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António José Faria de Barros foi o meu primeiro chefe. Transmontano, sisudo, teimoso, frio, áspero. Ou… nada disso. Antes de mais, um ser humano marcado pela vida. A mulher morreu prematuramente. Os dois filhos, deficientes profundos, sobreviveram um par de anos à mãe. Ao longo dos cinco anos em que trabalhámos juntos, os seus olhos só se iluminavam quando, depois de um dia de trabalho duro, contava algumas histórias de caça. Foi assim, pelos relatos de interposta pessoa, que conheci Adolfo Rocha. Eram amigos de longa data e caçavam juntos. As peripécias eram saborosas e bem contadas. Por vezes, imaginava-me com eles a comer achigãs na Foz do Sabor. Ou a caminhar ao seu lado, com os pés enterrados nas lamas transmontanas de Novembro. Um dia, disse-me: sabe, a minha mulher detestava o Torga… Mantive-me em silêncio, dando-lhe tempo para esconder o rosto atrás do monitor, enquanto uma lágrima de saudade lhe desfigurava a máscara gelada com que sempre se apresentava ao mundo. Pelo visto, em determinada altura, Torga teria tido um comentário mais frio sobre os filhos deficientes do casal: não podem viver só para eles. Nada de ofensivo ou brutal. Algo até muito natural para os ouvidos de qualquer outro interlocutor. Um punhal para o coração daquela mãe. E o Senhor Dr. como reagiu, perguntei-lhe. Sabe, eu li a Criação do Mundo, pisei com ele as pedras dos caminhos de São Martinho de Anta, estive com ele no sítio onde ele tratava do estrume enquanto os outros miúdos brincavam… por isso, percebo. Da obra de Torga, até então, tinha apenas suportado Os Bichos no ensino secundário. Por obrigação e com muito pouco entusiasmo e menos proveito. O tempo foi passando, mas aquela frase ficou: eu li a Criação do Mundo. A curiosidade foi crescendo e acabei por comprar o livro. Comecei a ler sem grande esperança ou entusiasmo. A memória do Corvo Vicente ainda estava demasiado presente… Depois, o assombro foi crescendo. Em termos estruturais, o livro divide-se em 6 partes, correspondendo cada uma delas a uma fase da vida de Torga. As duas primeiras (a infância em Trás-os-Montes e a adolescência e parte da juventude no Brasil) são relatadas em páginas que me marcaram como poucos livros o fizeram. É claro que, mais para a frente, perdi a magia. Digo que a perdi eu e não o livro porque é provável que seja assim. Se bem me lembro, desliguei-me do texto a partir do momento em que Torga descreve uma viagem em automóvel, por paragens de Espanha, e cai no auto-elogio. Agora, estou a relê-lo. É uma forma de recordar António José Faria de Barros e de agradecer tantos ensinamentos que não soube retribuir-lhe, sequer em palavras, em vida. De dizer-lhe que também eu percebo tudo, todos e nada ou nenhum deles. E, sobretudo, de tentar refazer a leitura a partir do episódio de Espanha. Se tiver a sorte de reaver a magia, direi que a Criação do Mundo é, no seu todo, um livro inesquecível.

 

Como deve ser, o melhor fica para o fim: em breve, a Teresa Ribeiro vai dar continuidade à série.


12 comentários

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De Bartolomeu a 07.12.2011 às 09:45

É curioso; também experiencio essa sensação de desagrado no decorrer de uma leitura.
E penso; o livro estava a a gradar-me tanto e de repente perdi o entusiasmo todo. O que terá feito com que assim fosse?
Não pretendo afirmar mas, sobressaltam-me as situações de déja-vú. Talvez porque crie expectativas exageradas no início da leitura, ou então, por ter tido já outras leituras que, talvez por ingenuidade, ou estado de espírito, ou outra qualquer inidentificável situação, prenderam o meu interesse desde o início.
Devo confessar; de Torga, comecei a ler "Os Bichos" e não consegui sentir o apelo para continuar. Mas está na estante, pode ser que um dia me espevite a curiosidade e faça nova tentativa.
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De Rui Rocha a 07.12.2011 às 22:22

A Criação do Mundo vale muito a pena, Bartolomeu.
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De João Carvalho a 07.12.2011 às 12:40

Muito bem. Esta é a época do ano para ler Torga: o lume a estrepitar, o presunto fumado um tanto salgado a pedir um copo de tinto espesso, a geada seca a entrar pelas frinchas...
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De Laura Ramos a 07.12.2011 às 12:52

Ó João, começaste tão bem... mas com essa da geada seca a entrar pelas frinchas arrepiei-me tanto que me cortei na mão com que estava a tirar uma finíssima fatia de presunto... ;(
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De João Carvalho a 07.12.2011 às 14:50

Vou já mandar o INEM para te entregar um cartão a pedir-te desculpa...
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De Laura Ramos a 07.12.2011 às 16:14

Fico è espera... melhor que sulfamidas;)
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De Rui Rocha a 07.12.2011 às 22:22

Depois deste teu comentário tenho de ir jantar agorinha mesmo, João.
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De Ivone Mendes da Silva a 07.12.2011 às 13:40

E eu percebo-te a ti e percebo perfeitamente por que razão paraste na viagem por Espanha.
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De Tiro ao Alvo a 07.12.2011 às 18:19

Gostei do seu post, Rui Rocha. Tanto pelo que diz do Torga, como quando fala do seu antigo chefe. Achei enternecedor.
Por mim, o que gosto mais de reler do Torga, são os seus Diários, de que pouca gente fala. É pena.
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De Laura Ramos a 07.12.2011 às 21:58

Tiro ao Alvo: o seu comentário é um tiro ao alvo. Eu ia justamente dizer isso.
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De Rui Rocha a 07.12.2011 às 22:24

Sim, também li vários Diários e a verdade é que gostei, TaA.

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