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As estradas, as estradas.

por Luís M. Jorge, em 30.12.11

Ana, entendamo-nos. Para alguém que — como eu — nem sequer tem carta de condução, o que se passa nas estradas portuguesas é um genocídio. Pior que isso, é uma orgia de parolos montados em altas cilindradas, psicopatas do tuning e espectadores da TVI.  

 

Só que não é isso que estou a discutir. O que estou a discutir é se um responsável de uma força policial pode invocar a falta de cooperação dos mortos para sacudir a água do capote quando o confrontam com os resultados de uma acção que é e deve ser avaliada por nós. Na minha opinião, não pode. E já devia estar no olho da rua. 

 

Repito, aliás, o que escrevi no post anterior: muitas das vítimas não são os maus condutores. Muitas das vítimas são apenas isso: vítimas, que tiveram o azar de levar com um bêbado em cima. Sugerir que a culpa é delas talvez não seja a melhor maneira de respeitarmos os mortos ou de resolvermos os problemas da sinistralidade. 

 

Mas permitir que um incompetente qualquer de uma instituição pública encarregada de manter a ordem se safe com esta aisance de nos explicar onde falhou é um convite para que nunca mais alguém seja responsável pelo que quer que seja neste país. 

 

O Estado tenta? Pelos vistos tenta pouco.


7 comentários

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De Cristina Torrão a 30.12.2011 às 18:27

O representante da força policial disse, realmente, palavras muito duras, ou mesmo incorrectas. Mas terá sido uma tentativa de inculcar um pouco de responsabilidade nas pessoas. Os mortos podem ser os inocentes, sim. Mas também podem ser aqueles que foram guiar alcoolizados, que não respeitaram as regras e que puseram a sua e a vida dos outros em perigo. E, nesse caso, é preciso responsabilizá-los, mesmo que estejam mortos.

É discutível se, em casos destes, as "campanhas-choque" serão as melhores. Mas já se tentou e experimentou tanta coisa em Portugal (como entrevistas a pessoas que perderam entes queridos e a jovens que acabaram em cadeiras de rodas) e ainda nada resultou! É natural que os responsáveis comecem a desesperar e tentem coisas deste género. Porque a segurança 100% não é possível em nenhuma parte do mundo. É impossível ter um polícia de vigilância a cada cidadão alcoolizado, para que seja preso, mal tente entrar no carro. É impossível ter um polícia a acompanhar cada condutor, velando para que ele respeite os limites de velocidade. A polícia não pode ser responsabilizada por tudo! E, neste caso, é certo e sabido que as forças policiais portuguesas dão o tudo por tudo.

Na Alemanha, onde vivo, não há campanhas especiais de Natal, Ano Novo, de Férias, ou o diabo a quatro. Nunca ouvi falar em nada disso, não se fazem reportagens especiais na televisão. Claro que também há acidentes com feridos e mortos, mas nada que justifique este bombardeamento em épocas "especiais". Aqui, antes de se partir para uma festa, já se estabelece quem guia de regresso. Os casais, por exemplo, costumam revezar-se, tipo: o ano passado guiaste tu, este ano guio eu. E, quem guia, não bebe álcool mesmo!!!

Infracções ao código da estrada é motivo de elogio, em Portugal! Só os tótós respeitam os sinais e cumprem as regras. E ninguém quer ser tótó!

Considero as declarações infelizes deste senhor uma tentativa desesperada de inculcar um pouco de responsabilidade nas cabeças dos condutores portugueses. E, por isso, me parece passível de desculpa, mesmo que o que ele tenha dito seja politicamente incorrecto, talvez até uma falta de respeito. Neste caso, porém, a meu ver, perfeitamente desculpável!

Já o meu marido alemão diz: os portugueses são dos povos mais simpáticos e pacientes do mundo... Até que se sentam atrás de um volante!
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De João André a 02.01.2012 às 09:37

Uma vez que a conversa vem de abaixo (nos posts), deixo aqui o meu comentário.

Sobre a Alemanha não falo, que já aí está acima melhor comentário. Sobre a Holanda posso falar. Os condutores holandeses são do mais exasperante que existe. Seguir na autoestrada na faixa esquerda em ultrapassagem pode ser um teste de nervos. Quando deixamos aquilo que consideramos uma margem de segurança para o carro da frente arriscamo-nos a que alguém decida meter-se à nossa frente para também ultrapassar. Fazem-no frequentemente deixando um espaço que não seria uma margem de segurança parados nos semáforos. E frequentemente sem fazer o pisca. Aliás, pelo menos um terço dos condutores holandeses parece ignorar o conceito de sinalizar quando mudam de direcção. Com a densidade populacional e automobilística do país, conduzir nestas estradas causa uns bons cabelos brancos a quem não cresça neste ambiente.

Curiosamente não há muitos acidentes, isto apesar de a própria organização das estradas ser mázinha. A qualidade das estradas em si é a melhor que já vi na Europa (não explorei toda a Europa, mas até agora...). A sinalização é adequada. Os condutores respeitam os limites de velocidade, apesar de quase todos os controles de velocidade serem conhecidos (os sistemas de navegação têm-nos - é permitido - e as rádios anunciam onde estarão controlos móveis de velocidade a cada dia).

Já no controlo de álcool, em 8 anos de residência e 4 de condução frequente, só fui parado uma vez. A polícia fez-me desviar da estrada, disse-me para me manter no carro, soprei no balão sentado e descansado através da janela e, quando deu zero, deram-me um porta-chaves a dizer "Bob" (nome dado à pessoa, num grupo, que não bebe e depois conduz) e mandaram-me embora. Um minuto no total, talvez. Nada de perguntas estúpidas como "bebeu hoje?", nada de controlo de documentos, nada de posturas arrogantes. Rápido e eficaz.

E isto faz a diferença. Na Holanda a campanha, mais que no sentido de "se beber não conduza", segue o sentido do "Bob": beba, mas tenha alguém que seja depois o condutor. Ajuda que nas cidades as pessoas tenham ou bons transportes públicos ou bicicletas para sair, mas há também uma campanha de sensibilização que começa muito cedo, na escola (olá arautos do liberalismo que acham mal "endoutrinar" as criancinhas). Também ajuda que as estradas estejam em perfeitas condições. Idem em relação ao respeito pelos limites de velocidade. E ainda em relação à inspeção dos veículos, cuja data limite é lembrada através de uma carta e que garante que os automóveis se mantêm em perfeitas condições.

Portanto: consciência cívica (não é das ideais na Holanda), sensibilização, alternativas ao carro, estradas em excelentes condições (reduz distâncias de travagem, por exemplo), carros em boas condições (não há travões a falhar) e controlos simples e eficazes que aumentam o respeito dos condutores pela autoridade. Tudo isto são factores que ajudam a menor "sinistralidade" (como odeio a palavra...).

PS - é verdade que há muitos acidentes em Portugal, mas seria também boa ideia ver a redução que tem existido nas últimas décadas. Ainda não estaremos bem, mas vamos avançando no bom sentido. Maus hábitos não se mudam de um dia para o outro.
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De Cristina Torrão a 03.01.2012 às 19:25

João André, li o seu comentário com muito interesse, porque gosto sempre de comparar experiências.

Realmente, os holandeses são incríveis em mudar de faixa nas auto-estradas. Passamos, às vezes, na Holanda (entre Venlo e Maastricht), nas nossas viagens a Portugal. O facto de não haver muitos acidentes deve-se, a meu ver, ao facto de se respeitarem os limites de velocidade. O que torna a condução mais confortável.

Na Alemanha, por exemplo, não há limite nas auto-estradas, excepto nos locais assinalados, em caso de obras, de más condições de piso, de risco de haver engarrafamentos, etc. Isto de não haver limite, na teoria, é muito bonito, mas, na prática, pode ser muito "stressante". Se eu andar a 140 km/h e quiser ultrapassar, olho pelo retrovisor, vejo um carro lá longe, acciono o pisca, mudo de faixa... E o carro está, de repente, colado à minha traseira, a travar como um doido, porque vinha a 200 km/h, ou mais! Ainda assim, raramente faz sinais de luzes porque é proibido. O que acho bem, pois, se ele pode andar à velocidade que quiser, eu também tenho a liberdade de dizer que me recuso a passar os 140, sem perder o meu direito de ultrapassar um veículo mais lento.

Concluindo: se quisermos ultrapassar numa auto-estrada alemã, temos de ir com atenção redobrada e ter bom olho para calcular velocidades. Na Holanda, esse aspecto não existe, porque toda a gente sabe que andam todos a 110, ou 120 km/h.

Em 19 anos de Alemanha, NUNCA fui controlada pela polícia, nem para mostrar documentos, nem para "soprar no balão", nem por qualquer outro motivo!

Também acho que se devia realçar o facto de a situação em Portugal ter melhorado, apesar de o número de acidentes e de mortos ainda ser gritante.
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De João André a 05.01.2012 às 08:01

É verdade que a velocidade nas autoestradas alemãs obriga à atenção, mas dá vontade de dizer que atenção deveremos ter sempre. Como moro em Maastricht e trabalho na Alemanha (Aachen), acabo por conhecer relativamente bem ambos os estilos de condução.

Um dos aspectos que me agrada no alemão é, contudo, a reacção aos sinais de mudança de direcção. Se formos na faixa da direita e quisermos ultrapassar, basta sinalizarmos essa intenção que muitos condutores que venham na faixa da esquerda abrandarão para que possamos entrar. Finda a ultrapassagem, voltamos à faixa da direita e o condutor que nos deixou entrar volta a acelerar.

Muito sinceramente, entre a condução alemã e holandesa, a minha preferida é a alemã (aliás, prefiro os alemães aos holandeses em quase tudo). Ainda assim, dava jeito que os alemães tivessem estradas tão boas como os holandeses, mas o tamanho do país não facilita a tarefa.
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De Cristina Torrão a 05.01.2012 às 19:09

É interessante que diga que prefere os alemães aos holandeses em quase tudo. Só conheço a Holanda de passagem, mas, na Alemanha, apesar de, em princípio, não se gostar dos holandeses, tem-se a sensação de que a Holanda é um país muito simpático e tolerante. Mas, às vezes, penso que é um país pequeno demais para a população que possui. Enfim, na Alemanha, a densidade populacional também é alta.

Quando fala que as estradas alemãs não são tão boas, não sei se se refere às eternas obras, que causam muito transtorno. Na verdade, na Alemanha há engarrafamentos constantes nas auto-estradas. Um dos motivos são as obras, mas outro será talvez precisamente esse sistema que permite velocidades tão díspares. Enfim, os próprios especialistas têm várias opiniões. Muitas vezes, eu penso que há, simplesmente, carros a mais!
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De João André a 06.01.2012 às 08:24

Eu vivi na Alemanha em 2001-2002 (pouco mais de um ano) e vivo na Holanda desde final de 2003 (pouco mais de 8). Apesar de ter ficado com o mesmo tipo de impressão em relação aos holandeses no início (muito amigáveis e simpáticos), a verdade é que passados 8 anos continuo a não ter nenhum amigo próximo (com quem tenha mais intimidade) que seja holandês. Tenho vários com quem me dou bastante bem, mas os meus amigos mais próximos não são holandeses. Tenho mais amigos próximos alemães que holandeses.

Os holandeses são pessoas muito afáveis ao primeiro contacto, mas com o tempo a relação não evolui muito. O contrário dos alemães, que podem ser mais frios mas com o tempo, a confiança é ganha e consegue criar-se mais intimidade.

Quanto à tolerância, se é verdade que os holandeses toleram muito, também é verdade que aceitam pouco e julgam muito os outros. Não são abertamente hostis a um estrangeiro, por exemplo, mas através de pequenas acções acabam por o ignorar e segregar. E digo isto sendo alguém que conhece relativamente bem a cultura holandesa e que fala bem a língua.

Claro que prefiro não fazer juízos de valor (embora por vezes seja impossível), até porque se é essa a mentalidade do país, só posso aceitá-la e tentar integrar-me nela o melhor possível. E também não é uma descrição que sirva todos os holandeses, como é óbvio.

Quanto às estradas, são melhores porque recebem manutenção mais frequente, têm limite de velocidade (ajuda a evitar o desgaste) e porque a qualidade de piso é absolutamente excepcional. Aliás, experimente fazer algo: num dia de chuva atravesse a fronteira e veja como a quantidade de água na estrada parece diminuir a 90%. O tipo de piso é especial, patenteado na Holanda, e tem um escoamento superior ao dos pisos normais. Também é mais caro, mas é para isso que servem os meus impostos de estrada de 220 euros por trimestre...
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De João André a 02.01.2012 às 11:23

Já agora, e em sequência do que escrevi no comentário anterior (até ao momento ainda não tiveram tempo de o aprovar, por isso não surge em "resposta"). O relatório da OCDE sobre saúde (http://www.oecd.org/dataoecd/6/28/49105858.pdf) dá conta de Portugal ter uma taxa de mortalidade em acidentes de transporte acima da média da OCDE. Por outro lado, entre 1995 e 2009 teve uma redução da mesma na ordem dos 63%. Isto confirma que poderemos estar mal, mas estamos no bom caminho.

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