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Poetas esquecidos (6)

por Ivone Mendes da Silva, em 29.12.11

Isto de associar ideias é rodopiar que bem se conhece mas que nem sempre bem se explica. Estive, durante a tarde, a conversar sobre o romance Adoecer da Hélia Correia. Um beleza de livro, fica já aqui dito. A personagem central é Elizabeth Siddal, a conhecida pré-rafaelita que posou, entre outras coisas, para o quadro de John Everett Millais, feita Ofélia e deitada numa banheira mal aquecida com um vestido antigo recamado a fio de prata cujo peso a puxava para a pouca água e lhe provocou uma pneumonia de tão demorado ter sido o tempo de pose. Ora bem: como é sabido que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa vã imaginação, um anjo de passagem, dos que fizeram formação em blogues, segredou-me à consciência: “Olha lá, não devias voltar a falar de um poeta esquecido?” Pois é, pensei: os poetas. Depois: Ofélia. A Ofélia de Fernando Pessoa, irmã de Carlos Queirós. Será o meu poeta de hoje.

José Carlos Queirós Nunes Ribeiro nasceu em Lisboa em 1907 e morreu em Paris em 1949. Já conferi as datas, não me enganei. Felizmente, há sempre um ou outro comentador de bom coração que me vem assinalar o lapsus calami (ou de tecla, no caso vertente). Amigo de Fernando Pessoa e de Luís de Montalvor, a estética do Orfeu não deixou marcas muito visíveis na sua produção poética. Se alguma influência se quiser encontrar, será a da Presença, talvez mais de Régio, embora a poesia de Carlos Queirós assuma características muito próprias, diversas dos dois modernismos. Em vida, a sua publicação foi escassa: Desaparecido e alguns poemas em várias revistas. A publicação póstuma de Poesia Completa permitiu uma visão de conjunto sobre uma escrita de grande apuro sintáctico e formal. Eu di-lo-ia um clássico moderno e citadino, com dores de alma refreadas numa expressão contida. É um nostálgico comedido, desencantado do mundo e dos seus enganos. Uma nostalgia muito portuguesa, com metáforas de veleiros e de arrais.

 

Sempre que leio nos jornais:

«De casa de seus pais desapar’ceu...»

Embora sejam outros os sinais,

Suponho sempre que sou eu.

 

Eu, verdadeiramente jovem,

Que por caminhos meus e naturais,

Do meu veleiro, que ora os outros movem,

Pudesse ser o próprio arrais.

 

Eu, que tentasse errado norte;

Vencido, embora, por contrário vento,

Mas desprezasse, consciente e forte,

O porto do arrependimento.

 

Eu, que pudesse, enfim, ser eu!

- Livre o instinto, em vez de coagido.

«De casa de seus pais desapar’ceu...»

Eu, o feliz desaparecido!

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18 comentários

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De Anónimo a 29.12.2011 às 23:19

Como é que você sabe estas coisas todas e também as que escreve no seu blogue?
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De Ivone Mendes da Silva a 30.12.2011 às 02:18

Ó anónimo/a generoso/a, isto são coisas de pouca monta, não fazem a felicidade de ninguém :)
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De Leonor Barros a 29.12.2011 às 23:39

Muito bem, Ivone, este não conhecia mesmo.
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De Pedro Correia a 29.12.2011 às 23:48

Há anos que não ouvia falar do Carlos Queiroz, poeta 'presencista' hoje verdadeiramente esquecido. Morreu prematuramente num ano funesto para a literatura portuguesa: 1949. O ano em que morreram dois outros escritores também demasiado cedo: Francisco Bugalho e Soeiro Pereira Gomes.
Três anos depois, em 1952, morria - igualmente muito jovem - outro poeta hoje injustamente esquecido: Sebastião da Gama. As mortes prematuras na literatura portuguesa davam outra série, Ivone.
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De Ivone Mendes da Silva a 30.12.2011 às 02:19

Ah, pois dava, boa ideia ... mesmo boa ideia :)
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De Ana Vidal a 30.12.2011 às 00:30

Gosto muito da poesia do Carlos Queirós. Mas não fazia ideia de que ele era irmão da Ofelinha das cartas de amor ridículas... sempre a aprender consigo, stôra Ivone!
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De Ivone Mendes da Silva a 30.12.2011 às 02:20

Pois, foi por intermédio dele que Pessoa conheceu a Ofelinha :)
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De Anónimo a 14.05.2019 às 21:36

Ana Vidal , A Ofélia era tia de Carlos Queirós, irmã da mãe
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De Laura Ramos a 30.12.2011 às 02:21

Não sei porquê, tinha (mal) arquivado na minha cabeça uma qualquer 'entente' entre Carlos Queiroz e Florbela Espanca. Quase juraria, mas parece que ele afinal não fez parte da sua extensa lista de presas. E era então, sim, irmão da "almofadinha pregadeira de alfinetes" e "pombinha de leque" Ofélia... :)
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De Ivone Mendes da Silva a 30.12.2011 às 02:24

Sim, essa mesmo :)
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De Ana Vidal a 30.12.2011 às 12:11

Se alguém me chamasse "almofadinha pregadeira" levava com um alfinete num olho, garanto! Mesmo que se chamasse Pessoa.
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De Laura Ramos a 30.12.2011 às 12:21

Ah, mas eu também, nem duvides ;) No mínimo, obrigava-o a engolir os ditos alfinetes, todos... Aliás, eu tenho um problemazinho: gosto muito do Pessoa, especialmente do Caeiro. Mas este endeusamento nacional é tão ridículo como as cartas de amor. Comigo, funciona ao contrário: tal e qual como (me) acontece com o Saramago. Nem tanto ao mar...
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De José da Xã a 30.12.2011 às 10:35

A menina Ofélia a quem o Pessoa respondeu quando foi apanhado, por ela, a beber no Martinho da Arcada:
"apanhado em flagrante delitro".
Que 2012 nos traga mais "poetas esquecidos". Bem haja pela partilha e um feliz 2012.
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De Ivone Mendes da Silva a 30.12.2011 às 10:53

:)) Um bom 2012 também para si, José.
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De André a 20.05.2013 às 12:49

Bom dia, a Ofélia não seria tia de Carlos Queiroz?
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De Ivone Mendes da Silva a 20.05.2013 às 13:09

Caro André, muito lhe agradeço o reparo. Tem, com certeza, razão. Ofélia era uma das irmãs da mãe de Queiroz, daí estar o parentesco errado. Erro muito divulgada, ao que consta, segundo me diz rigorosa fonte pessoana que acabei de consultar.
Obrigada pela leitura atenta.
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De Anónimo a 14.05.2019 às 21:31

Ofélia de Fernando pessoa era Tia de Carlos Queiroz. irmã da mãe Joaquina

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