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Invistamos então um par de minutos na leitura do próximo parágrafo que aqui transcrevo com uma vénia que praticamente me faz tocar com o nariz na tijoleira e que acumulo com a devida genuflexão (posição que, como compreenderão, é assaz incómoda e não poderei manter durante muito tempo):

 

"O Dr. José Brissos, testamentário do homenageado, apresentou a exposição depois de enaltecer a "cultura de lembrança" e o papel decisivo que nela tem a universidade. Agradeceu à artista "pelo seu ousado exercício de decifração do mundo humano de Jorge Borges de Macedo, através da lente performativa - como hoje se diz - da obra de arte" acrescentando que a presença enigmática do mocho, escolhido como símbolo da Exposição, proscreve qualquer ideia convencional e constitui uma espécie de advertência de complexidade, muito eficaz e sintomática para a leitura de imagens indiciais que nos é oferecida." Afirma ainda estar certo que o homenagenado reagiria a esta leitura socorrendo-se "do lado caústico do seu humor, para nos convidar a olhar para o mundo em que viveu, de modo a enquadrar o homem no seu tempo."

 

Tomemos uns momentos para nos recompormos, situemo-nos e vejamos então quem é quem. Jorge Borges de Macedo foi Jorge Borges de Macedo e até aí tudo bem. A exposição referida no emotivo parágrafo evoca-o e chama-se Jorge Borges de Macedo Privado e Público. Foi promovida pelo IICT (Instituto de não sei quê e Investigação Tropical). O Instituto tem como missão dedicar-se ao Saber Tropical,  desenvolvendo investigação científica tropical nas áreas das Ciências Humanas e Naturais, aumentando a capacitação científica e técnica dos países com que coopera e promovendo a preservação do Património. Este laboratório de Estado do Ministério dos Negócios Estrangeiros (sublinhado meu) tem por missão trabalhar em prol dos países das regiões tropicais, em particular, da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

 

Uns quantos, com os nervos já em franja, perguntarão, neste momento, qual a especial relação de Borges de Macedo com o Saber Tropical. Deviam ter mais calma. Isso agora não importa nada. O que está em causa é a preservação dos laços familiares. E isso foi conseguido. O Presidente do Conselho Directivo do Instituto que promoveu a exposição é Jorge Braga de Macedo, filho de Borges de Macedo. A artista plástica responsável pela instalação é Ana Macedo, filha de seu pai, que calha ser Braga de Macedo e neta do seu avô que... pois. O sucesso foi tão grande que a exposição teve derivações para outros espaços e conceitos. Por esta altura, já todos podemos imaginar qual a dimensão pública da exposição Jorge Borges de Macedo Privado e Público.

 

É claro que podíamos falar da instalação que Ana Macedo fez em Moçambique com o apoio do Instituto dirigido pelo filho do avô. Mas, o JPT já o fez aqui com toda a propriedade e o assunto foi também abordado pelo Daniel Oliveira. Pela minha parte, prefiro realçar a importância pública de homenagearmos os nossos pais e avós. Posto isso, agora que Jorge Braga de Macedo foi escolhido pelos accionistas privados da EDP, sem nenhuminha intervenção do governo no assunto, resta-me esperar que Ana Macedo seja convidada para, com a sua lente performativa, embelezar as facturas da electricidade. Entretanto, confesso que me continua  a inquietar a presença enigmática do mocho.


12 comentários

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De Bartolomeu a 13.01.2012 às 15:01

Os negócios de família quando bem geridos, são aqueles que reunem maiores hipoteses de atingir o sucesso... e tal.
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De Rui Rocha a 13.01.2012 às 15:22

Sim, sim, sim. Até porque fica tudo em casa... e tal.
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De Ana Vidal a 13.01.2012 às 15:10

Ah, muito haveria para filosofar sobre o enigmático mocho... mas afinal está tudo dito quando se admite que até o homenageado "reagiria a isto socorrendo-se do lado cáustico do seu humor". Mais palavras, para quê?
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De Rui Rocha a 13.01.2012 às 15:24

De facto, Ana. Mas, sempre transcrevo só mais estas, da artista:

“O conceito que desenvolvi para esta evocação de Jorge Borges de Macedo é um olhar intuitivo e inquisitivo sobre o paralelo entre o homem e o mocho (...).
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De Ana Vidal a 13.01.2012 às 15:50

Adoro a reportagem: "Assistiram à inauguração a viúva, o irmão, os filhos e três netos do homenageado, entre os quais a autora". Um sucesso, portanto.
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De Rui Rocha a 13.01.2012 às 17:25

A entrevista do filho do pai e pai da filha também é excelente.
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De fernando antolin a 13.01.2012 às 18:15

Isso só me evoca a antiga ladaínha do famoso quarteto formado por três irmãos,Pedro e Paulo, como o Pedro está doente só o Paulo é que toca...

(eu hoje não devo estar lá muito bem...)
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De Rui Rocha a 13.01.2012 às 18:25

Também já apanhei com esse quarteto de dois numa festa de Natal de uma empresa, Fernando. Quanto ao mais, não se preocupe. Bem, bem, já ninguém está. O Fernando ainda tem a vantagem de ter os aviões aí à mão para se pôr a andar daqui para fora.
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De zedeportugal a 13.01.2012 às 16:11

Vá-se lá saber porquê, após a leitura do seu texto lembrei-me deste trava-língua em francês:

"La mère du maire dit à ma mère que la mer c'était amère."
(E acrescento um "de" no final - para compor.)

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De Rui Rocha a 13.01.2012 às 17:26

E faz muito bem ZdP. O "de" vem muito a propósito.
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De Luis Eme a 13.01.2012 às 16:54

Rui, por muito optimistas que queiramos ser, os últimos tempos demonstram a velha teoria, de que a única coisa que continua a mudar são as moscas, a "porcaria" mantêm-se...

eu já não tenho dúvidas de que o mentiroso Sócrates deu lugar ao mentiroso Coelho.
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De Rui Rocha a 13.01.2012 às 17:28

Preciso de acreditar que será diferente, Luís. E fico desesperado quando me tiram as razões para isso (sem que isto signifique que este caso concreto possa ser imputável ao governo).

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