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Um ditador é um ditador

por Pedro Correia, em 19.12.11

 

A palavra ditador parece ter caído definitivamente em desuso em Portugal. Só isto explica que a SIC Notícias tenha hoje revelado ao País que "morreu o líder da Coreia do Norte". E no entanto não conheço nenhum outro dirigente mundial, na actualidade, que merecesse tanto o epíteto de ditador como Kim Jong-il, herdeiro da mais longa dinastia comunista do planeta. Nem conheço nenhum país que ostente um nome oficial tão desfasado da realidade como a chamada República Democrática Popular da Coreia. Um país que nada tem de republicano, pois o poder transita ali dentro do mesmo ramo familiar, como era costume na corte absolutista de Versalhes: o tirano agora falecido herdara o ceptro do pai, Kim Il-sung, e o seu indigitado sucessor será o filho mais novo, Kim Jong-un. Um país que nada tem de democrático: a transmissão do comando supremo ocorre em Pyongyang por simples decreto emanado da cúpula do partido único, enquanto os direitos mais elementares são ferozmente espezinhados. Um país que nada tem de popular: os norte-coreanos continuam a fugir para o exterior, com risco da própria vida, para escapar às tenebrosas condições proporcionadas pelo regime estalinista implantado em 1948. Um regime que condena a sua própria população à miséria e à fome, em flagrante contraste com a vizinha Coreia do Sul.

Morto o ditador, quem se apressou a endereçar condolências ao "povo coreano"? Naturalmente o PCP, que em vez de se insurgir contra a tirania prefere lançar farpas aos Estados Unidos. Omitindo a prática de tortura, as frequentes execuções públicas e a existência de dezenas de milhares de presos políticos na monarquia vermelha.

Nada que nos deva espantar: nas teses ao XVIII congresso do partido, em 2008, os estrategos da Soeiro Pereira Gomes elogiaram o regime de Pyongyang nestes termos inequívocos: "Importante realidade do quadro internacional, nomeadamente pelo seu papel de resistência à 'nova ordem' imperialista, são os países que definem como orientação e objectivo a construção duma sociedade socialista - Cuba, China, Vietname, Laos e R.D.P. da Coreia" (destaques a negro das próprias teses). Um facto que mereceu críticas de alguns dos mais prestigiados militantes do PCP, como o ex-líder parlamentar Octávio Teixeira.

O que seria de esperar de um partido que, nas páginas do seu jornal oficial, considera a Rússia estalinista "a mais brilhante conquista da história da humanidade"?  

 

ADENDA: O Estado de São Paulo chama ditador a Kim Jong-il. E o New York Times também. Ao contrário do que fizeram, por exemplo, o JN e o Público. É reconfortante saber que na grande imprensa internacional ainda há quem chame as coisas pelo seu nome. Porque um ditador continua a ser um ditador. Tenha a cor política que tiver.


24 comentários

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De João Carvalho a 19.12.2011 às 19:27

Muito bem. É que é mesmo isso.
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De Pedro Correia a 19.12.2011 às 21:52

As palavras no jornalismo hoje em dia não devem ser tomadas pelo seu valor facial, compadre. Confesso: isto faz-me muita confusão.
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De opuma a 19.12.2011 às 19:33

A coisa não é fácil

mas estou com o Octávio

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De Pedro Correia a 19.12.2011 às 21:52

Também eu. Já somos três.
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De zé luís a 19.12.2011 às 20:13

Um? Bolas, tou a ver a dobrar, deve ser o comprimido... ou o outro é o making of?
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De Pedro Correia a 19.12.2011 às 21:59

Também eu: vejo dois kins. Além do fantasma do terceiro, um pouco lá mais para trás.
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De lucklucky a 19.12.2011 às 20:34

Ditadores só está reservados para alguns:

http://www.publico.pt/Mundo/pinochet-o-general-ditador_1279241

"Ex-ditador chileno morreu aos 91 anos
Pinochet, o general ditador"

À esquerda na linguagem orwelliana de Publicos & Co só alguns são ditadores.
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De Pedro Correia a 19.12.2011 às 21:58

Os ditadores já não são o que eram. Pelo menos para alguns.
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De SC a 19.12.2011 às 20:41

Não sei bem o que entende por «corte absolutista de Versailles». Se se refere à monarquia francesa, esta era, de jure, electiva.
Enquanto Versailles foi a residência dos monarcas franceses nenhum filho do rei lhe sucedeu no trono.
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De Pedro Correia a 19.12.2011 às 21:57

Mais me ajuda, com essa simpática e douta achega.
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De AEfetivamente a 19.12.2011 às 21:25

O meu comentário aqando dessa mesma notícia - "finalmente", deus me perdoe::)) ´Também reparei que disseram líder (na RTP pelo menos), estranha-se e não se entranha. Pior foi ver a jornalista de serviço lá na tv estatal (não haverá outra, certaamente) a derramar lágrimas ensaiadas - que náusea, deus me perdoe 2. E depois continuaram as lágrimas, quase em convulsão. Nunca compreendi os fenómenos de idolatria (e forçada) fora da adolescência, muito menos que se admirem ditadores. O poder passou automaticamente para o filho. O que há de novo? A leste, nada.
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De Pedro Correia a 19.12.2011 às 21:56

A RTP já chamou "líder" a tanta gente...
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De Daniel João Santos a 19.12.2011 às 21:41

muito bem.
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De Pedro Correia a 19.12.2011 às 21:56

Saudações "internacionalistas", Daniel. Seja lá o que isso for.
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De Kruzes Kanhoto a 19.12.2011 às 22:08

Ditador?! Só um gajo com jeito para se fazer obedecer!
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De Pedro Correia a 19.12.2011 às 22:24

Consta que o camarada Kim era kanhoto... digo, canhoto.
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De José da Xã a 19.12.2011 às 22:58

Será que o antigo líder do PS também foi um ditador?
Estarei eu "seguro" da resposta?
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De JSP a 20.12.2011 às 00:04

Sugestão : pesquisar os seguintes nomes, Salazar, Franco, Pinochet, Videla, na "imprensa" e no telelixo noticioso televisivo.
A "surpresa" que (não) vai ter...
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De Pedro Correia a 20.12.2011 às 00:50

Claro. O Salazar era ditador, mas o Brejnev era "líder". O Franco era ditador, mas o Honecker era "líder". O Pinochet era ditador, mas os irmãos Castro são "líderes". O Videla era ditador, mas o Kadhafi era líder.
Nada de novo debaixo do sol.

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