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Dois pesos, duas medidas

por Pedro Correia, em 30.12.11

 

Concebo que um jornal tenha uma agenda política. Concebo que um jornal transforme as palavras em arma de arremesso ideológica. Concebo até que um jornal abdique esporadicamente do rigor da escrita em função de simpatias declaradas ou aversões indisfarçáveis. Mas entendo muito mal que o faça de forma tão ostensiva que possa levar alguns leitores a confundir esse preconceito com pura incompetência. Confesso: foi nesta hipótese que cheguei a pensar ao ler hoje as páginas 28 e 30 do Público, ambas pertencentes à secção Mundo, ambas redigidas sob critérios jornalísticos antagónicos.

Título da página 26: «Kim Jong-un, o 'Grande Sucessor', já é o líder supremo da Coreia do Norte». Destaque de entrada da peça: «No último dia de luto nacional por Kim Jong-il, o 'número dois' da hierarquia veio discursar perante milhares de pessoas para dizer que o país vai 'transformar o pesar em força'». Reparem nos vocábulos utilizados, todos com conotação positiva ou neutra: «líder»; «supremo»; «grande», «hierarquia»; «sucessor». A notícia refere-se à Coreia do Norte, a mais feroz tirania do planeta, onde segundo informações veiculadas por organismos internacionais credíveis pelo menos um quinto da população passa fome e cerca de 200 mil pessoas estão internadas em "campos de reeducação", privadas dos direitos fundamentais. A liberdade de expressão é inexistente neste país submetido desde a década de 40 ao totalitarismo comunista. De liberdade de imprensa nem vale a pena falar.

Ditadura? Claro que sim. Mas o termo é cuidadosamente evitado nesta página. Fica reservado para outra notícia, a que surge duas páginas adiante: «Mais 15 anos de prisão para o último ditador argentino». É uma peça curta, de apenas quatro parágrafos. Mas onde surgem três vezes as palavras «ditadura» ou «ditador». Nem faltam nela referências concretas a «crimes contra a humanidade», «tortura», «detenções» e «assassinatos» cometidos entre 1976 e 1983 na Argentina. Palavras que, por assinalável contraste, estão omitidas nos 12 parágrafos sobre a Coreia do Norte. Dois pesos, duas medidas: quem leia o longo texto sobre o "Grande Sucessor" fica apenas a saber que a Coreia do Norte "atravessa uma grave crise alimentar", eufemismo para evitar a palavra fome.

Um ditador devia ser sempre apelidado de ditador. Mas se for um ditador de esquerda é legítimo que receba um indulto jornalístico? Deixo a pergunta à consideração de quem quiser pronunciar-se. A resposta, para mim, é óbvia.


5 comentários

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De João Carvalho a 31.12.2011 às 10:24

A resposta, como bem dizes, é óbvia. Infelizmrnte, só a resposta do Público parece ser outra.
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De Pedro Correia a 31.12.2011 às 11:06

Este é um caso muito mais generalizado do que podíamos imaginar à partida. A autocensura, por um lado, e a percepção, por outro lado, de que existem de facto ditaduras e "ditamoles" (as de esquerda, que não prendem, não silenciam, não agridem, não torturam nem assassinam) está de tal modo generalizada nas redacções de jornais que conduz à multiplicação de casos como este do 'Público'. Que só trago aqui como exemplo concreto do que há muito venho referindo no DELITO. O general Mubarak, por exemplo, só começou a ser tratado como ditador pela generalidade da imprensa portuguesa no dia seguinte ao da sua deposição - mais ou menos quando foi afastado da Internacional Socialista, a que pertencia há longos anos. E ainda hoje são raras as vezes em que o coronel Kahadfi é lembrado por cá como deposto ditador líbio. Já para não falar do quase eterno general Castro em Cuba.
Duplo critério. Mau jornalismo.

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De amendes a 31.12.2011 às 14:33

Lenine e Josef Stalin ... foram lideres democráticos ...

Os Gulag: - " Campos de Trabalho e Colónias"

Tarrafal: Campo da Morte.. facista!
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De Adérito a 31.12.2011 às 15:59

Confesso que a minha cultura é pouco esclarecida.
Daí que pensasse que os dirigentes políticos eram basicamente de uma de duas coisas:
-ditadores ou democratas.
que hajam democratas de diversas tendências, acho que seja natural; porque são democratas.
Agora os ditadores? Para mim ditador é ditador e não tem nada mais do que isso.
Por isso não entendo essa coisa de ditadores de direita, de esquerda, ou seja lá de que direcção for!
Mas como digo, o meu conhecimento cultural não é de invejar...

Cumprimentos!
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De jsp a 31.12.2011 às 16:48

Perdoem o repetir-me, mas a conceituada Fábrica de Papel Renova produz artigos que substituem com grande vantagem, e maior conforto, a folha-de-couve mencionada no "post".
De passagem, e por uma simples questão de coerência, evitar firmemente as mercearias do dono do pasquim.
Um Bom Ano para todos, ou quase...

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