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O que ando a ler (16)

por Ana Lima, em 26.12.11

A primeira vez que li um livro de Dulce Maria Cardoso, “Campo de Sangue”, o primeiro romance que publicou, tive uma estranha sensação. Senti que aquele livro poderia ter sido escrito por mim, ou melhor, mesmo que o tema fosse outro, aquele seria, pelo estilo, pela  construção das frases, o livro que eu escreveria se soubesse e pudesse escrever. Os outros livros que li da mesma autora não tiveram o mesmo impacto em mim mas deixaram-me a certeza que ela é uma escritora que nunca deixarei de acompanhar. Foi por isso que comprei este “O Retorno” mal ele foi publicado. Acabei de o ler na sexta-feira. 

 

Através de “O Retorno” regressamos ao ano de 1975 para acompanharmos o Rui, adolescente, desde os últimos dias em Luanda, quando se vê obrigado a deixar a sua casa, onde a mãe colocou, pela última vez, na mesa da cozinha uma toalha com dálias bordadas, até ao dia em que a sua família se muda para uma casa “com janelas coladas ao tecto”, já na metrópole, onde ele pensava existirem, com abundância, cerejas e raparigas bonitas. 

É um tempo de crescimento, de aprendizagem, um tempo em que, a viver num hotel de 5 estrelas, no Estoril, transformado pelo IARN em residência temporária de famílias sem habitação, Rui descobre o lado de cá de um império que tentava aprender, naqueles dias, a sobreviver reduzido ao seu espaço mais pequeno. Do seu quarto acanhado só a vista para um mar imenso lhe permitia sonhar com a América para onde levaria a sua mãe e a sua irmã. Não foi para a América. O seu corpo aprendeu a habituar-se à água fria deste mar, mas não se habituou ao lugar que as professoras lhe reservavam no fundo da sala por ser retornado. 

Nunca estive em África. Podia ter estado. Se os meus pais não tivessem optado pela migração interna, quando quiseram afastar-se da pobreza que os tolhia. De ambas as famílias foram os únicos. Todos os meus tios saíram de Portugal. Os mais velhos, primeiro, para o Brasil. Os outros depois para Moçambique. Estes últimos “vieram com o Rui”. Eu era demasiado pequena para compreender a revolta, a tristeza, a estranheza perante uma terra que alguns tinham deixado jurando que a ela só voltariam quando pudessem enfrentá-la com a certeza de que ela já não voltaria a rir-se deles; e que os mais novos só conheciam de fotografias. Mas não era assim tão pequena que não me tivesse ficado na memória aquele quarto de pensão em Setúbal onde as camas estavam a um palmo do fogão. Era ali que os meus primos mudavam as fraldas às bebés nascidas havia apenas alguns meses. E era ali, certamente, que eles recordavam a vida que deixaram para trás. Este livro fez-me compreendê-los melhor. 

Há dois retornos presentes nesta obra: a vinda para Portugal dos que residiam nestes territórios que passaram a constituir países independentes; e a tomada de consciência de que o sonho que se tinha ficou pelo caminho e que se está preso a uma realidade que se conhece mal mas que é preciso absorver para que se possa renascer para uma nova vida. Muitos dos que retornaram terão feito os dois. Outros terão ficado pelo retorno físico. A nenhuns a história do Rui será estranha. E nem aos que não viveram este retorno mas que sabem que a vida também se desenha em círculos e não apenas em linhas rectas.

 

E tu, Ana Margarida, queres falar-nos do livro que andas a ler?


11 comentários

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De IsabelPS a 26.12.2011 às 14:30

Obrigada pela sugestão.

Espero que o livro esteja realmente à altura duma história que merecia mesmo ser contada, principalmente num momento em que a nossa auto-estima anda pelas ruas da amargura.

Falamos muito da nossa época áurea, da expansão, e quase nunca da dignidade (não gosto desta palavra, mas não sei como traduzir a inglesa que me vem ao espírito, "grace", infinitamente mais prenhe de significado e que tão bem descreve o melhor que somos) com que o nosso povo refluiu para as praias do rectângulo 6 ou 7 séculos depois.

Se o livro estiver à altura, vem mesmo a propósito.
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De Tiro ao Alvo a 26.12.2011 às 18:36

Concordo inteiramente consigo. Tive oportunidade de ver dois lados daquela "tragédia", à falta de melhor palavra: por um lado, a vida de um hotel de luxo "ocupado" pelos retornados, a lembrar a vida dos quartéis, não fora a presença das crianças, e a integração envergonhada nas terras de origem dos progenitores, sem grandes laços ou com laços inteiramente cortados, mas sempre com dignidade, como escreveu. E, por fim, constatar muitos e muitos casos de sucesso, como parece ser o caso da autora do livro.
E bom que apareçam testemunhos dessa época que, a meu ver, em nada nos envergonha como povo, antes pelo contrário.
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De Ana Lima a 27.12.2011 às 12:03

Concordo com o que diz. Existem algumas coisas na nossa História de que nos devemos envergonhar. Mas esta não é certamente uma delas. Claro que há muitas questões que não foram bem resolvidas e alguns ainda hoje sofrem com isso. Mas, de uma maneira geral, (e sei que quem sentiu esta realidade na pele não concordará tanto assim com esta afirmação) a integração foi sendo feita sem grandes sobressaltos.
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De Ana Lima a 27.12.2011 às 01:35

Ultimamente têm sido publicados alguns livros sobre esta temática. Confesso que nunca li qualquer outro. Do que já li da e sobre a autora não me parece que se pretenda fazer algo parecido com a defesa de uma qualquer parte. Penso que o livro está à altura de contar uma história. Uma história pessoal, com muito significado e inserida no contexto histórico da época. Uma época cheia de revoluções, nos vários sentidos da palavra. Quem viveu esta realidade sabe que não haverá falta de elementos para um bom livro, argumento para filme ou algo do género. Eu diria que é uma boa sugestão mas, como gosto muito da autora, sou suspeita. :)
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De IsabelPS a 27.12.2011 às 10:57

Nem eu pensei em partes a defender ;-) Mas não é por acaso que estabeleci instintivamente um paralelo com a nossa época: para além do barulho dos telejornais, da crise e da descolonização, da Troika e do MFA, do Plano de Emergência e do IARN, existiram e existem os milhares de problemas e soluções pessoais que constituem a nossa resposta colectiva à situação. O que se passou então faz-me crer que vamos mais uma vez responder "with grace" à dolorosa gestão das dificuldades materiais e dos sonhos e expectativas gorados.
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De Ana Lima a 27.12.2011 às 11:55

Sim, tem razão, Isabel. Nem que seja por uma questão de instinto de sobrevivência. Mas para alguns vai ser certamente mais fácil que para outros.
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De Leonor Barros a 26.12.2011 às 15:14

O Retorno foi um dos meus presentes de Natal. Comecei a lê-lo ontem.
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De Ana Lima a 27.12.2011 às 01:40

Boa leitura, então, Leonor. Era interessante saber depois a tua opinião.
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De Leonor Barros a 27.12.2011 às 10:31

Ok, Ana, falarei disso depois, mas, sabes, o livro é-me muito familiar porque vivi a era dos 'retornados' cá em Portugal. Li pouco, mas estou a gostar.
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De José António Abreu a 26.12.2011 às 15:54

Li-o há umas semanas e gostei bastante. Merece o destaque.
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De Ana Lima a 27.12.2011 às 01:43

Só a parte final me deixou um pouco decepcionada, talvez. Mas, mesmo assim, um livro de que também gostei muito.

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