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Declarações, declarações

por Ana Margarida Craveiro, em 11.01.12

1. Manuela Ferreira Leite tem um talento especial para a declaração explosiva. É o chamado efeito de bombista suicida: rebenta com tudo, incluindo a si própria. Evidentemente, nas suas declarações há uma parte verdadeira, de fundo, e uma parte disparatada, que gera o tal efeito de explosão. É evidente para todos, incluindo o sr. dr. Arnaut, que o SNS tem problemas graves de sustentabilidade, e que urge resolvê-los. Também é relativamente claro para muitos que a igualdade de acesso e tratamento não significa necessariamente igualdade na participação dos custos. Não pagamos todos o mesmo de IRS, o nosso contributo para o sistema não é igual. Para alguns, incluindo o actual executivo, o pagamento do acto médico deve também ser diferenciado, conforme o rendimento. É esta a parte verdadeira: o pagamento pode, numa determinada visão, não ser todo igual. Quem tem mais, pode pagar mais. O erro de Ferreira Leite foi misturar os pagamentos com critérios etários. 

 

2. Erro? Mas será mesmo assim? Eu discordo fundamentalmente desta visão determinista, que assume que a partir de certa idade os idosos são um peso para a sociedade. Independentemente de questões médicas (alguns processos são mais lentos, doenças que seriam fulminantes num jovem têm um desenvolvimento bastante mais lento num idoso), pressupõe uma redução dos direitos básicos de uma classe etária. Parece aberrante, assim dito, mas é feito. Dou-vos um exemplo muito concreto: perto dos 80 anos, o meu avô foi diagnosticado com um cancro específico, que poderia ser operado. Seguido num IPO, foi comunicado à família e doente que não seria operado, por causa da idade. Numa idade tão tardia, não fazia sentido sujeitar um doente a uma operação. Era um desperdício do tempo de vida do doente, a quem foi proposto um tratamento paliativo, e era um desperdício dos recursos financeiros do próprio IPO. Isto pôs-nos um dilema moral enorme, que infelizmente foi resolvido pelo agravamento súbito da doença, a que se seguiu uma morte relativamente rápida. Mas voltando à questão central: podemos decidir, só pela idade, se uma pessoa "merece" sequer a escolha de um tratamento? Então, que pensar de idosos tão famosos e activos como Gentil Martins, Mário Soares, ou Manoel de Oliveira? 

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19 comentários

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De Antónimo a 11.01.2012 às 18:35

A velha monárquico-fascista e católica no seu melhor .
Que Deus nosso senhor a ajude com a torre de belém às costas !
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De fernando antolin a 11.01.2012 às 18:56

Com todo o respeito, não sei que raio de " impedância " televisiva afecta a drª Ferreira Leite ...
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De IsabelPS a 11.01.2012 às 19:31

Repito aqui o link para o programa (obrigada, Francisco!):

http://sicnoticias.sapo.pt/programas/contracorrente/article1235902.ece

Eu sei que o programa tem 72 minutos e 5 segundos. Que a vida está difícil e que nem toda a gente tem 72 minutos e 5 segundos para ver um programa, fora o tempo para pensar sobre ele e escrever ou até ler um post.

Mas é uma pena. O programa é extremamente interessante, a questão do racionamento da saúde, como lhe chamou com todas as letras o Sobrinho Simões (que não a Manuela Ferreira Leite), tem de ser discutida. Até porque ela se passa todos os dias nos hospitais de todo o mundo. Mas pelos vistos continuamos a ser demasiado sensíveis para ir ao fundo de coisas difíceis e desagradáveis.
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De Tiro ao Alvo a 12.01.2012 às 10:55

Tem toda a razão. A malta de esquerda - como eu não gostava de escrever isto -, parece que está toda histérica. Ninguém quer parar para ouvir, para pensar e para, depois, discutir civilizadamente.
Quem estiver com atenção, verifica, facilmente, que meia dúzia de pessoas, algumas com poucos escrúpulos, distorcendo muitas vezes as palavras, ou referindo-as fora do contexto, dão o mote e a "rapaziada" vai toda atrás, como...
Que pena!
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De IsabelPS a 12.01.2012 às 16:43

De facto, começo a achar que é incomptência a mais para ser verdade. E que se calhar é mas é falta de escrúpulos. E carneirada.
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De Arame Farpado a 11.01.2012 às 19:41

Nem sequer falando dos cidadãos com mais idade que depois de uma vida inteira têm de ouvir esta senhora "bacorar" deixo uma pequena (piquena, na boca de MFL) reflexão:
O valor que desconto do meu salário, o valor que a empresa para a qual trabalho desconta relativamente ao meu salário, 23% de todas as coisas que compre e muito mais que agora não vale a pena referir, serve para quê? Isso não é pagar?
Tenho 13 anos de trabalho e 13 anos de descontos (sim, sou daqueles parvos que paga impostos) e da segurança social gastei até agora ZERO. Gostaria de dizer à Sra.Manuela F. Leite que se o Estado quiser que eu pague a utilização do SNS e tudo o mais que se lembrem por mim tudo bem... desde que deixe pagar os meus impostos.
É porque se assim não for...para que raio servem?

Cumps.
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De Ana Vidal a 11.01.2012 às 20:00

Ana, tudo isto é uma falsa questão. A idade nem sequer estava em causa, vinha de uma conversa anterior de António Barreto sobre próteses. Mas com a primeira frase do post, substituindo "explosiva" por "desatrada". Bem sei, bem sei... neste caso vai dar ao mesmo.
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De Tiro ao Alvo a 12.01.2012 às 12:19

A Ana topa-os, mas a maioria não tem possibilidades de separar o trigo do joio. E este é o jogo viciado que, todos, temos que jogar: não podemos trocar de povo, nem de país. Ainda bem. Mas deveriam ser divulgadas as melhores regras e "castigados" os incumpridores. Lá isso deviam.
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De Ana Vidal a 12.01.2012 às 15:02

Pois deviam, Tiro ao Alvo. Ou, pelo menos, fazê-los retractarem-se por estas batotas mediáticas. Mas ninguém se importa nada com isso, afinal.
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De Ana Vidal a 12.01.2012 às 13:07

Faltou-me ali a palavra "concordo".
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De Ana a 11.01.2012 às 20:58

Gostei do que escreveu e concordo. Há bastante tempo, que venho sentindo o "peso" que os velhos representam para a sociedade. Não vale a pena tapar o sol com a peneira (toda a gente o sente). É pena, até porque muitos deles são de grande valia, no amparo à criação dos netos.
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De Cenas Underground a 12.01.2012 às 09:24

Sim, em principio todos concordamos que "os velhos" têm os mesmos direitos que nós, mas em tempos de escassez de recursos, a mais ou a menos, todos tendemos a olhar para "os velhos" como uma fonte de desperdício de recursos.

Não obstante os casos conhecidos (Manuel Oliveira e afins), a maioria das pessoas de idade, retiram muito mais da sociedade, do que aquilo que actualmente dão.

É uma coisa que poucas pessoas com o mínimo de vergonha ousam dizer, mas "os velhos", cada vez mais numerosos, que enchem os autocarros, e os centros de saúde, são parte do problema e não da solução. A sua época de contribuir para a sociedade terminou quando se reformaram.

Em teoria, concordo com isto, mas apenas em teoria. Porque na prática, acho que os meus avós com quase 80 anos, são membros fulcrais na coesão e felicidade da minha família. E quando se forem, farão muita falta.
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De Tiro ao Alvo a 11.01.2012 às 21:00

Também acho que discutir estas coisas tem o seu quê de horrível. Mas, também é verdade, que têm que ser discutidas e muito discutidas. Com serenidade, é certo, e não, como está a acontecer, de forma histérica e, sobretudo, de forma enviesada,com aproveitamentos vergonhosos de frases retiradas do contexto.
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De Fernando a 11.01.2012 às 21:24

Explosiva foi a falência do país - parece que nos esquecemos deste pequeno pormenor: há dinheiro para ordenados, pensões, etc porque nos emprestam.
As declarações da Dra. Manuela Ferreira Leite são, como de costume, certas, claras, realistas.
E o problema é este: temos 2 para dar a 3. Como se faz? Ou se distribui a 3 o que é feito para 2, ficando os 3 muito mal, ou se diz a um deles que tem de pagar.
Simples.
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De IsabelPS a 12.01.2012 às 10:16

Muito bem.

E, como se pode ouvir a MFL a partir do minuto 43 se alguém se der a esse trabalho (naaaahhhh, é muito mais fácil emprenhar pelos ouvidos e olhos), não são dois com menos de 70 anos e um com mais: todos têm mais de 70, dois não têm dinheiro e não pagam e o terceiro, que tem, paga (e a discussão é também, como diz o Vitorino, com base em quê é que se sabe que o terceiro tem dinheiro).
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De Tiro ao Alvo a 12.01.2012 às 12:25

Então discuta-se isso: como é que vamos ser justos, obrigando a pagar mais, quem mais tem?
E se assim fizermos, lá vamos parar aos sigilos (bancário, fiscal, justiça, etc. etc.).
Estou em crer que os que querem tudo de borla para todos, são os mesmos que querem manter esses segredos todos, mais privacidade, mais liberdade, mais tudo. Mas pode ser que esteja ligeiramente enganado...
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De Luís Lavoura a 12.01.2012 às 10:01

Bom post, muito apropriado.
Aquilo que se passou com o seu avô não é caso único, conheço outro. O racionamento dos serviços de saúde em função da idade - e de outros fatores que afetam a valia social da pessoa - é efetivamente feito, ainda que não gostemos de pensar nisso. E é razoável que seja feito, digo eu.
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De lucklucky a 12.01.2012 às 13:07

Para muitas pessoas é sempre possível ganhar mais uns dias ou meses de vida com gastos enormes, enfermeiras 24 dia e médico de qualidade sempre ao dispor. Aliás basta ter um médico menos bom que o melhor do mundo para existir racionamento.

O problema é a escolha.E se estamos a falar de meses de vida ou vários anos. E da qualidade destes.
Por exemplo não há racionamento no aborto. É "grátis". Também há subsídios para a "cultura" e "ventoinhas da EDP", etc...
Mas como o dinheiro não é das pessoas é do Estado. Quem escolhe é o Estado.
Foram as pessoas que quiseram que seja cada vez mais o Estado a escolher para onde vai o dinheiro.
Pois todos os partidos da esquerda e direita socialista aumentaram impostos...

Noutro ambito como a Saúde é um dos sistemas mais aristocrato-socialistas onde as pessoas se julgam nobres não admira que custe tanto. E onde haja tão pouca informação que faça evoluir. Não há mercado.
Há dezenas de revistas de automóveis mas não há dezenas de revistas de saúde que comparam hospitais. Dão notas. Fazem testes.Não.
É uma nebulosa de não informação.
Pior, naquilo que importa: erros médicos, infecções ainda mais secreto é.
Não deve surpreender, é Social não é Mercado, logo para que é que são precisos os mecanismos do mercado como informação? Os Portugueses nem podem escolher o Hospital.

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