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Há 50 anos

por Luís Menezes Leitão, em 18.12.11

 

Faz hoje precisamente 50 anos sobre a operação Vijay, através da qual a União Indiana procedeu à tomada de Goa. Historicamente foi o início da queda do orgulhoso Império Português, que o regime de Salazar acreditava ser eterno. Goa não tinha à altura qualquer importância económica ou estratégica para Portugal, possuindo apenas um valor simbólico e cultural. Era por outro lado um território militarmente indefensável, pelo que só por obstinação o país poderia pretender conservá-lo após a declaração de independência da Índia.

 

A estratégia de Salazar em defender obstinadamente Goa representou por isso um irrealismo total, que não hesitou em pedir um sacrifício humano inaceitável. Salazar pretendia a morte de todos os militares portugueses em Goa, apenas com o fim de provocar uma condenação internacional da Índia. Ao mesmo tempo ordenou que fossem retiradas de Goa as relíquias de São Francisco Xavier, algo que seria traumatizante para os católicos de Goa.

 

O absurdo da estratégia de Salazar atingiu o ponto de solicitar ajuda à Inglaterra com base na antiga aliança para combater a União Indiana em Goa. Como se os ingleses que foram expulsos de toda a Índia fossem a seguir entrar em guerra com a Índia apenas por causa de Goa. Seria como se a Inglaterra fosse pedir a Portugal que entrasse em guerra com o Brasil se o Brasil decidisse invadir a Guiana Inglesa.

 

Perante esta estratégia absurda o governador Vassalo e Silva tomou as decisões que se impunham. Não aceitou conduzir os militares seus subordinados a uma morte inútil, nem devolveu a Portugal as relíquias do santo, uma vez que sabia perfeitamente que os goeses nunca lhe perdoariam se o fizesse. Tal valeu-lhe a fúria do regime, tendo ficado com a carreira militar destruída. Mas teve o devido reconhecimento dos habitantes de Goa. Quando uns anos mais tarde lá voltou, foi apoteoticamente recebido. Os goeses sabiam que tinha sido graças a ele que a libertação de Goa não ficou manchada por um banho de sangue.

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8 comentários

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De xico a 18.12.2011 às 13:22

Tem toda a razão no que escreveu mas... a tomada da Índia foi um acto ilegal e condenado, ao que julgo, pela ONU. Não sei se Salazar pediu ajuda à Inglaterra como diz. Talvez tivesse pedido ajuda para medear e refrear os ânimos de Nehru.
Um dos erros de Salazar foi não ter feito um referendo em Goa, como alguém sugeriu e ele concordou de início.
Quanto às relíquias do santo, lembro que o mesmo é venerado inclusive pelos hindus, não só pelos católicos.
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De Luís Menezes Leitão a 18.12.2011 às 18:31

O recurso à violência nasrelações internacionais é sempre um acto ilegal, mas a Índia não foi condenada, uma vez que o delegado soviético vetou a condenação na ONU.

Salazar chegou a gabar-se publicamente que iria ser protegido pela Inglaterra em face da aliança, em caso de ataque da Índia a Goa. A Inglaterra declarou publicamente que em caso algum combateria a Ìndia, membro da Commonwealth.

Quanto ao referendo em Goa, essa foi uma proposta de Humberto Delgado nas eleições de 1958, mas não me parece que fosse aceite internacionalmente. Toda a gente sabia como eram realizadas as eleições em Portugal.

Não sei se é verdade o que diz em relação às relíquias do santo, mas tal só corrobora que teria sido inaceitável retirá-las da Basílica do Bom Jesus onde ainda hoje se encontram.
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De lucklucky a 18.12.2011 às 13:47

Mas se não fossem ocidentais - é extraordinário como o "indefensável" aumenta proporcionalmente à cor mais clara da pele - teriam sido uns heróis por resistirem.
Ou não?
Se os Timorenses fossem brancos deveriam ter resistido à Indonésia? Ou seria já indefensável e todos - os brancos- diriam para eles baixar os braços?
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De Luís Menezes Leitão a 18.12.2011 às 18:40

Os goeses não são ocidentais. Por isso não queira comparar a hipotética resistência de alguns soldados portugueses na Índia à resistência do povo timorense. A verdade é que os goeses não quiseram resistir. Alguma comunidade católica apoiava a ligação a Portugal mas a comunidade hindu, altamente maioritária nas novas conquistas, defendia a integração. Por isso o exército português sabia que, se o exército indiano atravessasse a fronteira, seria recebido pela população de braços abertos. É por isso que um morticínio dos soldados portugueses em Goa teria sido absolutamente inútil.
Em qualquer caso, a verdade é que Goa melhorou muito com a transição. Hoje Goa é o estado mais rico da Índia.
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De Mário Reis a 19.12.2011 às 03:29

«Libertação», «exército indiano recebido de braços abertos», «Goa está hoje melhor» (bom, 50 anos depois só faltava, não era?). Não sei onde vai buscar as suas «informações» mas talvez devesse diversificar as suas fontes. Mas atenção, apenas se quiser homnagear a Verdade. Se não, deixe estar...
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De Luís Menezes Leitão a 19.12.2011 às 07:17

As minhas fontes são simples: estive em Goa e tive ocasião de consultar o museu do Estado. Deveria fazer o mesmo. Não se fique apenas por conhecer um dos lados da questão.
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De lucklucky a 19.12.2011 às 20:40

Consultar o museu da propaganda não é propriamente uma fonte fidedigna. Aceito parcialmente o seu ponto sobre Hindus de Goa não eram hostis à Índia. Mas muitos Timorenses também não se preocupavam com a Indonésia. Ou seja um referendo seria a solução.
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De Luís Menezes Leitão a 20.12.2011 às 07:51

Ninguém acreditaria num referendo, sabendo-se como as eleições eram aldrabadas no antigo regime. E a independência de Goa seria insustentável, uma vez que depende economicamente daquela região indiana, já que tem Bombaim a apenas 600 km. Cedo ou tarde o novo Estado pediria a integração na Índia. Já se conseguiu muito com o facto de Goa ser hoje um Estado na Índia (e não foi graças a Portugal) pois é um Estado muito pequeno, enquanto todos os outros Estados têm dimensão muito superior. Logo a seguir à independência foi feito um referendo sobre a integração no Marahastra e o norte de Goa votou esmagadoramente a favor, só tendo sido graças aos votos do sul que a proposta foi rejeitada por escassa margem. Com a teimosia de Portugal, perdeu-se grande parte da ligação cultural que possuíamos em relação a Goa, já que hoje em Goa quase ninguém fala português. É evidente que uma estratégia mais realista teria dado melhores resultados.

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