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O que ando a ler (17)

por Ana Margarida Craveiro, em 27.12.11

 

Nas últimas semanas, tenho andado a braços com um tijolo de 800 páginas. O autor é Steven Pinker, psicólogo social, que nos oferece este The Better Angels of Our Nature - The Decline of Violence in History and Its Causes. O subtítulo explica exactamente o conteúdo: a violência tem vindo a diminuir, ao longo do tempo, e o autor procura as causas desse declínio, recorrendo à história, sociologia, economia, psicologia e filosofia política.

Contrariamente às teses mais negras sobre a contemporaneidade, Pinker explica-nos, por estatísticas, gráficos e exemplos, que nunca vivemos tão em paz e tão tranquilos. O período posterior à Segunda Guerra Mundial caracteriza-se por uma longa paz, um período pacífico como nunca antes a espécie humana conheceu. E apresenta quatro grandes tendências que explicam esta paz: processo de pacificação, processo civilizacional, revolução humanitária e revolução dos direitos.

Os primeiros capítulos são uma descrição da nossa evolução: massacres, torturas, escravidão, guerras, enfim. A nossa história é um longo banho de sangue, que se verifica empiricamente nos esqueletos mutilados dos primeiros homens e simbolicamente nos relatos bíblicos. Só a Idade Moderna vem refrear os nossos ímpetos de chacina em massa, com o aparecimento do Estado, e o seu monopólio da violência. Pinker confirma que Hobbes tinha razão: sem o Leviathan, a vida era mesmo "nasty, brutish, and short". É o chamado Processo de Pacificação, que diminuiu as hipóteses de morrermos vítimas de homicídio ou guerra. Claro que passámos a morrer às mãos dos governantes, mas os números indicam que a vida passou a ser um bocadinho melhor.

O processo seguinte centra-se numa teoria de Norbert Elias, um daqueles autores prejudicados pelo timing inconveniente das suas conclusões. Judeu na Alemanha Nazi, Elias centrou a sua carreira na teoria do Processo Civilizacional, que nos explica como lentamente passámos a controlar melhor os nossos ímpetos, tendo como consequência uma descida, por exemplo, do número de homicídios e crimes violentos. Substituímos uma série de códigos morais relacionados com o indivíduo (duelos por honra, a vingança) por uma acção em sociedade, arbitrada pelo Estado. Ao mesmo tempo, fomos reforçando os laços societais, através do comércio, e isso também nos levou a dominarmo-nos em público. Esfaquear um sócio de negócios é capaz de não ser boa publicidade para o nosso próprio negócio.

O Iluminismo trouxe-nos a Revolução Humanitária, devidamente amplificada pelo fenómeno da imprensa. De repente, cortar pedaços aos prisioneiros e atirar mulheres amarradas para dentro de rios a ver se boiavam passou a ser cada vez mais mal visto. Livros como A Cabana do Pai Tomás foram fundamentais para desmontar mitos e ideias falsas sobre os negros, isto é, sobre a diferença. Os próprios animais beneficiaram desta revolução, com a queima lenta de gatos a deixar de ser um desporto das elites. A última grande tendência é a revolução dos direitos, incluindo mulheres, minorias étnicas e sexuais, crianças e animais.

Pinker oferece sempre números para esta difícil realidade. O nosso problema, parece, é de memória: lembramo-nos imediatamente de Hitler e de Estaline, mas esquecemos os milhões mortos pelos Mongóis, durante a Rebelião de Taiping, durante a conquista das Américas ou pela escravatura. Lembramo-nos do que está mais perto, e muito naturalmente damos mais importância. Na verdade, hoje ligamos a televisão e anunciam-nos que morreram dez afegãos ou dez iraquianos. Não há muito tempo, anunciavam-nos alguns milhares de vietnamitas. Antes disso, milhões de chineses. Passámos, inconscientemente, a dar mais valor a cada vida, e isso é bom. A espécie humana melhorou um bocadinho, mas nós temos dificuldade em aceitá-lo. Procuramos logo outros números que o desmintam: então e os Balcãs? E o Ruanda, ou o Sudão? Mas os gráficos do autor, recolhidos de várias fontes, demonstram que somos mesmo míopes: olhando para a "bigger picture", a tendência é mesmo de descida. 

Estou nas páginas finais deste livro, à descoberta dos tais "better angels" que explicam tudo isto. Mas uma coisa é certa: Kant tinha razão. A paz perpétua pode não ser perpétua, num certo sentido determinista, mas existe. Pelas instituições políticas e pelas instituições económicas, conseguimos uma sociedade um bocadinho mais cosmopolita, um bocadinho mais aberta. E, sobretudo, mais pacífica.

 

Posto isto, Ana Sofia Couto, que andas tu a ler?


9 comentários

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De lucklucky a 27.12.2011 às 16:38

Incluí as estatísticas de crime? Por exemplo na Venezuela, Honduras há mais taxa de mortos por crime que nas guerras do Iraque e Afeganistão.
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De Ana Margarida Craveiro a 27.12.2011 às 16:46

sim, ele valoriza esses números por oposição ao menor número de guerras.
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De Els a 27.12.2011 às 17:36

Bem que precisamos da lucidez deste tipo de análises e comentários. Pode funcionar como um farol neste nevoeiro cada vez mais espesso em que nos meteram, que vai perdurar, e onde tenderemos a sobrevalorizar a violência...
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De jj.amarante a 27.12.2011 às 19:27

Parece uma tese muito interessante. Eu talvez espere por uma eventual versão abreviada.
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De Pedro Correia a 28.12.2011 às 01:17

Estabeleço sempre uma dúvida metódica perante todos os determinismos, Ana - sejam kantianos, hegelianos, marxistas ou quaisquer outros. Basta ler alguns autores dos anos ou meses que precederam a I Guerra Mundial assinalando as quatro décadas de gloriosa paz na Europa que parecia ser perpétua. Nada mais ilusório, afinal.
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De Ana Margarida Craveiro a 28.12.2011 às 08:56

Vou ter de defender o Pinker, Pedro. Ele tem particular cuidado com isso, em cada parte. Vivemos um período de paz inaudito, mas pode acabar. Ele procura as razões para esta paz, mas diz que nada disto é um fim da história. Muito pelo contrário, até se dedica por exemplo a desmontar aquelas ideias de que a guerra resulta necessariamente de uma escalada da violência.
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De Ana Lima a 28.12.2011 às 01:40

Eu trabalho na área da Sociologia Urbana e há um sociólogo de que gosto muito, Zygmunt Bauman , que defende, há muito tempo, essa ideia quando falamos de cidades, que nasceram exactamente para proporcionar segurança. E, pelo menos nos países mais desenvolvidos, tal como ele diz, vivemos nas sociedades mais seguras que alguma vez existiram. Tal como em relação a muitos outros temas a necessidade de relativizar é fundamental. Nada como as lições da história para nos lembrarmos que é, de facto, assim.
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De Ana Vidal a 28.12.2011 às 16:08

Há uma tese dos naturalistas que dá que pensar: defende que as guerras são também uma espécie de auto-regulação natural, já que a Terra - dominada como é por seres inteligentes e em permanente evolução, que vivem cada vez mais tempo - ficaria sobrelotada até ao insustentável dentro de alguns séculos. Uma paz perpétua, acompanhada da inerente escalada de progresso, levaria a uma situação impossível. E assim, a par dos cataclismos naturais que o próprio planeta se encarrega de promover, usamos por instinto (somos animais, não esquecer) a velha lei do mais forte para repor os níveis demográficos e preservar os recursos. Talvez seja um bocadinho simplista, mas faz algum sentido. O que achas?

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