeito ao ensino: pais, professores e alunos. Em conversa com os outros chego à conclusão que acham que a Escola é uma selva e que quem por lá anda uns selvagens. Remeto-lhe para um outro post que escrevi acerca disso aqui: http://o-meu-pai-e-eu.blogspot.com/2010/10/selva-azul-cueca.html
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De José António Salcedo a 14.01.2012 às 22:33

Obrigado, Leonor. Vou ler com o maior interesse. Mas não desista. Nunca.
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De Pedro Correia a 14.01.2012 às 16:06

Excelente, Leonor. E tens toda a razão.
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De Leonor Barros a 14.01.2012 às 17:36

Obrigada, Pedro.
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De Anónimo a 14.01.2012 às 17:08

Sei o que é isto.
Todos os dias, há histórias parecidas aqui em casa.
Ouço-as duma voz de revolta, de impotência, de tristeza.
Uma voz de quem se sente injustiçada, a quem não é dado o devido valor. Não que espere reconhecimento, pois basta-lhe saber que tem o carinho dos seus alunos, mas ao menos que não lhe dificultassem a vida e a deixassem ser o que realmente faz falta que seja.
Professora, simplesmente.
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De Leonor Barros a 14.01.2012 às 17:40

Quando dou aulas não penso no reconhecimento. Se pensasse nisso mudava de profissão. Estou lá para os meus alunos e é deles que vem o reconhecimento mais importante. Se nesta altura estivesse à espera de reconhecimento das chefias ou da sociedade já me teria mudado para o divã do psiquiatra.
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De Tó Zé a 15.01.2012 às 13:21

Concordo plenamente com o seu post e até gostava de lhe mostrar um post que escrevi no meu novo blog sobre a educação, mas mais virado para o aspecto das repreensões que actualmente não servem de muito no tipo de casos que referi.
Gostava que visse o texto em: http://antoniofernandesjose.blogs.sapo.pt/555.html
Veja e comente, apesar de o texto ter muita raiva devido a tudo aquilo que vi.
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De Leonor Barros a 15.01.2012 às 15:57

Muito obrigada pelas suas palavras. Já fui ler mas não dá para comentar no seu blogue. Felizmente não tenho tido problemas de comportamento até à data, nada que não se resolva. O que me aborrece verdadeiramente é o regime de assiduidade e os Planos Individuais de Trabalho. É claro que temos de combater o abandono escolar mas os alunos tem de sentir as consequências do seu absentismo e se não cumprem só tem de reprovar por faltas.

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