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Delito de Opinião

Sem deuses nem Cristo

Pedro Correia, 29.12.11

 

A "Europa" suspensa da próxima presidência europeia, confiada à Dinamarca, já a partir do dia 1. Do próximo Conselho Europeu, em Bruxelas. De mais uma cimeira "decisiva". Como gostam de dizer os jornalistas papagueadores de banalidades, "tudo pode acontecer". Um deles, fazendo jus aos seus consabidos dotes histriónicos defronte das câmaras, vem proclamando com dramatismo crescente: "A União Europeia está à beira do precipício."

Exageros à parte, paira de facto a sensação de que a curto prazo nada ficará na mesma: a Europa modelar do "Estado social", do crescimento económico e do pleno emprego parece pertencer definitivamente ao passado nestes dias em que apenas se ouve falar em défice, "dívidas soberanas", estagnação económica e recessão. O problema é que aquele modelo agora em acelerado declínio não se limitou a assegurar a prosperidade no Velho Continente durante mais de meio século: assegurou também a paz. E não é preciso sequer ser um espectador diário de telejornais para se divisarem as nuvens negras a crescer no horizonte: antevê-se uma explosão de nacionalismos exacerbados, violência extremista, tensões xenófobas, pulsões autoritárias. As fronteiras europeias foram durante séculos as mais perigosas do mundo. Jean Monnet, Robert Schuman, Alcide di Gasperi, Winston Churchill, Ernest Bevin, Paul-Henri Spaak e Konrad Adenauer -- além do presidente norte-americano Harry Truman, através do Plano Marshall -- contribuíram para diluir conflitos e limar arestas que pareciam insuperáveis, reiventando a Europa que emergiu das cinzas da guerra como um baluarte de cidadania, concórdia, progresso e esperança.

Vivemos numa expectativa tensa, num fugaz tempo de interlúdio. Um tempo em que os deuses morreram e Cristo ainda está por nascer, para usar uma magnífica metáfora de Marguerite Yourcenar -- património franco-belga, património da Europa, património do mundo sem fronteiras.

 

Imagem: Churchill e Adenauer, dois pioneiros da Europa unida

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